Crítica | Sobrevivendo ao Natal

Nos primeiros instantes do drama Sobrevivendo ao Natal, dirigido por Mike Mitchell, tendo como direcionamento, o roteiro de Deborah Kaplan, Joshua Sternin e Harry Elfant, algumas breves cenas nos mostram que veremos, aparentemente, algo que o cinema hollywoodiano faz anualmente em suas produções natalinas, isto é, trapalhadas, piadas, personagens solitários em busca de companhia para os festejos e design de produção inspirado, repleto de apetrechos para dar conta do tal clima natalino que deveria ser, em maior parte, responsabilidade dos conflitos do roteiro. As aparências não se deixam enganar e logo confirmamos o feixe de sensações.

Ao longo de seus 91 minutos, as trapalhadas acontecerão em excesso, as piadas ultrapassam os limites do gosto duvidoso, a solidão do protagonista vai engendrar todos os mecanismos dramáticos burlescos da narrativa e os elementos visuais da história se apresentam bem caprichados. Na trama, acompanhamos a trajetória de um homem que deseja alugar uma família para passar o natal. Todos os seus colegas de trabalho demonstram que estão com as festas programadas. As ceias prontas, os presentes para as trocas à beira da lareira já empacotados e os demais tópicos listados na programação basicamente cumpridos.

Drew Latham (Ben Affleck) é o único que não dispõe de nada disso. Em sua busca desesperada e de última hora, apenas frustrações. As mulheres que ficaram no aguardo de sua ligação após o primeiro e último encontro já estão com as suas agendas indisponíveis e as pessoas que ele imaginava ser parte do seu círculo de amizades na verdade são criaturas que gravitam em torno de sua existência apenas para usufruir do luxo que é estar ao seu lado num restaurante ou qualquer evento social. Sem familiares e com a sensação de solidão pulsante, o protagonista toma a inusitada decisão de ir para a casa onde viveu a sua infância, tendo em vista intensificar as suas boas memórias.

Diante dos conflitos iniciais, somos apresentados ao novo panorama de situações que precisam ser resolvidas pelo roteiro. Drew, um homem estéril emocionalmente, mas cheio de dinheiro, é atacado por Tom Valco (James Gandolfini), o patriarca da família que habita o local que já foi a sua casa no passado. Depois da situação explanada, o acordo: ele saca as necessidades dramáticas daquelas pessoas afundadas em crises de toda ordem e decide aluga-los para passar o período natalino. O valor inicial é 25 mil dólares. Isso traz uma série de exigências que mudará completamente a rotina das pessoas que moram nesta casa. Christine Valco (Catherine O´Hara) é a matriarca que tal como nós, espectadores, acha a ideia idiota, mas decide comprar o bilhete da crença para ver até que ponto a narrativa vai se deslocar.

Drew vai passar os festejos acompanhado, feliz, mas trará inicialmente uma série de problemas para todos, em especial, o jovem Brian Valco (Josh Zuckerman), o caçula da família, adolescente que precisará ceder seu quarto, verdadeiro santuário com jogos e computadores, para o chato do Drew saciar os seus desejos afetivos. As coisas caminham de maneira exagerada, mas confesso que engraçada, com algumas piadas divertidas e situações absurdas, mas suportáveis. A coisa fica mais densa quando Drew pede aos seus familiares emprestados que sejam parte de uma encenação para a sua namorada, a antipática Missy Vangilder (Jennifer Morrison),  bem como para seus sogros, pois a jovem em breve será a sua noiva e para ser aceito, Latham precisa demonstrar que possui os itens básicos para ser um bom marido, além do seu dinheiro, claro.

Abobalhado e com uma tentativa de mensagem edificante, a produção é a típica narrativa sobre o poder do consumo de uns em detrimento da felicidade dos outros. Alegórico, o que não faz a trama ser nada além de um entretenimento ligeiro, mas ainda assim, material para refletirmos o poder de compra do dinheiro. Drew quer comprar coisas abstratas, justamente numa família que precisa de um pouco do que ele tem de sobra para colocar as coisas em perspectiva. Para engrossar esse caldo, ainda há Alicia Valco (Christina Applegate), a filha mais velha que sequer imagina a situação e precisa se adequar para não surtar nas festas de final de ano. Como é de esperar neste tipo de filme, é possível que Drew se interesse pela moça, inicialmente uma megera não domada, mas que se encantará ao conseguir enxergar, mesmo que de bem longe, o outro lado do moço, um rapaz que não tem ninguém para chamar de família e que é cheio de boas intenções, mesmo que se confunda às vezes, ao achar que pode comprar tudo.

Assim, em seu processo narrativo cheio de trapalhadas e “surpresas”, “Sobrevivendo ao Natal” conta com a direção de fotografia de Peter Lyons e Tom Priestley, dupla que consegue captar bem o clima natalino erguido pelos cenários de Lisa Fischer, cuidadosa na arquitetura da casa e dos demais espaços, decorados pela direção de arte de Bue Chan, todos em consonância com as propostas do design de produção de Caroline Hanania, idealizadora de um projeto visual eficiente para o tema. O problema do filme é mesmo o seu roteiro, óbvio demais, mecânico em excesso, forçado em demasia, talvez de maneira proposital, pois deve ter agradado bastante ao público alvo, massa que geralmente não se importa muito com os clichês e personagens achatados, sem profundidade psicológica ou algo a mais que nos faça se importar com a sua trajetória errante no período natalino, era de profusão da solidão para muitos que não se encaixam dentro dos padrões estabelecidos por nossa sociedade.

Sobrevivendo ao Natal (Surviving Christmas/Estados Unidos, 2004)
Direção: Mike Mitchell
Roteiro: Deborah Kaplan, Harry Elfont, Jeffrey Ventimilia, Joshua Sternin
Elenco:Ben Affleck, Bill Macy, Catherine O’Hara, Christina Applegate, David Selby, James Gandolfini, Jennifer Morrison, Josh Zuckerman, Stephanie Faracy, Stephen Root, Sy Richardson, Udo Kier
Duração:  91 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.