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Crítica | Songbird

por Ritter Fan
3232 views (a partir de agosto de 2020)

Alardeado como o primeiro filme integralmente produzido durante a pandemia de 2020, com produção de Michael Bay, Songbird é um filme de oportunidade que manipula nossos medos em relação às incertezas mundiais do momento e tenta construir uma história razoavelmente coerente. Não é, diferente do que muitos podem imaginar, um longa abominável de um produtor medíocre e um diretor quase indigente chamado Adam Mason, mas sim algo que parece literalmente o que é, um filmezinho básico, feito na base da correria para surfar uma onda de momento no melhor estilo hollywoodiano.

Alguns podem considerar como de mau gosto um filme que extrapola a situação atual e avança um pouco no tempo par 2024 para apresentar um mundo em eterna quarentena enfrentando uma mutação da COVID-19, a COVID-23, que se tornou transmissível por via aérea e com letalidade acima de 56%, levando à criação de verdadeiros campos de concentração para os infectados, mas isso não me incomoda. Se alguma coisa, serve de aviso aos incrédulos e negacionistas que acham que tudo é teoria da conspiração e, como premissa cinematográfica, é perfeitamente aceitável, até porque, de uma forma ou de outra, já foi usada algumas outras dezenas (centenas?) de vezes.

O protagonista é Nico Price (KJ Apa), um jovem completamente imune à doença que trabalha como entregador, cruzando Los Angeles incessantemente de bicicleta trabalhando para Lester (Craig Robinson), dono, mal comparado, de uma Amazon local e em uma relação virtual – já que eles não podem se tocar – com Sara Garcia (Sofia Carson), que vive com sua avó Lita (Elpidia Carrillo). A história é um fiapo insignificante e só começa quando todos os “jogadores” são devidamente apresentados que, além dos já citados personagens, conta ainda com um casal rico que vive de falsificar pulseiras amarelas de imunidade, uma vlogueira cantora, um veterano de guerra preso a uma cadeira de rodas e, claro, o vilanesco Emmett Harland (Peter Stormare), todo-poderoso chefe do completamente policialesco Departamento de Saneamento, todos formando um ecossistema criado especificamente para tornar possível todo o dilúvio de conveniências que o roteiro de Adam Mason e Simon Boyes não tem vergonha alguma em derramar. Em suma, trata-se de uma história de amor em que Nico precisa salvar Sara das garras das autoridades.

Em outras palavras, todo o ambiente de paranoia, isolamento e horror que os primeiros minutos da projeção consegue estabelecer até de maneira bem eficiente, com tomadas filmadas em uma Los Angeles verdadeiramente vazia pelo começo da pandemia do mundo real, não é mais do que um pano de fundo que acaba muito mal aproveitado de forma que um romance platônico, com direito a uma constrangedora sequência em que os amantes estão separados por apenas uma porta, possa ser desenvolvido, se que é que “desenvolvido” é uma palavra aplicável aqui, lógico. Todo o potencial que a extrapolação assustadora do momento atual é, portanto, defenestrado sem muita cerimônia de maneira a privilegiar uma história absolutamente banal que chega a ser engraçada, com o uso de muita câmera tremida e montagem desnorteadora.

E o lado cômico da história continua com KJ Apa usando cada momento possível para mostrar seus músculos torneados e Peter Stormare, certamente percebendo a qualidade do material que tinha em mãos, criando um vilão que estaria totalmente em casa no mais histriônico dos filmes de 007, provavelmente um com Roger Moore, claro. A vantagem disso é que tira aquela pretensa seriedade da fita e entra para um lado galhofa não intencional que acaba trazendo leves traços de diversão nervosa. E, lógico, as formas como as peças se encaixam, como cada personagem tem sua participação nessa história de amor e como tudo acontece como passes de mágica sucessivos acaba adicionando aquelas sempre salutares oportunidades para rolar os olhos e suspirar em total descrença sobre o que está acontecendo.

Songbird existe em um momento complicado e desavergonhadamente usa esse momento complicado para existir. No entanto, seu problema não está nesse oportunismo descarado, pois, nesse ponto, devo dizer que vejo valor na empreitada. A questão é que, no lugar de realmente investir de verdade em um cenário apocalíptico em tempo presente o que, convenhamos, é oportunidade única (ou assim espero…), Adam Mason preferiu reduzir tudo ao denominador comum, entregando apenas um passatempo medíocre, ainda que não completamente insultante como muitos têm apregoado.

Songbird (EUA, 2020)
Direção: Adam Mason
Roteiro: Adam Mason, Simon Boyes
Elenco: KJ Apa, Sofia Carson, Craig Robinson, Peter Stormare, Alexandra Daddario, Demi Moore, Paul Walter Hauser, Bradley Whitford, Lia McHugh, Elpidia Carrillo, Michole Briana White
Duração: 84 min.

