Home Música Crítica | “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa” – Emicida

Crítica | “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa” – Emicida

por Handerson Ornelas
137 views (a partir de agosto de 2020)

Já tem um tempo que parece que o Rap/Hip-Hop é o novo Rock n’ Roll. Uma sociedade que teve Cazuza e Renato Russo como ídolos musicais, hoje tem rappers como Emicida e Criolo como alguns dos maiores artistas nacionais. E é nesse seu segundo trabalho de estúdio que Leandro – ou melhor, Emicida – consolida mais ainda essa afirmação. Mostra que sua música se extendeu e hoje não se restringe ao rap, mas já é uma peça essencial da música popular brasileira atual.

Emicida já mostrava toda essa multiculturalidade em seu trabalho anterior, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve AquiNo entanto, seu mais novo disco, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, ainda que siga as mesmas características, possui algumas abordagens diferentes, além de, mediante a popularidade do rapper hoje em dia, definitivamente bem mais mergulhada no mainstream. O novo disco parece se centrar fortemente na cultura africana (a própria capa entrega isso) e nas críticas sociais, ainda que não se resuma só a isso.

Abrindo com umas das mais belas canções lançadas esse ano, em Mãe já é indicado o nível alto que o disco vai seguir. Aqui nós vemos Emicida abrir seu coração e desfilar rimas extremamente emotivas sobre sua mãe em cima de uma base de forte teor melancólico. É Emicida compartilhando grande parte de sua vida, (Alexandre no presídio, eu pensando em suicídio/ Aos oito anos, moça/ De onde você tirava força?) lembrando bastante a ótima e triste Crisântemo do disco anterior, já que ambas também contam com a participação de Dona Jacira, sua mãe. Segurar as lágrimas é uma tarefa difícil em tais canções.

Inspirado pela viagem que fez ao continente africano, Emicida mergulhou de vez no tema e inseriu a cultura negra local por toda parte em seu disco. Grande parte das batidas, por exemplo, são retiradas da música africana. E essa característica dá tanto tons dançantes ao disco – podendo ser como o swing de Mufete – ou batidas agressivas e impactantes como a de Boa Esperança e Casa. Aliás, o single Boa Esperança, por sua vez é um enorme soco de mão fechada cheia de críticas sociais sendo seguradas, é onde Emicida reverencia suas raízes com seu rap bastante crítico e agressivo (Cês diz que nosso pau é grande/ Espera até ver nosso ódio). Outra na mesma vibe e de nível altíssimo é Mandume onde Emicida reune um time de rappers (Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike & Raphao Alaafin) e cria talvez a melhor faixa do disco. Entre revezamentos de rappers, versos inteligentes (Tipo Mario, entrei pelo cano, mas levei a princesa) e críticas pesadas entram por toda parte, tudo isso por cima de uma excelente base sonora, cheia de batidas fortes, dançantes e samplers pontualmente inseridos. São 8 minutos onde vale cada segundo.

Mas nem tudo são flores no novo trabalho. O single Passarinhos lançado com Vanessa da Mata destoa totalmente do disco e mostra ser uma das canções mais fracas de Emicida. Letra bastante mediana, arranjo havaiano bastante manjado e clichê, além de um refrão um tanto vergonhoso. O Emicida de versos inteligentes e fortes chega a ser contraditório com o que escutamos aqui, parecendo canção feita pra tocar em novela. O que poderia se repetir na faixa com participação de Caetano Veloso, Baiana, não acontece, e temos uma demonstração de ótima faixa com pegada mais pop e “MPB” de nível muito maior que a citada anteriormente, com vocais bem sutis de Caetano nos refrões e batidas leves, acústicas e um tanto dançantes.

É com ótimas rimas cheias de referências pop, críticas sociais e exaltação a raça negra, batidas e arranjos de origem africana e de sonoridade bem pop que Emicida constrói mais um excelente álbum. Uma busca às raízes negras e a própria vida desse tal “Leandro”, como são todos seus trabalhos. Definitivamente deixar parte de si em um álbum e transformá-lo em algo único é uma tarefa que todo artista deve fazer e que Emicida sabe fazer com maestria.

Aumenta!: Mandume
Diminui!: Passarinhos
Minha canção preferida: Mãe

Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa
Artista: Emicida
País: Brasil
Lançamento: 7 de agosto de 2015
Gravadora: Laboratório Fantasma
Estilo: Rap, MPB

Você Também pode curtir

2 comentários

Cristiano de Andrade 26 de setembro de 2015 - 17:44

É impossível não se emocionar ouvindo “Mãe”.

Responder
Luiz Santiago 4 de setembro de 2015 - 19:45

Esse disco é maravilhoso. Ainda gostei mais desse do que o álbum anterior, como já tinha comentado com você. E concordo completamente com essa coisa de “Passarinhos” que de fato destoa do disco. Até da proposta mesmo. Ele está construindo uma discografia para se ter orgulho…

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais