Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Songs My Brothers Taught Me

Crítica | Songs My Brothers Taught Me

Melancolia e tédio no dia-a-dia das reservas indígenas.

por Kevin Rick
328 views (a partir de agosto de 2020)

Songs my Brothers Taught Me, primeiro longa-metragem dirigido por Chloé Zhao, atual vencedora do Oscar de melhor diretora por Nomadland, é situado na reserva indígena de Pine Ridge em Dakota do Sul, onde acompanhamos uma espécie de coming-of-age de dois irmãos da tribo Sioux Lakota, Johnny (John Reddy) e sua irmã mais nova, Jashaun Winters (Jashaun St. John). Johnny é um contrabandista de bebida alcóolica, e está ansioso para se mudar para Los Angeles com sua namorada, Aurelia (Tashya Fuller), mas teme deixar para trás sua irmã vulnerável e sua mãe solteira, Lisa (Irene Bedard).

Assim como tem sido pautado em seus filmes mais recentes, parte de uma trilogia não-oficial (Songs my Brothers Taught Me, The Rider Nomadland) sobre grupos e culturas (e subculturas) norte-americanas negligenciadas e esquecidas, a estreia de Zhao é um relato meditativo e empático da exclusão que nativos-americanos sentiram por décadas, desde a quase extinção e apropriação de terras sofridas por indígenas que agora vivem em reservas sucateadas. A cineasta chinesa, já em sua estreia, tem uma proposta imagética bem delineada, com clara inspiração em Terrence Malick, de um estilo naturalista, contemplativo e quase documental.

Isso está em exibição completa aqui, conforme Zhao utiliza um elenco majoritariamente de não-atores para contar uma história de amadurecimento praticamente neorrealista no seu retrato cotidiano e monótono de como é o dia-a-dia contemporâneo em um reserva indígena. Apesar de ser uma narrativa extremamente lenta, beirando o tédio, como a vida real normalmente é, a diretora é inteligente no preenchimento da tela com significado apenas oriundos de elementos visuais (e também sonoros), sem necessitar de uma trama linear ou diálogos.

O primeiro aspecto do longa que salta aos olhos é a influência urbana (raps, tatuagens, figurino) em um ambiente desértico e rústico, sempre pontuado pela belíssima fotografia e as várias sequências amplas e panorâmicas de paisagens deslumbrantes e áridas que se estendem infinitamente em direção a um céu infinito. A beleza e a sujeira do ambiente chega a ser paradoxal ou contraditório. E Zhao entende como criar significado com isso, como se esse lugar estivesse parado na história ancestral, deslocado do espaço-tempo e esquecido pela civilização, ao mesmo tempo que hip-hop toca ao fundo e as pessoas falam de viajar para Los Angeles, nos lembrando que essa cultura existe no aqui e agora, mas foi extirpada de oportunidades e de um senso de direção.

Interessante também como ela cria diferentes visões na vida da reserva através dos irmãos. Com Johnny, sempre estamos cercados de um mundo criminoso, com drogas, melancólico e vazio – Zhao reforça essa sensação com alguns planos longos e distantes do jovem, acompanhados por um violino trágico. Enquanto com Jashaun existe um olhar infantil esperançoso e bonito para certos costumes e tradições indígenas, algo literalmente explicado no final do longa. Há também, claro, o caráter minimalista, sempre trabalhando o drama através de conflitos familiares íntimos.

Songs my Brothers Taught Me é uma representação autêntica e trágica de pessoas esquecidas e negligenciadas em reservas indígenas. Diferente de seus outros dois longas-metragens, Zhao tem menos habilidade com ritmo – esse é de longe seu filme mais tedioso, quase borrando a linha entre ficção e documentário -, e não porque ele é vazio, nem de longe, mas porque pode soar vago em muitos momentos mundanos, além de que a trama bem batida de coming-of-age não cria uma substância envolvente para o drama diário dos irmãos. Há, no entanto, os primeiros indícios de uma cineasta que tem uma beleza e melancolia técnica muito rara na maneira que comove a audiência com comunidades que precisam ter suas histórias contadas.

Songs My Brothers Taught Me – EUA, 2015
Diretor: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao
Elenco: John Reddy, Jashaun St. John, Travis Lone Hill, Irene Bedard, Taysha Fuller, Allen Reddy
Duração: 98 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais