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Crítica | Sócrates (1971)

por Fernando Campos
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Quase tudo o que se sabe sobre Sócrates, um dos pais da filosofia ocidental, deriva da obra dos discípulos dele, como Platão e Xenofonte, ou de contemporâneos, como o artista Aristófanes. Por acreditar que nada sabia e por preferir o ensinamento via discurso, o ateniense abria mão de escrever seus pensamentos. De acordo com as referências da época, o que se sabe sobre Sócrates é que ele ensinava sobre ética, virtude e justiça, além de ser imensamente hábil no campo da lógica, resultando no método socrático.

Contudo, por ter sido eternizado pelas obras de seus alunos, especialmente Platão, alguns filósofos discutem que Sócrates foi representado por eles de forma excessivamente idealizada, como um santo ou um mestre exemplar. O fato é que, devido às referências limitadas, nunca saberemos exatamente como ele era. Resta que cada um o interprete com a própria consciência a partir dos relatos da época, exercício que o próprio Sócrates aprovaria, uma vez que era um grande provocador de reflexões.

Na visão do cineasta italiano Roberto Rossellini, exposta no filme Sócrates, o pensador ateniense segue a linha do bom mestre. O longa traz um recorte da vida do filósofo, funcionando como síntese da vida dele. A história acompanha o julgamento e condenação de Sócrates (Jean Sylvère), acusado de não acreditar nos deuses gregos e influenciar negativamente os jovens.

Diante das inúmeras possibilidades que um figura tão misteriosa poderia trazer, Rossellini escolhe seguir a linha platônica da história de Sócrates, mostrando-o como uma figura quase santificada. Dentro da proposta, funcionam os paralelos que o cineasta faz entre Sócrates e Jesus Cristo durante o filme, como, por exemplo, na cena que o ateniense visita um campo de pessoas crucificadas e torturadas, o mesmo destino que Jesus teve. Ambos, inclusive, foram condenados à morte por produzirem ensinamentos considerados proibidos pelos poderosos da época. Com essa comparação, o diretor não eleva Sócrates ao posto de santo, pelo contrário, ele vê no conhecimento e na inteligência o mais próximo que podemos chegar do divino, como na pintura de Michelangelo, A Criação de Adão.

Além de trazer passagens importantes de Sócrates, como o “só sei que nada sei”, o roteiro e a direção acertam na dramatização da história, permitindo um envolvimento maior entre público e protagonista. Aqui, não admiramos apenas os discursos, mas nos compadecemos com a humildade e vulnerabilidade do filósofo, que se sente incapaz de lucrar com o que ensina. Outra personagem importante para trazer humanidade ao filme é Xântipe (Anne Crapile), esposa dele, que proporciona não só momentos de afeto, mas também de questionamentos, dando substância à obra. Portanto, a melhor maneira de assimilar os conteúdos é mantendo-se conectado com a história, o que ocorre aqui

Outro ponto equilibrado do filme é a direção. Rossellini opta por uma decupagem tradicional na maioria das cenas, começando com planos de ambientação, partindo para planos médios e usando planos fechados nas falas de maior impacto, conduzindo o público com segurança pela narrativa e valorizando o texto, resultando em um filme discursivo. Por isso, a trilha sonora jamais chama a atenção para si, servindo mais como um som de ambientação. Já os constantes planos médios ajudam a mostrar a escala das locações e o grande número de figurantes, funcionando para dar vida aos cenários e, consequentemente, ao filme.

Aliás, em vários momentos da película, acompanhamos Sócrates caminhando por essas ruas cheias de Atenas enquanto ensina seus alunos. Não à toa, o gesto se repete no momento da morte dele, para o veneno fazer efeito, mas também representando que as ideias dele seguem vivas, como a esperança por uma sociedade que priorize o senso crítico. Ou seja, em meio às discussões de vida e morte que permearam os últimos dias do ateniense, Rossellini acredita que o que garante a imortalidade é o legado das palavras e, nesse aspecto, Sócrates é eterno. 

Sócrates (Socrate) – Itália, França e Espanha, 1971
Direção: Roberto Rossellini
Roteiro: Jean-Dominique de La Rochefoucauld, Roberto Rossellini
Elenco: Jean Sylvère, Anne Caprile, Giuseppe Mannajuolo, Ricardo Palacios, Antonio Medina
Duração: 120 min

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