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Crítica | Sorry, Baby

O debut delicado de Eva Victor.

por Felipe Oliveira
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Aclamado em sua exibição no Festival Sundance deste ano, o filme de estreia de Eva Victor é o tipo de produção que quanto menos souber, melhor, mas também, é inevitável não ir conferir ao longa quando boa parte da audiência o definiu como algo autêntico e comovente. Em suas palavras sobre o filme, Victor disse que o fez endereçando a pessoa que costumava ser, uma pessoa que precisava assistir a um filme para se sentir acolhida. Além de ter escrito e dirigido, Victor estrela Sorry, Baby como Agnes, uma mulher que vive isolada em consequência de um episódio traumático que sofreu há alguns anos. Mas notemos que desde o primeiro momento o tom do longa é acompanhado de uma leveza, diálogos soltos e corriqueiros — tanto que o primeiro bloco do filme é uma conversa desajustada e aleatória entre as duas amigas, porém, marcado com uma melancolia que é diluída pelo jeito de Agnes — além de planos abertos que destacam a paisagem do local onde a protagonista se reprime. Essa escolha de introduzir Sorry, Baby por uma perspectiva esperançosa, bem-humorada e de alguma maneira aconchegante se deve ao fato da cineasta não querer que o principal tema do filme seja visto por uma ótica pessimista e opressiva, e sim de causar um sentimento acolhedor para quem esteja conhecendo a história de Agnes.

Há quem diga que Sorry, Baby se trata de uma comédia dramática ou apática, contudo, a presença do humor aqui surge em função do equilíbrio, de manter a leveza e extrair um riso mesmo que seja involuntário do jeito ácido de Agnes se expressar. De algum modo, mesmo com o teor cômico, o telespectador sente que algo está incomodando, gerando desconforto por trás dessa camada lúdica com a qual Victor introduz ao seu filme — e também caracteriza sua personagem. Dentre as diferentes escolhas que a cineasta estreante imprime em Sorry, Baby, a principal está na narrativa não linear que inicia com a linha presente e depois retorna alguns anos para narrar os eventos que culminaram no isolamento da protagonista. O ponto em questão nessa escolha é que Victor não apela para construção de suspense a fim de criar um terreno para os acontecimentos passados, mas transita com naturalidade, sem mudar o tom e forma como a história está sendo contada: planos abertos, humor ácido e a delicadeza.

Ao ter a narrativa dividida entre o antes e depois do trauma sofrido por Agnes, o filme concentra seu olhar em mostrar os efeitos do evento na protagonista do que explorar a natureza do trauma — neste caos, um abuso. Assim, Victor busca alternativas para contar essa história sem cair na simplificação ou romantização, optando sempre em apresentar diferentes nuances. Um bom exemplo do controle narrativo da cineasta é no trecho o qual o crime acontece, quando Agnes no seu último ano cursando Literatura e Inglês na universidade vai encontrar seu orientador sozinha na residência dele. Os detalhes do ocorrido são apresentados num monólogo de um take num cuidadoso momento o qual a protagonista se abre com a sua melhor amiga Lydia (Naomi Ackie), mas o filme deixa claro que abordar o crime não é o foco – e literalmente deixa fora de cena — e sim trabalhar a temática por outro ângulo.

Do terror ao drama, com ou sem alegorias, muito já se falou no cinema sobre trauma e superação e Sorry, Baby vai na contramão ao não colocar o trauma e seus desdobramentos como o centro, mas foca em dizer quem é Agnes. Divididos em cinco atos que não seguem uma ordem cronológica lógica, vamos acompanhando diferentes fases da vida da protagonista, que vai do encontro de um gato abandonado, o nascimento do bebê da melhor amiga, até quando foi convidada a lecionar na sua antiga universidade. Não é como se o filme desviasse da gravidade da violência sofrida, e o que Victor propõe em seu roteiro é falar sobre a vida, mas nunca tornar o trauma como protagonista e pilar narrativo. Nesse sentido, Sorry, Baby não quer se resumir ao seu tema, a òtica do drama e transformar os capítulos que se interligam numa espécie de metáfora sobre Agnes e sua superação, mas simplesmente falar da vida de uma mulher e como ela lidou e lida com o que lhe aconteceu.

Sorry, Baby (Sorry, Baby – EUA, Espanha, França, 2025)
Direção: Eva Victor
Roteiro: Eva Victor
Elenco: Eva Victor, Naomi Ackie, Louis Cancelmi, Kelly McCormack, Lucas Hedges, John Carroll Lynch, Hettienne Park, E.R. Fightmaster, Liz Bichop, Marc Carver
Duração: 103 min.

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