Crítica | Sorry to Bother You

“Eu realmente apenas quero um emprego.”

O crescente absurdismo de Sorry to Bother You, ganhando gradualmente mais e mais um escopo de fantasia no prosseguimento de sua duração, é naturalmente incômodo, até mesmo para o próprio longa-metragem em si. A orgânica cena inicial, que parece se situar em um mundo completamente como o nosso, é o mais normal que o filme consegue alcançar em quase duas horas de projeção, o que atesta para a profundidade do projeto e da sua acidez. O jovem negro, interpretado por Lakeith Stanfield, que precisa aparentemente criar uma grande mentira para ganhar um mero emprego numa empresa de telemarketing, está em uma situação que não deveria ser vista como normal. Esqueça os preconceitos, o capitalismo ganancioso e a miséria. Existe no mundo coisa que nos incomoda mais do que atendentes de telemarketing? O que é inconveniente?

Quando Danny Glover, em uma curiosa participação que até mesmo referencia Máquina Mortífera, começa a usar a sua “voz branca”, o estranhamento é quase imediato. As espécies de possessões demoníacas são importantes para esse processo de naturalização do surreal como algo normal. Cassius Green acaba sendo incorporado por essa sua personificação branca – nada mais nada menos que a interpretação vocal de David Cross. A ascensão social sugerida, contudo, revela um garoto negro que precisa se comportar de um modo “mais branco” que os próprios brancos. Steve Lift (Armie Hammer), por exemplo, chefe de uma organização central à narrativa, enormemente criticada pelos coadjuvantes do filme, se comporta de uma maneira muito mais informal. O impacto está em percebermos que a voz branca do protagonista, em certo momento, não é mais incômoda.

Boots Riley, um cineasta que se impulsiona com um quê de Terry Gilliam, encontra um universo cheio de psicodelismos. Se não consegue recriar isso com enquadramentos mais audaciosos – a arte é mais bem sucedida -, o roteiro é um primeiro passo extraordinário, um dos mais criativos dos últimos anos. A quantidade de cenas imaginativas que se originam, uma atrás da outra, é impensável. O rap proposto pelo antagonista a Cash, como um momento imensamente irônico, é um dos auges das contradições sociais exemplificadas. Já o fato de não sabermos o nome do personagem de Omari Hardwick enaltece o quanto aquele ser foi desconstruído pela sociedade ao ponto de não ser mais reconhecível como algo autêntico. Os escravos não são apenas os cavalos. Uma pena que o romance apresentado – e os problemas relacionados – seja um pouco gratuito.

Nesse mundo “fantástico”, os cidadãos de um Estados Unidos supostamente alternativo se entretém rotineiramente com pessoas sendo massacradas na televisão, seja encobertas de estrume ou seja socadas incessantemente. No nosso mundo, os massacres não necessariamente acontecem nos canais abertos, mas certamente são imaginados através das redes sociais, permeadas por comentários tóxicos de usuários anônimos. Assistir ao protagonista coberto de fezes provoca o nosso senso de incômodo. Assistir aos monstros que surgem de cômodos com portas olivas provoca o nosso senso de incômodo. Sorry to Bother You é consciente do seu absurdismo, ao passo que o transporta para um mundo em que coisas surreais tornaram-se quase normais. Ainda conseguimos nos incomodar com a sociedade, ou só com o cruel telemarketing?

Sorry to Bother You – EUA, 2018
Direção: Boots Riley
Roteiro: Boots Riley
Elenco: Lakeith Stanfield, Tessa Thompson, Jermaine Fowler, Omari Hardwick, Terry Crews, Patton Oswalt, David Cross, Danny Glover, Steven Yeun, Armie Hammer, Mahari Crown, Lily James
Duração: 105 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.