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Crítica | “Sociedade da Grã Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10” – Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada

Um projeto que respira deboche e genialidade!

por Iago Iastrov
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Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 foi fruto da frustração acumulada de Raul Seixas, que após o desastre comercial de Raulzito e os Panteras (1968) aceitara emprego como produtor fonográfico na CBS, trabalhando com artistas da Jovem Guarda enquanto cozinhava suas próprias ambições. O encontro com Sérgio Sampaio em 1970 reacendeu a inquietação: o compositor capixaba desprezava as mesmas baladas românticas que Raul produzia profissionalmente e propôs criar um álbum-conceito que rompesse com qualquer fórmula vigente. A inspiração veio de Freak Out! (The Mothers of Invention, 1966) e Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (The Beatles, 1967), mas a proposta era antropofágica: misturar música brasileira regional, experimentalismo pop, deboche, crítica social, samba e rock psicodélico. Raul convidou seu amigo de adolescência, Edy Star, artista andrógino de Salvador que transitava entre teatro e cabaré, e Miriam Batucada, paulistana famosa pela habilidade de batucar com as mãos em programas de televisão, completando o quarteto com uma voz feminina. As gravações do projeto aconteceram na própria CBS em 1971, com Raul e Mauro Motta dividindo a produção, Ian Guest nos arranjos, e banda formada por Renato Barros na guitarra, Paulo César Barros no baixo, Lafayette no órgão e Tony Pinheiro na bateria.

Aqui, Raul está em um território em que aparece vocal e liricamente, juntando influências e explorando sonoridades em menos de trinta minutos do mais criativo deboche. Na época, a ditadura militar vivia seu período mais sufocante: o AI-5 completara três anos, a censura cortava letras e a propaganda oficial vendia o milagre econômico. Nesse contexto, os quatro artistas reunidos por Raul optaram pela sátira total, ridicularizando símbolos de consumo, romantismo bobo, futebol, carnaval e os migrantes nordestinos deslumbrados com a metrópole carioca. O título do grupo veio de conversas sobre “apocalipse nuclear“: todos voltariam a viver em cavernas, às raízes primitivas da humanidade. E a ironia começava na capa, fotografada no Cinema Império, com Raul trajado de hippie com medalhão de paz; Miriam vestida como Supergirl; Sérgio usando camisa da seleção brasileira, como homem do povo; e Edy coberto de lamê, como astro cafona. O desenho do título, feito por Edy, simulava sangue escorrendo.

A vinheta de abertura dá o tom circense: Edy anuncia respeitosamente que a Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresentará o maior espetáculo da Terra, antes de Êta Vida explodir em ritmo acelerado, com Raul e Sérgio cantando as maravilhas cariocas. A letra disseca a desilusão do nordestino que migrou sonhando com progresso: televisão com cultura e carnaval e garota-propaganda de biquíni, mas o eu-lírico confessa que desejava apenas paz. O arranjo é frenético e circense, com diversas informações sonoras, imitando a cacofonia da cidade. Após vinheta televisiva, Sessão das 10 chega conduzida por Edy numa bela e exagerada seresta, com flauta e violão emulando o boêmios da velha-guarda. A canção fala do consumismo que distancia as pessoas delas mesmas, numa performance propositalmente lenta e debochada de Edy, como se estivesse exibindo algo com orgulho, a despeito de estar vazio por dentro.

Outra vinheta traz Raul e Sérgio dialogando sobre discos voadores, antecipando o fascínio esotérico que marcaria a obra posterior de Raul. Eu Vou Botar Pra Ferver vira um baião festivo com cuíca e percussão nordestina e letra aparentemente sem sentido que celebra a dança e a curtição em grupo. Contudo, a atitude de ressuscitar agitação no que passou, nessa faixa, pode ser lida como a intenção de “botar pra ferver” a música brasileira pós-AI-5. Eu Acho Graça, de Sérgio Sampaio (minha faixa favorita do álbum), cria um distanciamento cínico: todos estão por dentro da “jogada“, menos o narrador que prefere “dizer adeus“. O refrão repete que ele acha graça, sugerindo postura de quem observa o circo social com ironia, mas é medroso ou covarde demais para fazer qualquer coisa a mais. Chorinho Inconsequente coloca Miriam Batucada interpretando composição de Sérgio com Erivaldo Santos, brinca com o choro tradicional, que contrasta com a agressividade sonora do disco. É um belo respiro melódico antes de Quero Ir, dueto entre Raul e Sérgio que expressa desejo de abandonar o Rio: um voltaria para a Bahia, outro para Cachoeiro de Itapemirim. É uma declaração real daqueles artistas marginalizados na indústria fonográfica.

O lado B inicia com Soul Tabarôa, um xaxado de Antônio Carlos e Jocafi interpretado por Miriam, misturando gírias nordestinas com referências ao soul. A vinheta seguinte simula entrevista com um jovem que prefere “som barulhento“, introduzindo Todo Mundo Está Feliz, de Sérgio, que ironiza escapismos como esoterismo, discos voadores e entorpecentes, enquanto o refrão repete (também ironicamente) que todos estão felizes na Terra. Durante a ditadura, com o ufanismo oficial proclamando prosperidade, a faixa ganha camadas subversivas. Edy Star afirmou que compôs o refrão enquanto Sérgio escreveu os versos, mas esconderam sua participação autoral para burlar a censura, que vetava sistematicamente suas composições. Aos Trancos e Barrancos traz Raul cantando um samba, invertendo completamente o discurso de Êta Vida. Agora, o personagem é o malandro que subiu na vida, saiu do morro para o Leblon, e celebra o Rio maravilhoso cheio de cores, futebol, televisão e mulher. O samba tradicional, com breque e swing carioca, embala letra que tanto pode ser lida como cinismo quanto como retrato do conformismo da classe média que abraçou o milagre econômico dos militares.

Eu Não Quero Dizer Nada, composta por Sérgio e cantada por Edy com Lafayette no órgão, é uma porrada na censura. Ela não diz nada que possa ser vetado pela censura. O título mostra a postura do grupo ao fazer disco nonsense como estratégia de sobrevivência criativa. Dr. Paxeco fecha o álbum com um acid rock onde Raul toca todos os instrumentos, exceto a bateria. A faixa começa com discurso de Edy satirizando burocratas engravatados, inspirado em Evandro Ribeiro, presidente da CBS. A letra destrói o “homem comum, formado, reformado, engomado, com sorriso fabricado pela escola da ilusão, perdido, dividido, dirigido, carcomido e iludido, com os olhos o cifrão“. A guitarra distorcida lembra I Am the Walrus, mas a fina crítica social é puro Raul Seixas. Já a vinheta final traz o público vaiando e pedindo o dinheiro de volta, antes do som de descarga de vaso sanitário encerrar o espetáculo.

A CBS enviou cópias promocionais do projeto rádios e jornais, mas a reação da matriz americana foi terrível, determinando o recolhimento imediato do disco após poucas semanas nas lojas. Torquato Neto e Luiz Carlos Maciel foram praticamente os únicos críticos a reconhecer o valor do trabalho, elogiando o humor e a crítica à vida urbana. Durante décadas, lendas cercaram o álbum: histórias de gravação clandestina, harpa egípcia trazida de São Paulo para tocar único acorde, porteiros convocados para coros, custo astronômico, demissão de Raul. Edy Star desmentiu sistematicamente essas invenções: Raul continuou produzindo para a CBS até 1972, incluindo compacto de Miriam Batucada e álbum de estreia de Diana. A partir de 2009, quando Edy Star retornou definitivamente ao Brasil e tocou o disco completo na Virada Cultural paulista, Sessão das 10 começou a reconquistar a crítica e chegar a um novo público.

Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 é uma página musical da nossa contradição, tendo, de um lado, uma ditadura que incentivava a superficialidade das massas, censurava e cortava canções, enquanto a televisão vendia felicidade fabricada e os nordestinos migravam sonhando com Sul Maravilha que os rejeitava com os maiores preconceitos. Os artistas aqui reunidos fazem uma sátira impiedosa disso tudo, usando experimentação sonora e galhofa contra repressão. Que o disco tenha sido recolhido imediatamente pela gravadora apenas confirma que acertaram o alvo. Cinquenta anos depois, quando toda a patota kavernista já partiu — Raul em 1989, Sérgio e Miriam em 1994 e Edy em 2025 — o álbum permanece como um deboche lúcido à alienação e um antídoto contra qualquer tentativa de nos vender felicidade falsa, embalada em produtinhos, títulos e status, enquanto o mundo ao redor simplesmente vira pó.

Sociedade da Grã Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10
Artista: Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada
País: Brasil
Lançamento: 1971
Gravadora: CBS
Estilo: MPB, Frevo, Samba, Baião, Xaxado, Choro, Pop Psicodélico, Marchinha
Duração: 29 min.

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