Home FilmesCríticas Crítica | Sofá (2020)

Crítica | Sofá (2020)

por Davi Lima
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O novo filme do diretor Bruno Safadi escancara bem a desapropriação municipal de imóveis no Rio de Janeiro que matou e mata cidadãos que servem ao Estado, mas se tornam moradores de rua por pura arbitrariedade de uma obra pública sendo construída. O universo criado é tão realista como caricatural, trabalhando com arquétipos culturais. Embora a intertextualidade simbólica dos personagens e o visual didático em cores redirecionem uma narrativa temática de denúncia e protesto explícito, o impulsionamento ativista fica a cargo de uma dramaticidade contida muito mais no realismo social do que em qualquer didatismo ou símbolo caracterizante. Infelizmente, o experimental em termos visuais mais artificializa por momentos caricatos do que une um conto fabuloso de aprendizado sobre a injustiça social.

A luta por direitos é o mote principal do filme, em que a história da protagonista Joana D’arc (Ingrid Guimarães) é, na contramão da realidade, suficiente para transformar a vida de outra pessoa. Não por acaso que sua apresentação é na base do vídeo reverso, algo significativo demais na relação personalista da personagem com a imagem. Da mesma forma, a virada emocional do filme visualmente estabelece uma tela invertida para a apresentação do mcguffin (objeto que puxa o enredo nos trilhos), que verticaliza de volta a tela. Dessa forma, a conexão de Joana com o sofá, o objeto conectivo de toda a trama, é transformadora da realidade ao ponto de tanto se mostrar diferente do meio quanto para ser ponto de partida para a luta de direitos, da dignidade de ter uma casa e de revelar qual ser social Joana representa para a sociedade.

Essa junção dramática é que impulsiona o espectador a se mover emocionalmente pela causa de um ser e seu objeto como retrato simbólico e da falta de ação pública justa. No entanto, essa escolha de Bruno Safadi, de quebra da realidade, só se sustenta nessa camada de conexões, nesse início de impulso temático, que já nas primeiras cenas é escrito em papel por outro personagem, e ainda antes no filme uma música clássica com flashes no escuro também já estabelecia a possibilidade de quebra da realidade. Assim, harmoniza sua introdução, mas suas escolhas mais didáticas e seu material intertextual simbólico parece apenas incrementar um estilo e uma diferenciação estimulante para continuar a assistir, mas não a se emocionar.

A noção de emoção envolve empatia com o ambiente construído para a experiência cinematográfica habitar, e mesmo que no filme as variações das cores azul, púrpura e cinza tentem arranjar o espaço visual para as peculiaridades do roteiro, as pausas com bricolagem de imagens e introdução isolada de um contexto mental quebram o ritmo, mesmo que façam parte da temática social inerente ao filme. O atributo artístico que mais contribui para o envolvimento com a história é o trabalho de atuação de Ingrid Guimarães e Chay Suede. O diretor consegue por meio deles tornar um dos termos mais importantes do protesto e causas sociais: a humanidade.

Mesmo que as interpretações sejam caricatas, são elas que conseguem tanto se sobrepor a artificialidades estilísticas de imagem quanto apontar que a obra é algo mais simbólico (misturado com o concreto) do que uma tentativa de justificar algo irônico — ou uma loucura dos personagens como representação social de pessoas marginalizadas. São pessoas tão concretas quanto simbólicas, e na narrativa estão prontas para se moldarem, qualquer que seja o caminho do filme na. Com esse ambiente empático, o uso didático das cores tenta acompanhar as percepções de cada personagem. A cada troca de plano numa conversa uma nova cor aparece, tentando compor o universo de cada um, sendo que mais o artificializa diante das proposições das atuações, do que eleva a obra.

A escolha por cores e uma dinâmica visual mais didática, quando a coloração indica as posições dos personagens dentro da trama, deixa latente uma quebra de harmonização com a ideia de fazer caricaturas com as atuações. Em meio a isso, os ladrões com armas reconhecendo a professora num tiroteio e usando um Escolar para a fuga, ou a bricolagem explícita, une a figura da atriz principal no meio de recortes de jornais e figuras da desapropriação no Rio de Janeiro. É como se o visual fosse um mero pano de fundo que diferencia a história, mas parece não agregar de fato à linha dos personagens. Talvez o momento que há um certo diálogo é quando os protagonistas se sentarem no sofá no meio da calçada. As cores vibram nesse ato contra a injustiça social, mas em seguida temos uma ilusão de Joana D’arc, que traz à tona o símbolo que a personagem representa, quebrando o ritmo, fomentando um romance entre os personagens.

Acaba que o didatismo resvala na dimensão simbólica, mas não dramatiza, apenas revela mais uma vez o que a atuação entrega. Até mesmo o personagem do Chay Suede, o pirata Pharaoh, fora da lei, mesmo que sustente uma transformação que o começo do filme determine a acontecer, tem sua conclusão didática transformada em simbólica. Acaba que o realismo não é reforçado, mesmo que em si tenha verossimilhança, ele é apenas colocado tematicamente. Um protesto num filme que tem símbolos personalizados para tal, mas que são reforçados emocionalmente pelo artifício de cores didáticas.

Didatismo não é um problema em si, mas se torna quando reforçado numa trama simbólica e concreta de protesto. Existe um subtema de aprendizado para a criação de um exemplo social a ser assassinado pelo Estado corrupto: um mártir. No filme, há o uso do simbólico para essa didática e os dramas reais para que haja um engajamento do espectador quanto a uma problemática social que ainda existe. Porém, a didática usada para a dramatização particular e as pausas mentais da protagonista reforçam o simbólico de maneira caricata frente ao real, ou artificializam. Não elevam os símbolos. Assim, a noção integrada da protagonista, quando busca por direitos, e a descoberta de um objeto simbólico, com uma frase escrita no sofá, são coisas apenas introduzidas. Por isso que o protesto é sentido, em meio à artificialidade, e as intertextualidades no filme, como as músicas de Noel Rosa, Aviões do Forró e uma música clássica, tornando-se apenas momentos, bons momentos, assim como o símbolo de Joana D’arc para o filme — e até mesmo o drama de saudade de Pharaoh — que engrena no final à luta social que é bem mais que momento para uma transformação. 

Sofá (Sofá) – Brasil, 2019
Direção: Bruno Safadi
Roteiro: Bruno Safadi
Elenco: Ingrid Guimarães, Chay Suede, Nizo Neto, Laura Neiva
Duração: 71 minutos

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