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Crítica | Sombra e Ossos – 1ª Temporada

por Kevin Rick
2731 views (a partir de agosto de 2020)

Baseada na série de livros do Grishaverse, da autora Leigh BardugoSombra e Ossos é mais uma empreitada da Netflix em busca de um universo de fantasia que ecoe com um grande público, assim como The Witcher, mas aqui com um pezinho ainda maior na demografia adolescente. A primeira temporada da série é, sem sombra (he, he) de dúvidas, uma fantasia genérica, seguindo toda a cartilha esperada do gênero, desde o triângulo amoroso, a protagonista “escolhida”, a luta entre a escuridão e a luz, retratada praticamente de forma literal, e um universo cheio de magi… digo, ciência; a Pequena Ciência.

A grande força do show está na estética do seu universo fantástico, baseando sua ambientação do Reino de Ravka na Rússia, divergindo dos esperados EUA ou Inglaterra que normalmente vemos em obras de fantasia. O design de produção merece todos os elogios possíveis, e a série arrebenta nas belas locações monárquicas, o sujo e acinzentado ambiente militar, as florestas invernais, os figurinos deslumbrantes e até mesmo as periferias são um deleite de cuidado estético que nos imergem na história. E, fugindo do visual, outro elemento positivo, apesar de em menor medida, reside na mitologia, que apesar de ser simplista, consegue entreter.

Entre os humanos, existem os chamados Grishas, pessoas dotadas com algo que soa, parece e de fato é  mágica, mas a série quer deixar claro que é na verdade uma manipulação da matéria. Alguns Grishas são “Etherealki”, invocadores capazes de controlar elementos, como vento e fogo. Alguns são “Corporalki”, capazes de controlar o corpo, prejudicando ou curando. Alguns são “Materialki”, capazes de manipular matéria sólida, por meio da construção e da invenção. Mas o que distingue um pouco a mitologia do comum é a situação política, que ganha um inesperado – e bem-vindo – destaque na primeira temporada, manuseado com um subtexto étnico e cultural entre o já citado Ravka, Fjerda e outras nações da série, em uma, se não espetacular, boa construção de mundo.

No meio dessas divergências políticas e guerras entre as nações, existe uma faixa de escuridão permanente separando o Leste e o Ocidente de Ravka, chamada de “A Dobra”, sendo habitada por criaturas carnívoras aladas conhecidas como Volcra que impedem a passagem entre os lados do reino. É a partir desse conflito que a narrativa principal acompanha Alina Starkov (Jessie Mei Li) e Malyen Oretsev (Archie Renaux), uma dupla de órfãos que por infelicidade se encontram atravessando o paredão de escuridão, e quando confrontados com a morte, Alina demonstra a habilidade de convocar e controlar a luz do sol, chamando a atenção do General Kirigan (Ben Barnes), também conhecido como Darkling, sendo o mais poderoso personagem da série.

A partir do momento que Alina revela seus poderes e é levada para os cuidados de Kirigan, a série assume uma narrativa fragmentada em três (e meio) núcleos, que diverte e proporciona uma boa experiência, mas é cheia de problemas, especialmente no tom. Com o afastamento da protagonista e Malyen, o início da temporada nos entrega dois tipos de fantasia: a militarista, com Mal buscando meios de encontrar Alina, que por sua vez está vivendo uma “fantasia monárquica”. Eu simplesmente não consegui comprar a aventura boba de Alina, em uma jornada completamente clichê da heroína sofrível e sem talento que descobre ser a salvadora do universo, além de que grande parte do seu arco se resume a um romantismo forçado, superexposição de elementos do universo e complicadas situações em torno de figurinos e beleza facial… O próprio subtexto étnico da personagem é lentamente escanteado, e a personagem cai na infeliz caracterização ordinária de protagonistas de fantasias.

