Crítica | Sonâmbulos (1992)

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Em primeiro lugar, tanto Sleepwalkers, o título original para os metamorfos felinos incestuosos deste filme, quanto Sonâmbulos, o título em português, não fazem sentido algum, nem mesmo depois daquela descrição “marcante” colocada logo na abertura. Filme de 1992 dirigido por Mick GarrisSonâmbulos foi a primeira experiência de Stephen King escrevendo um material para audiovisual sem ser uma adaptação de obra literária sua (publicada, pelo menos). E o roteiro original aqui está entre as piores coisas que o autor já escreveu, um enredo onde reina a falta de lógica e onde a mistura de horror com fantasia (uma tentativa de King provar que ainda poderia “fazer coisas diferentes“, talvez?) não teve um bom resultado final.

Charles (Brian Krause) e sua mãe Mary (Alice Krige) são novos na cidade. Aparentemente inofensivos, eles representam aquilo que o primeiro frame do longa nos descreve, uma espécie que precisa se alimentar da energia vital de mulheres virgens, um tipo de “vampiro felino” que se metamorfoseia, comete incesto e pode ser morto por arranhões gatos. Na preparação para o drama, acompanhamos a dupla envolvida no Complexo de Édipo ligar-se a uma garota local, Tanya, vivida por uma Mädchen Amick recém-saída de Twin Peaks. Apresentado o elemento amoroso-macabro, o enredo traz as poucas coisas possivelmente boas da obra, que são pequenas cenas onde o medo se revela a prestação, delineando com certo cuidado a transformação do jovem bonitão do colégio em um devorador de carne e energia humanas.

Após a (desnecessária) sequência de abertura da fita, o espectador tem uma interessante entrada nesse Universo ameaçador. Em poucos minutos, o filme passa de cenas vergonhosas de jump scare com risível mixagem de som, para o mundo deste jovem que ouve Santo & Johnny, e aí encontramos a boa surpresa da película, a trilha sonora, que além da excelente Sleep Walk da já citada dupla, traz Enya, The Contours e Extreme. Outra coisa boa aqui — e que não tem necessariamente a ver com o enredo –, são os fantásticos cameos que a obra traz, com Mark Hamill interpretando um policial; John LandisJoe Dante interpretando assistentes de laboratório e Clive BarkerTobe Hooper interpretando técnicos forenses [sim, o próprio King faz uma ponta como segurança do cemitério, mas aquilo é tão ruim que é melhor não se estender falando sobre]. Como se vê, nem tudo está perdido em Sonâmbulos, e há pequenos momentos em que podemos aproveitar a obra. Infelizmente, não são momentos que duram muito.

Antes da grande exposição do roteiro para o ataque do felino-metamorfo-incestuoso à virgem colega de classe, temos a criação de um pequeno mistério ou espaço para vingança e investigação protagonizado pelo policial Andy Simpson (Dan Martin), um personagem-caricatura que convenientemente tem um gato como parceiro. É para revirar os olhos. Daí em diante, a direção e uma parte do trabalho de efeitos, fotografia e maquiagem fazem o serviço de nos prender à história até o final, a despeito do horrendo roteiro. Como também não temos boas atuações, ficamos mesmo é no automático das situações apresentadas, que como já dito, trazem aquele cena, aquele par de diálogos ou aquele momento marcante, embora nada disso realmente salve o filme.

Sleepwalkers é simples e de fato tenta sair de alguns clichês do gênero, mas essa tentativa é acompanhada por resoluções do texto de Stephen King que simplesmente estragam a nossa experiência. Tem alguns momentos que a falta de lógica do texto é tão grande (a questão da invisibilidade ou mutação da cor do carro, dentre elas) que nos faz rir abertamente, embora não haja espaço para riso na obra. E o que é mais interessante de tudo é que tem espectadores que realmente gostam desse filme, então penso que é justo dizer que em produções ruins como esta, tudo depende mesmo é da forma como a magia felina captura o espectar, seja como guilty pleasure ou não.

Sonâmbulos (Sleepwalkers) — EUA, 1992
Direção: Mick Garris
Roteiro: Stephen King
Elenco: Brian Krause, Mädchen Amick, Alice Krige, Jim Haynie, Cindy Pickett, Ron Perlman, Lyman Ward, Dan Martin, Glenn Shadix, Cynthia Garris, Monty Bane, John Landis, Joe Dante, Clive Barker, Tobe Hooper, Frank Novak, Rusty Schwimmer
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.