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Crítica | Sombra

por Davi Lima
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sombra

“Um filme Mangue Bangue…”, é o nome do estúdio nomeado na imagem final e inicial de apresentação do título do filme Sombra, feito pela parceria João Pedro Faro e Bruno Pires. Se há alguma semelhança dessa nova produção com o raro filme do diretor Neville D’Almeida, também chamado Mangue Bangue, é a irreverência chamativa, que no caso de Neville trabalhava com conceitos primários de montagem experimental e utilizando o mudo para formar a experiência, já Faro e Pires intentam pelo som mixado ensurdecedor com grandes interlúdios contemplativos entre as transições. Mas a desproporcional comparação entre os dois filmes, que serve para apontar a abordagem experimental de Sombra, também é o gancho para compreender uma nova geração de diretores brasileiros que usam a inspiração do Cinema Marginal para construir longas-metragens sobre o contemporâneo. Com uma linguagem cinematográfica suja, escura e barulhenta, o que mais chama atenção do primeira grande metragem do diretor é sua capacidade formal de junto com Bruno Pires na parte sonora colocar os artifícios “feios” como construção de fantasia de emparelhamento.

Nos filmes de Neville D’Almeida, por exemplo, em algumas cenas percebe-se uma fuga do realismo, mesmo que os temas sejam bastante crus da realidade verossimilhante. Com Faro também não é diferente, em que no seu curta Duas Imagens de Guerra presente na última edição do Festival Ecrã provoca uma narrativa além da própria narrativa de duas imagens com zooms e formalismo preciso para selecionar o que o espectador deve ver para formular dialéticas. Esse controle, meio “fincheriano”, talvez esteja mais implícito em Sombra, em que talvez suspenda-se a fantasia pelo alongamento da metragem como novidade para o diretor. Mas ainda está lá a métrica do espaço entre os protagonistas, a repetição dos movimentos dos personagens e o tédio que vai se tornando tanto violento como uma abertura para sensibilizar um braço de um envolta das costas do outro. Além disso, o uso da música como demarcação temporal, do estabelecer da sombra entre os amigos, e até do dimensionamento de um efeito kuleshov com vídeos de Carmen Miranda e de um explicado sobre temáticas góticas. Isso cria uma sensação de controle formal que constitui uma fantasia que começa no quarto e monta uma conexão da mente dos protagonistas com a fotografia dirigida para o céu, em um momento tranquilo, outro tempo totalmente afetada com o movimento louco que mostra desfoco.

Em nenhum momento há a imersão mental efetiva, como uma análise explícita dos dois amigos que protagonizam o filme, porém os efeitos de um garoto sobre a realidade do filme, e como se relaciona com a piscina, e como ele é gravado ora em primeiro plano, ou recebe um zoom na cabeça após um plano gravado do céu, são pistas de como há uma fantasia num isolamento. Em algum momento parece que o amigo que surge na história soa como um Tyler Durden, mas que diferente do filme Clube da Luta, a conversa não é muito relevante, e sim a incapacidade de um e de outro não manterem conexão além da pareação posicional de um do lado do outro. E é essa fantasia de emparelhamento, que horas acomete bem o tédio com a música, horas foge do controle formal de Faro, é o que permite imaginações que uma montagem teletransporta os personagens para bater em um garoto, que torna o sangue em uma catarse única gravado numa cena de zoom no pingos no chão. Não há uma compreensão lógica racional da narrativa, e não apenas pela categoria de Cinema Experimental, e sim porque o tema que faz o emparelhamento com a realidade, que a fantasia contribui, envolve um distanciamento entre dois personagens que caminham juntos.

Porque, no final, é a incessante atividade de estar do lado, estabelecer o ambiente de emparelhamento, mas ser tudo apenas uma sombra, uma repetição de imagem sem o toque entre os pares. O formalismo de João Pedro Faro ao mesmo tempo que engrandece a necessidade de parear, também consente, em alguns momentos, com a falta do toque. As narrações, por exemplo, que falam sobre uma mente psicopata de matar gatos que formou um espírito gatuno sobre o assassino durante o sono, ou a história do garoto com a mãe super protetora, elas crescem pelo contexto incomodante e sujo de um pareamento sempre possível nas ruas noturnas e uma fotografia de pouca qualidade, mas também travam um clímax nessas histórias, na verdade anticlimático à resolução do pareamento do toque.

Assim, as escolhas estilísticas do Cinema Marginal tornam a fantasia mais potente independente de confortos temáticos, produzindo o efeito do pareamento como a união do céu e o olhar, como a fotografia gravando as costas do protagonista. Dois amigos que numa noite derramam sangue, enquanto de dia assistem as bananas de caráter interpretativo ao som da cantoria de Carmen Miranda. Sendo uma abertura do estúdio Mangue Bangue ou não, a frase que esse primeiro filme de João Pedro Faro deve ser assistido no Brasil mostra um valor cinematográfico inscrito na carreira do jovem diretor do cinema brasileiro.

Sombra (Sombra) – Brasil, 2021
Direção: João Pedro Faro
Roteiro: João Pedro Faro
Elenco: Miguel Clark, Daniel Brito, Rafael Navarro, Vitor Lampert, Bruno Pires
Duração: 70 minutos

 

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