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12 comentários

Herbert Engels 25 de dezembro de 2020 - 11:00

Michael Bay tinha a oportunidade perfeita de produzir algo que soasse humanista e intimista mas de novo preferiu ficar apenas na base masturbatoria do seu estilo. Pra um sujeito que SABE como trabalhar (Bay é sim um dos diretores/produtores mais fortes de Hollywood) eu acho que ele precisa evoluir sua cinematografia, pois a mesma já ficou datada a anos.
Chega ser bizarro que de toda a tragédia trazida pelo coronavírus ele tenha preferido justamente dar voz a nata mais alienada e elitizada da sociedade americana (até o exercito ele acha uma maneira de “homenagear”).
Se a situação atual não era, por incrível que pareça, suficiente para gerar dramaturgia sem cair no drama de 3º categoria, então pra que não se espelhar na famosa série da HBO Chernobyl como guia narrativo?, levando em consideração que a mesma teve aporte até melhor do que este filme, mesmo possuindo um acontecimento de décadas atrás -oque do ponto de vista comercial chega a ser vergonhoso- . Única coisa que justifica esses vícios é a utopia de que o mundo ainda é CENTRADO no poderia estético-cultural americano (será que esses caras SABEM que existe sucesso fora dos States? Na Netflix é oq não falta exemplos), essa é uma linguagem que deve cair como uma luva talvez apenas pros 70 milhões de fracassados que votaram no Donald Trump.
E novamente, o problema não é o estilo do Bay, pois até mesmo cineastas de renomes como Christopher Nolan e o finado Tony Scott se afeiçoaram a esta estética para filmar ação. O problema é a falta de evolução do cara, que, como mostrou Joseph Kosinski e Peter Berg, poderia ser bem feita se não ficasse na zona de conforto.

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planocritico 25 de dezembro de 2020 - 11:01

Eu acho o estilo e a estética de Bay muito diferentes – e bem piores – que os de Nolan e Scott. Não o vejo de forma alguma como um diretor capaz de grandes evoluções ou arroubos criativos. Um dia ele pode me provar errado, mas até lá, eu vou esperar sentado…

Abs,
Ritter.

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Herbert Engels 25 de dezembro de 2020 - 11:08

Pra mim há várias similaridades nesses 4 nomes, principalmente na montagem de um (Nolan) e estética do outro (Scott). E como o Patrick Willems mostrou em sua dessecagem de Michael Bay enquanto um autor, o cinema dele é dificílimo de se fazer:

https://www.youtube.com/watch?v=pyx7YRU4trs&ab_channel=Patrick%28H%29Willems

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planocritico 25 de dezembro de 2020 - 11:42

Difícil não quer dizer bom. E, para mim, Nolan e Scott têm uma filmografia bem superior à de Bay.

Abs,
Ritter.

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Herbert Engels 26 de dezembro de 2020 - 21:24

Mas eu não disse que era bom haha.

planocritico 26 de dezembro de 2020 - 21:33

He, he. Foi só para deixar registrado!

Abs,
Ritter.

Saleteh 20 de dezembro de 2020 - 15:59

Essa crítica sempre tão crítica com filmes que julgam ser um fiasco. Bom mesmo pra crítica são filmes estilo Woody Allen kkkkkk. Nos vemos nas bilheterias.

Responder
planocritico 20 de dezembro de 2020 - 15:59

Se eu tivesse entendido seu comentário, eu responderia…

– Ritter.

Responder
Abrahão Juvencio 18 de dezembro de 2020 - 18:19

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

“um longa abominável de um produtor medíocre e um diretor quase indigente chamado Adam Mason,”
– Senhor Ritter 2k20,

Olha a genialidade do garoto: “Covid 23”, cara de filme que vai um oscar… Já vô logo avisando.

Responder
Léon 18 de dezembro de 2020 - 18:19

Conhecendo pouco e superficialmente como eu conheço o Ritter , acho que ele se segurou para ser educado e polido ao escolher estas palavras para tentar ferir menos os envolvidos nesta produção. Só não sei se deu muito certo… KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

Eu tô rindo tanto com isso de Covid-23. Olha aí, Jim Carrey nos avisou há muito tempo sobre a maldição do número 23. Nós que não acreditamos.

“[…] KJ Apa usando cada momento possível para mostrar seus músculos torneados” isto me lembrou algo, mas enfim. Deixa ele mostrar os músculos torneados, Ritter! Eu não vejo problemas nisto. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

É, pelo jeito acho que ainda vou ficar com o Songbird de Bioshock Infinite. Até hoje não me recuperei da morte dele.

Responder
planocritico 18 de dezembro de 2020 - 20:52

He, he. Eu queria ter gostado dessa coisa, mas aí virou anúncio de Whey Protein, de bicicleta e de drone…

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 18 de dezembro de 2020 - 18:19

Confesso que tinha potencial uma evolução teórica da COVID-19, mas aí virou historinha de amor banal e estragaram o potencial…

Abs,
Ritter.

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