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Crítica | Isolados: Medo Invisível (Songbird)

por Ritter Fan
3.596 (a partir de agosto de 2020)

Alardeado como o primeiro filme integralmente produzido durante a pandemia de 2020, com produção de Michael Bay, Isolados: Medo Invisível é um filme de oportunidade que manipula nossos medos em relação às incertezas mundiais do momento e tenta construir uma história razoavelmente coerente. Não é, diferente do que muitos podem imaginar, um longa abominável de um produtor medíocre e um diretor quase indigente chamado Adam Mason, mas sim algo que parece literalmente o que é, um filmezinho básico, feito na base da correria para surfar uma onda de momento no melhor estilo hollywoodiano.

Alguns podem considerar como de mau gosto um filme que extrapola a situação atual e avança um pouco no tempo par 2024 para apresentar um mundo em eterna quarentena enfrentando uma mutação da COVID-19, a COVID-23, que se tornou transmissível por via aérea e com letalidade acima de 56%, levando à criação de verdadeiros campos de concentração para os infectados, mas isso não me incomoda. Se alguma coisa, serve de aviso aos incrédulos e negacionistas que acham que tudo é teoria da conspiração e, como premissa cinematográfica, é perfeitamente aceitável, até porque, de uma forma ou de outra, já foi usada algumas outras dezenas (centenas?) de vezes.

O protagonista é Nico Price (KJ Apa), um jovem completamente imune à doença que trabalha como entregador, cruzando Los Angeles incessantemente de bicicleta trabalhando para Lester (Craig Robinson), dono, mal comparado, de uma Amazon local e em uma relação virtual – já que eles não podem se tocar – com Sara Garcia (Sofia Carson), que vive com sua avó Lita (Elpidia Carrillo). A história é um fiapo insignificante e só começa quando todos os “jogadores” são devidamente apresentados que, além dos já citados personagens, conta ainda com um casal rico que vive de falsificar pulseiras amarelas de imunidade, uma vlogueira cantora, um veterano de guerra preso a uma cadeira de rodas e, claro, o vilanesco Emmett Harland (Peter Stormare), todo-poderoso chefe do completamente policialesco Departamento de Saneamento, todos formando um ecossistema criado especificamente para tornar possível todo o dilúvio de conveniências que o roteiro de Adam Mason e Simon Boyes não tem vergonha alguma em derramar. Em suma, trata-se de uma história de amor em que Nico precisa salvar Sara das garras das autoridades.

Em outras palavras, todo o ambiente de paranoia, isolamento e horror que os primeiros minutos da projeção consegue estabelecer até de maneira bem eficiente, com tomadas filmadas em uma Los Angeles verdadeiramente vazia pelo começo da pandemia do mundo real, não é mais do que um pano de fundo que acaba muito mal aproveitado de forma que um romance platônico, com direito a uma constrangedora sequência em que os amantes estão separados por apenas uma porta, possa ser desenvolvido, se que é que “desenvolvido” é uma palavra aplicável aqui, lógico. Todo o potencial que a extrapolação assustadora do momento atual é, portanto, defenestrado sem muita cerimônia de maneira a privilegiar uma história absolutamente banal que chega a ser engraçada, com o uso de muita câmera tremida e montagem desnorteadora.

E o lado cômico da história continua com KJ Apa usando cada momento possível para mostrar seus músculos torneados e Peter Stormare, certamente percebendo a qualidade do material que tinha em mãos, criando um vilão que estaria totalmente em casa no mais histriônico dos filmes de 007, provavelmente um com Roger Moore, claro. A vantagem disso é que tira aquela pretensa seriedade da fita e entra para um lado galhofa não intencional que acaba trazendo leves traços de diversão nervosa. E, lógico, as formas como as peças se encaixam, como cada personagem tem sua participação nessa história de amor e como tudo acontece como passes de mágica sucessivos acaba adicionando aquelas sempre salutares oportunidades para rolar os olhos e suspirar em total descrença sobre o que está acontecendo.

Isolados: Medo Invisível existe em um momento complicado e desavergonhadamente usa esse momento complicado para existir. No entanto, seu problema não está nesse oportunismo descarado, pois, nesse ponto, devo dizer que vejo valor na empreitada. A questão é que, no lugar de realmente investir de verdade em um cenário apocalíptico em tempo presente o que, convenhamos, é oportunidade única (ou assim espero…), Adam Mason preferiu reduzir tudo ao denominador comum, entregando apenas um passatempo medíocre, ainda que não completamente insultante como muitos têm apregoado.

Isolados: Medo Invisível (Songbird – EUA, 2020)
Direção: Adam Mason
Roteiro: Adam Mason, Simon Boyes
Elenco: KJ Apa, Sofia Carson, Craig Robinson, Peter Stormare, Alexandra Daddario, Demi Moore, Paul Walter Hauser, Bradley Whitford, Lia McHugh, Elpidia Carrillo, Michole Briana White
Duração: 84 min.

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