Crítica | Sonata Para Viola – Dmitri Shostakovitch

Depois de três documentários estreantes para a TV entre 1974 e 1975 (Os Empregos Mais Mundanos, O Carro Adquire Confiabilidade e Prefixo R1NN) e mais dois curtas-metragens entre 1979 e 1980 — um documentário (Último Dia de um Verão Chuvoso) e uma ficção (O Degradado) — Aleksandr Sokúrov passou a chamar atenção dentro do tardio cinema soviético, o que não é exatamente comum para um diretor que mal saíra da escola de cinema (a VGIK), onde entrou em 1975, após se formar em História pela Universidade de Nijni Novgorod, em 1974.

Amigo pessoal de Andrei Tarkóvski e assumidamente influenciado por ele, especialmente pelo longa O Espelho (1975), Sokúrov teve a sua primeira grande oportunidade em 1980, quando começou a produção para um documentário sobre o grande compositor russo Dmitri Shostakovitch, que havia falecido cinco anos antes. Sua formação como historiador facilitou a sua colocação em um projeto com tanto material de arquivo para ser selecionado, e sua posição inicial era praticamente a de selecionador de material para o editor Sergei Ivanov. No entanto, ao conversar com o diretor responsável pelo projeto, Semyon Aranovich, Sokúrov apresentou inúmeras ideias para o andamento do filme, convencendo a produção de suas propostas, apontando novos caminhos para o roteirista Boris Dobrodeyev e claro, terminando por assumir o comando do documentário ao lado de Aranovich. Uma rápida escalada.

Embora não tenha imprimido aqui nenhum verdadeiro ingrediente de sua identidade como diretor (pinturas reais ou criadas na tela — pela manipulação da fotografia ou através de lentes especiais + longos planos oníricos), Sokúrov encaminhou Sonata Para Viola para uma abordagem ao mesmo tempo lírica, social, política e musical, transformando o didatismo de uma “saga de vida” numa jornada onde os acontecimentos não são todos vistos de forma cronológica e onde o mundo ao redor do biografado muitas vezes ganha mais destaque do que o próprio protagonista, a fim de preparar o entendimento geral do público para uma nova fase a ser apresentada.

A quantidade de material produzido exclusivamente para este documentário foi muitíssimo pequena. A maior parte do projeto é composto de documentários, filmagens governamentais, filmagens pessoais do compositor e amigos ou gravações em áudio que mostram diversos momentos da vida do músico através das movimentações sociais na URSS (a maioria sem nenhuma explicação adicional para o público, apenas música e vídeo se entrelaçando e formando um todo lógico), criando uma abordagem capaz de nos fazer mergulhar no tempo e entender o artista como se vivêssemos no momento em que ele viveu. E em meio a esse largo material, entre vídeos, áudios e fotos que a obra nos traz, há que se destacar o contraponto de Yevgeny Mravinsky regendo o final da 5ª Sinfonia de um lado e Leonard Bernstein regendo o mesmo trecho, à frente da Filarmônica de Nova York em Moscou, em 1959, tendo o próprio Shostakovich na plateia.

Abordagens mais experimentais e marcadas por elementos fantasiosos ou oníricos em documentários não são muito bem aceitas pelos que entendem o gênero engessado em apenas uma escola: a jornalística-realista, onde o real supostamente só pode ser capturado como imitação, supostamente sem interferências, especialmente na pós-produção. Aqui em Sonata Para Viola a manipulação feita pelos diretores diante do material selecionado adiciona uma carga emocional que se une ao poder da música de Shostakovitch e termina por dar suporte ainda maior às conclusões a que o filme chega, sobre a grandeza e legado do compositor. Superados alguns exageros de duração nas sequências de ligação entre os blocos no primeiro e segundo atos, estamos diante de um documentário que procura abraçar fatos e sensações, mantendo em foco aquilo que deve nos informar, mas jamais retirando a alma que um projeto sobre a vida de Shostakovitch deveria ter.

Sonata Para Viola – Dmitri Shostakovitch (Altovaya Sonata. Dmitriy Shostakovich) — URSS, 1981
Direção: Semyon Aranovich, Aleksandr Sokúrov
Roteiro: Boris Dobrodeyev
Duração: 77 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.