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Crítica | Soldado Universal: O Retorno

Era melhor ter continuado no gelo...

por Ritter Fan
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Uma das mais curiosas e diria até nobres características da carreira cinematográfica de Jean-Claude Van Damme é que o astro belga, muito diferente de seus pares da época, nunca foi afeito a estrelar continuações de seus filmes, mesmo considerando que vários deles – O Grande Dragão Branco, Cyborg, Kickboxer, Soldado Universal e O Guardião do Tempo para ser exato – geraram franquias cinematográficas e/ou televisivas. A primeira sequência que ele fez em sua filmografia foi a de Soldado Universal em 1999, e mesmo assim somente depois que dois telefilmes, que eram originalmente para terem sido parte de uma série de TV, serem lançados em 1998, continuando os eventos do longa de 1992 com os mesmo personagens, mas outros atores.

Aliás, acho que vale um desvio rápido antes de entrar na crítica propriamente dita, já que a franquia Soldado Universal é uma zona completa em termos cronológicos. As duas continuações de 1998 não são exatamente negadas, mas sim ignoradas pelo filme de 1999, com as duas sequências seguintes, ambas com Van Damme, continuando não o filme de 1999 e também não os de 1998, mas sim diretamente o original de 1992, ignorando – talvez até negando, mas isso fica para os que gostam muito da franquia dizerem – todos os demais. Nada como bagunçar o coreto de uma série de filmes que talvez tivesse potencial em seu nascedouro, mas que foi sendo sistematicamente demolida por produções duvidosas.

Feita essa breve digressão, partamos então para o longa em si que nos apresenta Van Damme novamente como Luc Devereaux, algo como 15 anos após os eventos do filme original, viúvo, com uma filha adolescente e consultor, juntamente com sua amiga Maggie (Kiana Tom), de uma divisão governamental que continua desenvolvendo os Soldados Universais, agora em tese não só mais poderosos, como também mais controlados. O curioso é que Devereaux é, agora, tudo menos um Soldado Universal de primeira geração, não passando de um humano normal, sem que o filme dedique um segundo sequer para explicar exatamente o que aconteceu, já que nem mais resfriamento ele precis. Em outras palavras, aquilo que fazia o personagem especial foi para o brejo, com a história focando na inteligência artificial S.E.T.H. descobrindo, via leitura labial, que o programa UniSol será cancelado e, em seguida, tomando providências para que isso não aconteça, o que inclui fazer o download de sua I.A. no corpo de Michael Jai White (que também retorna à franquia, já que ele fez uma ponta no primeiro filme), criando um Super Soldado Universal.

Com a breve sinopse acima, fica evidente que, enquanto o longa de 1992 inspirou-se no clássico RoboCop, este aqui bebe sem vergonha alguma de 2001: Uma Odisseia no Espaço, com S.E.T.H., obviamente, sendo a versão militar de HAL 9000. Até aí, não há problema algum, muito ao contrário até. Acontece que, exatamente como o primeiro filme desperdiçou a premissa do longa de Paul Verhoeven, O Retorno desperdiça a de Stanley Kubrick, inicialmente ameaçando seguir por um caminho minimamente com mais conteúdo da máquina versus homem, mas logo descambando para a pancadaria genérica intercalada com diálogos tenebrosos escritos pela dupla William Malone e John Fasano e interpretações risíveis, incluindo a de Van Damme, que realmente parece estar apenas com a cabeça em outro lugar, apenas ocasionalmente lembrando-se de que está em um filme.

As personagens coadjuvantes, especialmente a já citada Maggie, além da jovem Hillary (Karis Paige Bryant) e a jornalista Erin Young (Heidi Schanz), estas respectivamente filha e interesse amoroso de Luc, são desperdiçadas completamente, com as atrizes ainda mais perdidas do que Van Damme, especialmente Schanz, que pode até ser bonita, mas que para ser uma atriz ruim tem que melhorar muito ainda o que, claro, ajuda o belga a se destacar. O que diverte é a gag repetida diversas vezes que coloca Luc saindo no braço com o gigantesco UniSol Romeo (o lutador de luta livre Bill Goldberg), com diversos desfechos diferentes, sempre em desfavor de Romeo, além de alguns bons momentos de luta contra S.E.T.H. no corpo de extremamente sarado de Jai White. O restante é uma sucessão de sequências soltas que Mic Rodgers, um dublê que aceitou se arriscar na cadeira de diretor, só dirigindo esse filme em sua carreira, é completamente incapaz de costurar em um todo coeso.

Soldado Universal: O Retorno é, como o primeiro, um longa de baixo orçamento, mas, diferente do original, não há absolutamente nada de especialmente nele, sendo basicamente algo que parece ter sido feito às pressas a partir de uma ou duas boas ideias, só para Van Damme poder retornar ao seu clássico papel. Teria sido melhor que o ator, que já começava mais fortemente o declínio em sua carreira, ter se mantido resoluto em sua posição de não estrelar continuações…

Soldado Universal: O Retorno (Universal Soldier: The Return – EUA, 1999)
Direção: Mic Rodgers
Roteiro: William Malone, John Fasano
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Michael Jai White, Heidi Schanz, Xander Berkeley, Justin Lazard, Kiana Tom, Daniel Von Bargen, James R. Black, Karis Paige Bryant, Bill Goldberg, Brent Anderson, Brent Hinkley, Lyle Kanouse, Adam Russell Stuart, Sylvester Terkay
Duração: 83 min.

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