Felizmente, a série acerta e muito com as sequências florestais e militares de Mal, e uma boa atuação de carisma bruto e fechado de Archie Renaux. Em paralelo, Ben Barnes consegue deixar as situações no palácio minimamente interessantes com uma performance completamente louvável em tornar seu típico vilão fingido em um personagem intrigante. Acho que os dois personagens conseguem segurar a trama desinteressante de Alina, que, numa nota positiva, ganha bastante destaque, mas lhe falta carisma, uma construção emocional e uma organicidade na sua transformação, no qual senti a personagem, que devia ser a mais importante da obra, um grande “papel branco”, uma personificação de escolhas genéricas, e de longe a personagem que menos me importei do elenco principal.

Contudo, de maneira bem inesperada, a série adiciona o núcleo de três criminosos que querem raptar Alina em busca de uma recompensa, composto pelo líder Kaz (Freddy Carter), a furtiva Inej (Amita Suman) e o atirador viciado em jogos de azar Jesper (Kit Young). E, uau, como a inserção desses personagens revitalizam a série, em uma explosão de carisma, dinâmica divertidíssima em sequências de assaltos e escapadas, e uma química de diferentes personalidades que roubam cada minuto em tela. Confesso que me alegrava sempre que o foco saia do triângulo amoroso principal e se voltava para os deliciosos esquemas do bando. O problema disso é que a temporada toda fica meio deslocada… pulando em tons completamente diferentes, e o pior, com um núcleo secundário muito melhor que a trama principal. Essa desconexão é aumentada pela estranhíssima subtrama entre a dupla antagônica/apaixonada de Nina Zenik (Danielle Galligan) e Matthias (Calahan Skogman), que não soma e nem detrai nada da história, apenas existindo ali.

Tudo isso faz parte da estrutura não-linear da série, e à medida que os núcleos começam a convergir, a narrativa começa a entrar no eixos, acertando seu tom aventureiro e desvencilhando Alina da sua bolha enfadonha no palácio. O segundo ato da série se desenrola num típico luz versus escuridão, mas o ritmo e as performances conseguem mascarar a narrativa normalzona com uma experiência divertida, e um desfecho dentro da Dobra genuinamente tenso, apesar de tecnicamente falho com a iluminação.

Existe potencial em Sombra e Ossos para ser uma série de fantasia divertida quando ela assume o carisma da aventura juvenil como proposta, e também quando as escolhas narrativas são mais maduras, como no arco militar de Mal no início da temporada. A série, porém, se perde dramaturgicamente quando decide focar em temáticas genéricas e mal trabalhadas do gênero, em grande parte no desenvolvimento da protagonista. Alguns personagens secundários fantásticos, o belo design de produção, a razoável mitologia e a ótima performance de Ben Barnes mantêm a série longe da mediocridade, mas esta primeira temporada não foge à habitual fantasia YA (Young-Adult). Bom, mas ordinário.

Sombra e Ossos (Shadow and Bone) – 1ª Temporada | EUA – 23 de abril de 2021
Desenvolvimento: Eric Heisserer
Direção: Mairzee Almas, Lee Toland Krieger, Dan Liu, Jeremy Webb, Eric Heisserer
Roteiro: Eric Heisserer, Daegan Fryklind, Vanya Asher, Shelley Meals, Christina Strain, M. Scott Veach (baseado no Grishaverse, de Leigh Bardugo)
Elenco: Jessie Mei Li, Archie Renaux, Freddy Carter, Amita Suman, Kit Young, Ben Barnes, Zoë Wanamaker, Simons Sears, Sujaya Dasgupta, Howard Charles, Julian Kostov, Danielle Galligan, Calahan Skogman, Daisy Head, Kaylan Teague, Cody Molko, Hugo Speer, Andy Burse, Luke Pasqualino, Tom Weston-Jones
Duração: 416 min. (oito episódios)

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27 comentários

Luiz Miguel Cavalcante 30 de abril de 2021 - 15:45

Esperava mais dessa série. Achei a 1 temporada muito fraca. Ainda por cima tem gente comparando com game of thrones… Pra chegar a um game of thrones tem que comer muito feijão com arroz. Achei alguns atores muito fraquinhos, como a protagonista. The witcher continua sendo uma das melhores nessa pegada.

