Crítica | Sombra Lunar

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É triste reconhecer que Sombra Lunar tinha tudo para ser um ótimo filme, mas que se destrói pela necessidade de abranger um público que o roteiro e a ideia  inicial não planejavam atingir. As primeiras cenas, por exemplo, não conversam com o decorrer da trama, que é repleto de um drama familiar desnecessário. Além disso, a película é mais uma que serve como exemplo para obras que utilizam viagem no tempo em sua narrativa: mesmo que cuidadosamente pensada, vai terminar com inúmeros furos e questões não respondidas. Sombra Lunar conta a história de Locke (Boyd Holbrook), um policial da Filadélfia que investiga um caso de serial killer com o investigador Holt (Michael C. Hall). No entanto, o caso ganha novas repercussões quando Locke passa a associar a investigação a uma garota que consegue viajar no tempo a cada nove anos.

Eu não entendo como um projeto que mostra um cérebro fritando em uma chapa de hambúrguer nos primeiros minutos logo se torna um drama familiar com conceitos clichês. É nítido que Sombra Lunar ainda tenta resgatar o elemento fúnebre da abertura durante a trama, porém depois que a dramaticidade é incluída, esse elemento fica escondido. São inúmeras as cenas de ação (que, porventura, são mal filmadas) seguidas de sequências do protagonista precisando lidar com a filha pequena. Não satisfeitos, os roteiristas introduzem uma relação familiar do investigador com Locke que, além de ser mal explorado, não tinha qualquer motivo para estar lá. Essa relação só aumenta o efeito sentimental que a ideia inicial (policial com viagem no tempo) claramente não suporta. Isso não significa que o protagonista não deveria ter uma vida pessoal, com uma filha e uma esposa falecida abordadas. No entanto, bastava uma citação para que entendêssemos as motivações e a história dele. O problema, enfim, está no excesso de drama familiar em uma obra que tem seus pilares no gênero policial, na ação e no mistério. 

Esse artifício demonstra o interesse do filme em alcançar um público que não deveria estar incluso – no caso, o público juvenil. Se fosse só um drama familiar, seria um erro dos roteiristas e ponto. Porém, também é notório o clichê envolvido nos diálogos, puxando para um lado mais infantil. Esse clichê não é visto em qualquer diálogo das cenas de ação, por exemplo, ou ao menos lembrados. Considerando que as sequências fora dos laços familiares do protagonista são pesadas e voltadas a um público mais adulto, encontramos uma pergunta  no filme: afinal, quem deveria estar assistindo? Alguém que procura um suspense policial com cenas pesadas e um roteiro não tão óbvio se sentirá incomodado com as sequências dramáticas; ou outro que procura um drama familiar… bem, com certeza estaria assistindo o filme errado.

Isso tudo também é base para mostrar que o drama familiar, além de abaixar drasticamente a nota oferecida ao filme, não foi benéfico em nenhum aspecto da obra. Só descobrimos esse lado clichê da trama quando assistimos, não sendo citado no trailer ou na sinopse. Dessa forma, alguém que procura algo mais voltado para o sentimental, não encontrará interesse nenhum em Sombra Lunar. Então, qual a necessidade deste elemento estar presente?

SPOILERS

Mais uma vez a viagem no tempo ocasiona inúmeros furos que, para serem refutados, seria necessário construir uma narrativa totalmente diferente – e isso não seria benéfico para ninguém. O arco da antagonista Rya (Cleopatra Coleman) deixa inúmeras questões que são vagamente respondidas, mas que qualquer reflexão nos deixa minimamente inquietos. Por exemplo, a própria antagonista diz que não é possível modificar a linha do tempo, ou seja, se ela morreu nas mãos de Locke em 1988 durante uma viagem no tempo, inevitavelmente isso deve se repetir. Então, como foi que a primeira pessoa viajou no tempo e mudou o futuro apocalíptico retratado na primeira cena do filme? Mais: se Locke é o principal responsável para que Rya se torne voluntária como viajante do tempo, e considerando que ele só se tornou físico especializado na área por causa dos acontecimentos com a garota em 1988, como Rya foi a primeira a viajar no tempo se na primeira vez que ela viajou Locke não era físico? Esses são dois exemplos de questões que a trama não responde. É claro que tem muitos outros.

Por outro lado, as cenas policiais são interessantes e a ousadia em envolver policial com viagem no tempo é inovador. É uma pena que esse recurso é desfocado pelo drama familiar excessivo e por inúmeras questões não respondidas (comuns em filmes do gênero). Deixo apenas um apelo talvez extremista: deixem de fazer filme com viagem no tempo. No geral, não funciona como deveria.

Sombra Lunar (In the Shadow of the Moon) – EUA, 2019
Direção: Jim Mikcle
Roteiro: Gregory Weidman, Geoffrey Tock
Elenco: Boyd Holbrook, Cleopatra Coleman, Bokeem Woodbine, Michael C. Hall, Rudi Dharmalingam, Al Maini, Quincy Kirkwood, Sarah Dugdale, Rachel Keller, Ryan Allen, Tony Nappo, Philippa Domville, Tony Craig, Gabrielle Gaham, Julia Knope
Duração: 115 min.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.