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Crítica | Song Sung Blue: Um Sonho a Dois

Mais um Oscar bait.

por Ismael Vilela
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A cada ano que passa eu sinto, com prazer, que os chamados Oscar baits estão desaparecendo da premiação, seja pela diversificação dos membros votantes da Academia seja pela real saturação desse gênero, definido pela centralização em cena de atuações saudosistas e pomposas – geralmente de atores que precisavam ou precisam de um comeback mágico – em uma biografia das mais genéricas e mal adaptadas possíveis. Todo ano, porém, alguma bizarrice cinematográfica ainda sobrevive a esse filtro pós-moderno, sendo Song Sung Blue: Um Sonho a Dois o bait do ano, em uma mistura de comodidades narrativas e dramáticas, suportadas por atuações brilhantes, mas ofuscadas pela própria centralização excessiva nos dramas dos protagonistas. 

E o principal problema que cito é a vontade demasiada da direção de Craig Brewer de humorizar basicamente todas as situações propostas pela trama. Ao acompanharmos a trajetória de Mike Sardina (Hugh Jackman) e Claire Stengl (Kate Hudson) rumo ao sucesso, por meio de uma banda tributo a Neil Diamond, há quase um instinto em todas as cenas de provocar o riso. Isso torna toda a atmosfera do filme artificial e me deixa intrigado: seria a história de Song Sung Blue: Um Sonho a Dois completamente desinteressante (e por isso a necessidade do humor como muleta estética) ou extremamente mal adaptada a ponto de ser uma bola de pelos de cenas de humor completamente artificiais? Preferindo acreditar na segunda opção, é conclusivo que nem mesmo a excelência das atuações de Jackman e Hudson são suficientes para salvar um filme que pouco é criativo para fugir de suas próprias convenções. Aliás, o desenvolvimento narrativo dos personagens é tão malfeito que uma antipatia pelo personagem de Jackman é completamente plausível: ao ser posto como um verdadeiro bobão, o roteiro parece querer acentuar muito mais a versatilidade de Hugh como ator do que necessariamente tornar seu personagem carismático para o público, em detrimento claro de um mínimo desenvolvimento de personagem.

E esse descuido com a própria narrativa torna o filme uma colcha de retalhos pouco produtiva. Nenhum dos acontecimentos do filme – bons ou ruins – parecem ter qualquer tipo de consequência para a narração, sempre consertados por uma música seguinte, sempre radiante e revigorante. Song Sung Blue parece nascer para ser passado na Sessão da Tarde, pois suas quase duas horas e meia de rodagem poderiam facilmente serem enxugadas em uma hora e meia de uma trama realmente dinâmica e sem ser excessivamente humorística.

Olhando para a decupagem, percebe-se um emaranhado de subtramas que, isoladamente, carecem de profundidade. A relação com a filha Angelina ou a enteada Rachel são pontos de contato humano que poderiam elevar o filme para uma sofisticação humanista, mas acabam servindo apenas como pontes funcionais para o retorno aos palcos. Ao abdicar da seriedade em favor de um dinamismo histriônico, o filme retira a independência emocional do espectador. Não há espaço para a contemplação; há apenas a urgência de chegar ao próximo número musical no Ritz de Milwaukee.

A mensagem do filme, que deveria ser sobre o todo avassalador de uma vida compartilhada, fragmenta-se em um indeciso filme que pouco sabe se controlar; a dor, que deveria ser carne e olhar – e a segunda metade do filme muito forneceria para essa perspectiva – torna-se apenas um artifício de roteiro para dramatizar e emocionar o público. Hugh Jackman e Kate Hudson não interpretam apenas indivíduos, mas lutam contra uma direção que os impede de transcender a caricatura. É impossível para o espectador mais atento não sentir que a fidelidade ao espírito de Neil Diamond merecia uma abordagem menos dependente de convenções e mais disposta ao risco da sinceridade absoluta.

Em última análise, Song Sung Blue: Um Sonho a Dois fracassa porque entende a beleza apenas como uma sucessão de momentos revigorantes, ignorando que o conserto de uma alma quebrada exige tempo e silêncio, elementos raros nesta produção. Ao remover a densidade do drama em favor de uma humorização constante, Craig Brewer expõe um esqueleto emocional frágil. É um filme que, embora conte com o suporte de grandes talentos, caminha com dificuldades por não saber se quer ser poesia ou apenas entretenimento passageiro. O produto final é de uma superficialidade que desaponta, provando que nem mesmo o brilho das estrelas pode iluminar um roteiro que se recusa a sair da sombra das convenções biográficas mais genéricas e insuportáveis.

Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Song Sung Blue) — EUA, 2025
Direção: Craig Brewer
Roteiro: Craig Brewer, Greg Kohs
Elenco: Hugh Jackman, Kate Hudson, Ella Anderson, Hudson Hensley, King Princess, Michael Imperioli, Fisher Stevens, Jim Belushi, Mustafa Shakir, John Beckwith, Jayson Warner Smith, Cecelia Riddett, Sean Allan Krill, Jim Conroy
Duração: 132

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