Crítica | Sonic – O Filme

A chegada do espinhoso Sonic em sua versão cinematográfica foi esperada por muitos fãs desde que os rumores ganharam forma e se transformaram em projeto sólido com agendamento para 2020. Os anéis e seus sons peculiares, os passeios velozes do nosso herói azulado por Green Hill, os embates com Robotinik e outros momentos das aventuras que algumas gerações acompanharam desde a década de 1990, nos jogos da SEGA, agora já podem ser conferidos em sua tradução intersemiótica assinada por Jeff Fowler. Nada contra os efeitos visuais, a construção live-action de Sonic, tampouco ao filme em si, adequado para a proposta na qual está inserido. O grande problema é a nossa expectativa, nostálgica demais, pois se você espera ver uma “adaptação” do videogame que esteja focada em detalhes vivenciados pela nossa relação passada com o joystick nas mãos, adianto que você, caro leitor, vai se arrepender profundamente.  E se arrepender por culpa exclusivamente sua.

Ao longo dos 99 minutos da aventura, acompanhamos os personagens criados por Naoto Ohshima, Hirokazu Yasuhara e Yuji Naka, adaptados dos games para a linguagem cinematográfica pelo roteiro da dupla formada por Patrick Casey e Josh Miller. Eles nos mostram a chegada de Sonic (voz de bem Schwartz), o porco-espinho veloz que chegou ao nosso mundo através do anel que lhe serve como portal. Aqui na Terra, habita a interiorana cidade de Green Hill, um local pacato que logo mais será o cenário para as loucas ações do Dr. Ivo Robotinik (Jim Carrey), personagem envolto numa roupagem do seu ator no modo anos 1990, isto é, muitas caras e bocas, histrionismo que chega na linha de ultrapassagem dos limites do que é engraçado. Sonic, com hábitos e visões diferentes do mundo ao seu redor, torna-se amigo de Tom Wachowski (James Marsden), carismático policial da região que está prestes a mudar de vida.

Com projeto para sair de Green Hill e comandar situações em que as pessoas de fato necessitem de sua ajuda, o personagem possui como necessidade dramática o interesse de imprimir mais significados na ficha de sua vida. Ele é casado com a doce e gentil Maddie Wachowski (Tika Sumpter), veterinária que lhe apoia nos projetos delineados para logo mais, planos que se modificam quando conhece o porco-espinho e decide se aliar em prol da defesa do mundo contra os planos maléficos do cientista louco que em alguns momentos, nos remete a Hitler, até mesmo numa breve referência musical. Assim, a dupla entrará num combate de tirar o fôlego, com direito aos já esperados diálogos cheios de piadas, cenas de ação frenéticas e efeitos visuais para deixar a plateia animada com a produção. Isso se você não for exigente demais.

Foi preciso menos de 30 minutos para me convencer de que Sonic – O Filme não é uma tradução digna do legado do game. Sabemos que o ponto de partida é apenas o personagem, pois um filme desse segmento não pode e nem deve ser uma cópia fiel do que lhe serve de material de base. No entanto, a música tema famosa é tocada num momento muito breve próximo ao final, os anéis, acredito, tornam-se a única referência direta dos games e apesar do carisma dos protagonistas, a narrativa carece de uma história que seja algo além do entretenimento para o público infantil ou experiência saudosista para marmanjos como eu, à beira dos 40 anos, nostálgicos em busca de memórias do passado onde os problemas reais eram transformados em alegorias para as nossas brincadeiras.

Ficamos à espera de um ritmo que não avança tão vertiginosamente como o próprio Sonic. E convenhamos, Jim Carrey está tão exagerado que em alguns trechos senti vergonha alheia de seu personagem farsesco demais. Para quem jogou Sonic, sabe que o vilão sempre foi a representação cabal da cultura do excesso. Exagerado, nada sutil, cheio de apetrechos para encher o caminho do porco-espinho de obstáculos. No filme, por sua vez, a caracterização beira ao excesso, numa busca por transformar o antagonista numa figura excessivamente idiota. De tão idiota, torna-se banal. Não fosse o já citado carisma dos protagonistas e os diálogos afiados de Sonic, cheio de referências aos ícones da cultura pop musical e cinematográfica, a narrativa iria naufragar vertiginosamente.

Ademais, o que encontramos em Sonic – O Filme é uma história genérica sobre um vilão destrutivo sendo combatido por uma dupla do bem. Parece a mesma produção de sempre no gênero aventura estadunidense, focado na salvação da humanidade e destruição do que é mal e vil. No desfecho, os créditos emulam inteligentemente algumas passagens das primeiras fases da versão em game, diurnas, com paisagens naturais como destaque. Como pesquisador e interessado nos tratados da tradução intersemiótica, sei que não devemos questionar qualquer filme pelo viés da “fidelidade”, pois nenhuma produção cinematográfica deve ou tem que ser a cópia da influência literária, musical, histórica, biográfica, etc. No entanto, esperamos alguma correspondência, algo que acontece de maneira tão diluída que não nos satisfaz enquanto pessoas em busca das memórias de uma era mágica, onde munidos do Mega Drive e do nosso desejo em jogar, adentrávamos no mundo de Sonic e viajávamos em sua trajetória lúdica.

Aos interessados apenas numa animação divertida sobre a luta entre o bem e o mal, o filme pode até funcionar, ou não, depende muito, principalmente do grau de exigência. Os efeitos visuais coordenados pela dupla Lindsay Adams e Caroline Adams, da Future Associate, não deixam a desejar em nenhum momento. A condução musical de Junkie XL também é eficiente, assim como a edição de Stacey Schroeder e Debra Neil-Fisher, um segmento importante para um filme repleto de cenas que pedem um ritmo mais frenético. Tudo isso, no entanto, pode não ser suficiente quando o espectador não tem a referência do personagem e acha tudo muito genérico, ou então, por conhecer a trajetória de Sonic, desejava maior relação com o universo de onde o porco-espinho foi adaptado. Não dá para saber. O que sei é que esperava ver alguma passagem pelo Cassino, um breve trecho ou referência ao âmbito das plataformas de petróleo, os obstáculos com magma, a metrópole ao estilo Fritz Lang das fases finais de Sonic 2, minha maior referência. Não teve, no entanto, não é o que diminui a qualidade do filme. É apenas o que não alimenta a minha faminta expectativa.

Sonic – O Filme (Sonic the Hedgehog) — Estados Unidos, 2020
Direção: Jeff Fowler
Roteiro: Patrick Casey e Josh Miller, Naoto Ohshima, Hirokazu Yasuhara, Yuji Naka
Elenco: Adam Pally, Bailey Skodje, Ben Schwartz, Breanna Watkins, Dean Petriw, Debs Howard, Elfina Luk, Frank C. Turner, James Marsden, Jeanie Cloutier, Jeff Sanca, Jim Carrey, Leanne Lapp, Lee Majdoub, Melody Nosipho Niemann, Natasha Rothwell, Neal McDonough, Nicholas Dohy, Shannon Chan-Kent, Tika Sumpter
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.