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Kevin Rick 4 de maio de 2021 - 21:42

Comparar com Game of Thrones é sacanagem… a não ser que seja a última temporada hehehe E mesmo assim, são séries de fantasia, mas completamente diferentes. Em GoT se tem um High Fantasy, um negócio medieval, construção de mundo gigantesca… Sombra e Ossos é uma obra baseado em um livro YA, uma pegada mais genérica, romance e jornada de herói clichezona mesmo.

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Luiz Miguel Cavalcante 4 de maio de 2021 - 22:47

Eu tbm acho, mas tem gente que comparou ambas. Entretanto, alem de game of thrones estar em outro patamar, os universos s bem diferentes.

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Flora Lima 29 de abril de 2021 - 20:15

Concordo com tudo nesse texto!

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Junito Hartley 28 de abril de 2021 - 14:24

Achei muito boa a serie, gostei mais que the witcher.

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Kevin Rick 29 de abril de 2021 - 15:03

Que bom!

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Giovani 28 de abril de 2021 - 13:05

A Netflix não economizou nessa série. Bons efeitos e excelente ambientação. A autora se “inspirou” (homenagem?) muito em Avatar para criar os poderes dos Grishas. O Freddy Carter e os Six Of Crows foram a melhor coisa até aqui! Aquela parte da Nina e do Matthias foi forçada demais. Não entendi ainda para que serviu. E o ele mais fraco é mesmo da Alina, incrível, sendo ela a principal para a trama. Quer dizer, foi deixar de receber as cartas do Malyen e já se entregou para o Darkling…onde foi parar todo aquele amor que ela fala nos episódios iniciais?

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Kevin Rick 29 de abril de 2021 - 15:02

Se inspirou, mas ficou nisso né. Avatar leva o negócio para outro patamar em termos de ligar os poderes com o universo, ideologias, nações, artes marciais, etc… Mas apesar de normalzão, gostei da mitologia da Leigh. E também adoro os Crows, como estou dizendo em cada comentário HAHAHAHA E sim, a Alina, logo a protagonista, é parte mais fraca da série… Torcendo para a segunda temporada!

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Victor Martins 28 de abril de 2021 - 02:16

O Freddy Carter é um excelente ator. Maluco tem uma puta presença e carisma em cena.

Ainda não terminei, mas também gostaria que a série fosse focada mais nos Crows do que na menina chorona e seus clichês básicos. E o Ben Barnes é horrível. Stop trying to make Ben Barnes happen, Hollywood.

A inventividade visual da série também é de se elogiar, coisa que faltou pra The Witcher e pra His Dark Materials. Efeitos vistosos, fotografia muito bonita com as luzes e o escuro se encontrando toda hora (fazendo referência ao tema central da série) e o design de produção e criação de mundo.

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Kevin Rick 29 de abril de 2021 - 14:57

Eu adorei os três atores dos Crows. Eles têm uma química sensacional! E concordo contigo sobre os visuais do show! A estética de Europa Oriental é bacana demais.

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Cyberius 28 de abril de 2021 - 01:56

Sombra e ossos foi o livro de estreia da Leigh bardugo entao sim, é a típica fantasia ya e sim, a história da Alina é um tanto “chata”. Já six of crows é totalmente outro nível e a Leigh, espertamente, não quis começar com essa história, inclusive esse arco da nina e Matthias é contado em flashback nele. A partir da próxima temporada tudo começa fluir melhor e mais, teremos o sexto corvo e um personagem importante que fez falta nessa.

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Kevin Rick 29 de abril de 2021 - 14:54

Espero que melhore mesmo! E eu li o primeiro livro, e AINDA BEM que a série adicionou os Crows. São muito melhores que a Alina, que, incrivelmente, é melhor na série que no livro. Existe potencial aqui, e eu realmente torço que a próxima temporada melhore nos pontos que você cita. Abraços!

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Destruidora de mundos 27 de abril de 2021 - 23:32

Eu só tenho a dizer que depois de ler o livro e ver a série posso afirmar com toda certeza que esta série é a melhor adaptação de uma obra literaria em anos.

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Kevin Rick 29 de abril de 2021 - 14:53

Olha, concordo que a adaptação é boa porque ela consegue deixar a história sofrível do livro pelo menos razoável, e a inserção dos Crows revitalizam a história. É minha opinião, claro, mas acho que existem adaptações literárias bem melhores por aí.

