Crítica | Sob Pressão: A Rotina de Guerra de Um Médico Brasileiro, de Márcio Maranhão

Não é novidade alguma que a saúde pública no Brasil é uma desgraça. Algumas experiências por meio de convênio também não alcançam atendimentos memoráveis, haja vista a quantidade de pessoas que reclamam dos atendimentos de três a quatro minutos de médicos obrigados a alcançar metas e sequer olhar para os seus pacientes, tendo o compromisso da anamnese, da elaboração de receituário adequado, etc. Aos que assistem Grey’s Anatomy, a disparidade com a vida real pelos corredores de hospitais do Brasil é gritante. E os gritos não originam-se apenas da alegoria que se pretende estabelecer por aqui.

São pacientes alvejados por tiros, pessoas praticamente em estado de decomposição social, dentre outras celeumas. É nesta linha que o livro Sob Pressão – A Rotina de Guerra de Um Médico Brasileiro se encaixa. Uma descrição sem romantismo e licença poética. Lançado em 2014 pela Editora Fox (1ª edição), o livro foi reimpresso pela Editora Globo em 2017, grupo hegemônico da mídia brasileira que também produziu o filme e a série, inspirados nos relatos do material dramático de Márcio Maranhão. Dramático, devo dizer, não é uma metáfora, ao contrário, é o conteúdo das histórias contadas, tão absurdas que sequer parecem reais, mas extraídas de um filme de ação descerebrado.

Se a saúde pública no Brasil é um caos para os pacientes, no que tange ao cotidiano dos médicos não é muito diferente. Falta gaze, algodão, maca, iluminação adequada, enfim, um espaço minimamente digno para “salvar vidas”. Ao longo de suas 136 páginas, encontramos relatos que resumem o título da publicação, isto é, um profissional constantemente “pressionado”, a sobreviver numa “rotina de guerra”. São 11 capítulos concisos, bem escritos e instigantes, material com potencial dramático para cinema e televisão: “Indignação”, “O todo-poderoso”, “Lições de Anatomia”, “O desejo de Fausto”, “O maior escândalo”, “Lenita”, “Eu-sou-seu-médico”, “De porta em porta”, “O vício”, “Lusco-fusco” e “Onde eu assino”.

A divisão dos seus relatos, bem intencionada pedagogicamente, segue a linha “começo”, “meio” e “fim” de jornada, numa espécie de adaptação do formato 3 atos para o relato biográfico. O livro no geral é todo interessante, mas algumas passagens merecem destaque. Em “Indignação”, Márcio Maranhão alerta para o fato de que todo médico escreve motivado pela angústia. Sua necessidade de comprovar isso exalta Moacyr Scliar como exemplo. É um trecho introdutório: logo no segundo parágrafo, ele critica a universalidade da saúde, algo que deveria ser um direito de todos, mas que infelizmente é a maior preocupação dos brasileiros. Paradoxo, dos grandes.

Os primeiros momentos foram de envolvimento romântico. Não demorou muito para tudo ruir. Salvar ou não um bandido alvejado, responsável por outra pessoa vitimada a ser atendida no local? As salas bonitinhas e os tons azulados e esverdeados, em contraste com os objetos metálicos das salas de atendimento e de cirurgia dos filmes e séries não ensinavam a dura realidade dos hospitais cariocas, ambientes onde a morte estava constantemente presente, pairando em busca de seus próximos acompanhantes. Ele descreve de maneira tão cinematográfica uma sala de cirurgia cheia de compressas vermelhas espalhadas pelo chão que a nossa sensação é semelhante ao catártico momento de percepção da realidade que seria enfrentada em sua profissão: o pavor, a tensão, a inconstância.

Cabe ressaltar que todos os sentimentos a gravitar em torno das situações cotidianas não era despreparo do profissional, mas a falta de recursos para lidar com as situações extremas, algo que se tornou o ponto nevrálgico do livro. Há outras críticas e pontuações, mas o grande problema é a falta de recursos, oriunda da corrupção, da falta de efetividade do SUS e dos problemas gerais que envolvem políticas públicas e situações que circundam os centros hospitalares. Está tudo, milimetricamente, conectado. Uma verdadeira teia de problemas. Mais adiante, em “Lições de Anatomia”, o médico narra a sua primeira cirurgia, uma cesariana, além de fornecer dados sobre o SUS e suas políticas administrativas.

Em “O Desejo de Fausto”, o livro flerta com a literatura clássica para filosofar sobre Goethe e sua procura pela alma. É um momento de revelação para o médico, pois em sua concepção, tocar o coração de um paciente numa corajosa cirurgia de peito aberto é o mais perto que se pode chegar na intimidade de uma pessoa.   Nos capítulos seguintes, o médico fala sobre seus investimentos na profissão, sobre as diferenças do sistema de saúde brasileiro em comparação ao Canadá e alguns países europeus, fala do descaso salarial com alguém que passa o cotidiano com vidas alheias nas mãos, além de narrar quando conheceu a sua esposa, também médica, o casamento, a crise matrimonial, sua experiência com os atendimentos emergenciais do SAMU, dentre outras situações caóticas semelhantes ao dia em que precisou cortar uma mangueira de molhar plantas e lavar as áreas externas do hospital para servir de dreno numa cirurgia.

Sob Pressão – A Rotina de Guerra de Um Médico Brasileiro foi transformado em livro por Márcio Maranhão, embasado nos depoimentos fornecidos a jornalista Karla Monteiro. Médico nascido em 1970, formada pela UERJ em 1994 e especialista em cirurgia geral pelo Hospital da Força Área do Galeão e pelo Hospital Souza Aguiar. Como adicional, também tornou-se especialista em cirurgia torácica pelo Instituto de Tisiologia e Pneumologia da mesma instituição que lhe forneceu a sua formação basilar em medicina. Experiente nas práticas de atendimento emergencial do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), trabalhou concursado pelo estado, âmbito de onde extraiu as suas maiores experiências. O autor é um profissional que vive a dura realidade apresentada em cada parágrafo do livro, transformado em filme e depois em série televisiva, todos em formatos estéticos e críticos bem sucedidos.

Sob Pressão: A Rotina de Guerra de Um Médico Brasileiro (Brasil, 2014)
Autor: Márcio Maranhão
Editora: Editora Globo
Páginas: 132

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.