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Crítica | Soldado de Laranja

Os homens por detrás dos soldados e heróis.

por Ritter Fan
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Depois de O Amante de Kathy Tippel, seu primeiro drama histórico cinematográfico baseado em uma autobiografia, Paul Verhoeven não perdeu tempo e engatou em um segundo drama histórico baseado em uma autobiografia, desta vez a de Erik Hazelhoff Roelfzema, escritor holandês que se tornou soldado da resistência e piloto da Força Aérea Britânica. Rutger Hauer, em sua terceira parceria seguida com o diretor, vive Erik Lanshof, estudante da cidade de Leiden que, junto com diversos amigos, especialmente Guus LeJeune (Jeroen Krabbé), acaba se juntando à resistência depois que seu país se rende às forças nazistas e a Rainha Wilhelmina (Andrea Domburg) forma um governo à distância na Inglaterra.

Filmes que se dedicam às mais diversas resistências ao avassalador poderio alemão na Segunda Guerra Mundial costumam glosar a humanidade de seus membros, tratando-os como heróis unidimensionais, satisfazendo-se em aplaudir seus corajosos feitos. Claro que há enorme – incomensurável! – valor nas resistências organizadas que tomaram os mais diversos países europeus durante o conflito, pelo que elas todas merecem os mais rasgados elogios, justificando a abordagem dada a elas em diversas obras audiovisuais. Mas Verhoeven nunca foi um diretor que se conforma a um padrão. Aliás, minto, se ele se conforma à alguma coisa é em sua vontade de subverter – e perverter – expectativas. Não é diferente em Soldado de Laranja, à época o mais caro filme holandês já feito.

Co-escrevendo o roteiro com seu parceiro Gerard Soeteman e também Kees Holierhoek, a história tem ritmo propositalmente lento, começando com a reunião de Erik com seus futuros amigos na faculdade antes da eclosão da guerra e evoluindo a partir daí, sempre mantendo o foco nele e em Guus principalmente, mas sem esquecer os importantes papeis coadjuvantes que vão dando estofo a uma narrativa que parece simples e objetiva, mas que vai ganhando contornos cada vez mais complexos, bem trabalhados e sempre interconectados. O heroísmo está sem dúvida presente o tempo todo, mas não é aquele heroísmo sem falha que costumamos ver, e sim um heroísmo humano, repleto de medo, de erros, hesitações e escolhas. São, afinal de contas, homens comuns que se veem, basicamente do dia para a noite, como espiões, com missões perigosas entre a Holanda e a Inglaterra.

O interesse principal de Verhoeven, para além de congratular a pouquíssimo falada e lembrada resistência holandesa, é fazer um estudo dos limites do patriotismo e da bravura e colocar seus personagens firmemente com os dois pés no chão. Essa é a subversão de expectativas que mencionei. Erik não é um super-herói que está disposto a se sacrificar desmedidamente por seu país e por seus amigos. Ele é alguém perfeitamente relacionável e perfeitamente compreensível em suas atitudes, mesmo que, no calor do momento, suas ações falem por si mesmas e revelem o herói que há por trás de uma mera pessoa comum como todos nós.

E é aí que repousa o grande valor de Soldado de Laranja, que começa com uma “filmagem histórica” que coloca Erik como guarda-costas da rainha retornando ao país, lembrando um pouco o estilo Forrest Gump de ser. O longa, portanto, se passa em um longo flashback que não tem pressa em evoluir, o que nos dá tempo para ver a transformação daqueles jovens pressionados por deveres que sequer entender direito no começo em soldados/agentes falhos em missões impossíveis, como é a que serve de clímax alongado para a fita e que muito claramente revela para aonde foi o orçamento polpudo da época. Mas os fogos de artifício das sequências de ação, curiosamente bem menos violentas do que poderiam ter sido – mas muito tensas, com fotografia noturna belíssima de Jost Vacano, que trabalharia no magnífico O Barco: Inferno no Mar – são apenas os detalhes, a cereja nesse bolo humano que Verhoeven cuidadosamente constrói a partir da história verdadeira que inspirou o longa.

Soldado de Laranja é, sem dúvida alguma, o ponto alto do sensacional começo de carreira de Paul Verhoeven, um filme que tem todos os elementos que esperamos de sua temática, mas sem aquele verniz simplificado que torna tudo bonito e arrumado como muita gente gosta. Pela janela vai o maniqueísmo fácil de filmes de guerra e entra toda a verve do diretor em retratar os homens acima dos soldados e dos heróis.

Soldado de Laranja (Soldaat van Oranje – Holanda/Bélgica, 1977)
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: Kees Holierhoek, Gerard Soeteman, Paul Verhoeven (baseado em livro de Erik Hazelhoff Roelfzema)
Elenco: Rutger Hauer, Jeroen Krabbé, Susan Penhaligon, Edward Fox, Lex van Delden, Derek de Lint, Huib Rooymans, Dolf de Vries, Eddy Habbema, Belinda Meuldijk, Peter Faber, Rijk de Gooyer, Reinhard Kolldehoff, Andrea Domburg, Guus Hermus, Bert André, Hugo Koolschijn, Brûni Heinke
Duração: 155 min.

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