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Destruidora de mundos 29 de abril de 2021 - 19:48

Adaptações literarias de fantasia onde a série ou filme sai melhor que o livro eu não me lembro rsrs.

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Kevin Rick 29 de abril de 2021 - 22:12

Ah, então é só no campo da fantasia e tem que ser melhor que o material original? Aí complica mais hehehe Eu gosto de The Witcher e Good Omens, mas não cheguei a ler os livros.

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Fórmula Finesse 27 de abril de 2021 - 18:36

Só pelo capricho da produção e pelos bandidos meio atrapalhados (mas ainda no terceiro episódio), e claro, pela falta de algo mais interessante para assistir. Tomara que melhore, esses heróis que emanam poderes do nada, pela força de vontade apenas, como o TERRÍVEL “Carta ao Rei”, com raios e feixes de energia, cansam minha paciência.

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Kevin Rick 29 de abril de 2021 - 14:51

Não espere muita coisa além disso… Os bandidos atrapalhados me conquistaram e deixaram a experiência positiva, mas não tem nada espetacular.

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Fórmula Finesse 29 de abril de 2021 - 13:27

Sim, estou patinando mesmo. Vendo meio que por inércia…

Responder
Fórmula Finesse 29 de abril de 2021 - 17:27

Sim, estou patinando mesmo. Vendo meio que por inércia…

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Priscila 27 de abril de 2021 - 16:21

Achei beem melhor que The Witcher, que foi a ultima serie de fantasia que tentei acompanhar. Como nao esperava nada, acabei me divertindo um bocado. Mocinha generica e/ou mal desenvolvida é praticamente o padrão em grande parte do audiovisual, entao nenhuma surpresa ai, nao me afetou em nada. A unica coisa que me incomodou foi a trama da bruxa e do caçador de bruxas, totalmente desconexa das demais.

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Kevin Rick 29 de abril de 2021 - 14:47

Também me diverti bastante! Acho que gosta na mesma medida que The Witcher, mas capengo mais para a série do Henry Cavill por causa do personagem principal. Não é nem que tenha me sentido muito incomodado com a Alina, apenas completamente desinteressado nela e em sua trama apática. E sim, o núcleo do casal que você cita é completamente desconexo. Chega a ser engraçado a péssima transição do restante da série pra ele hahaha

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Amanda Schmidt 27 de abril de 2021 - 13:16

Eu também fiquei bem decepcionada com a Alina, ela parecia ser uma personagem melhor no começo da série, quando ela se coloca dentro da dobra pra não deixar o amigo sozinho, mas depois ela vira a mesma personagem bobinha que esses livros sempre fazem.

Eu fiquei encantada pelo mundo nos dois primeiros episódios e depois eu só consegui terminar de ver por conta do Six Of Crows.

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Kevin Rick 27 de abril de 2021 - 14:48

Os Crows são FANTÁSTICOS. Eles que mantiveram a qualidade do show para mim. Sem o trio, seria dose terminar a trama principal, e a nota seria na casa do 2… sendo bonzinho. Adoraria uma série inteira do trio apenas fazendo esquemas criminosos hehehehe

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Amanda Schmidt 27 de abril de 2021 - 17:02

Então… Eu fiquei sabendo que existem dois livros focados no Six Of Crowds, e que os dois são muito mais aclamados que os livros da série principal, eu sinceramente nem sei se me interesso por uma segunda temporada, mas se fizerem uma série adaptando esses livros eu vejo na hora, na verdade estou até querendo ler eles kkkkk

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O Homem do QI200 27 de abril de 2021 - 04:19

Tô vendo unicamente para tentar cobrir meu vazio após terminar The Office. Estou no segundo ep. e até que tá legal.

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Kevin Rick 27 de abril de 2021 - 14:49

É legal sim… Não muito além disso. Mas se quer cobrir o vazio de The Office, recomendo Parks and Recreation, It’s Always Sunny in Philadelphia e… Mystic Quest (por causa do Ritter). Acho que serão capazes de preencher o vazio melhor hahahaha

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