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Crítica | Soul (Com Spoilers)

por Michel Gutwilen
7598 views (a partir de agosto de 2020)

É interessante pensar que o próprio modo como Joe Gardner morre é um reflexo de si mesmo e aquilo que será o mote de toda sua jornada por Soul. Afinal, ele está correndo pelas ruas lotadas de Nova York atrás de sua obsessão, o jazz. Não há espaço para mais nada em seu pensamento ou sua visão, seja as pessoas que ele passa ou a própria cidade na qual ele vive. Tanto é que durante esta sequência, uma trilha sonora de jazz na base de um piano frenético preenche as imagens, como se a própria mente do protagonista vivesse a base desses estímulos auditivos do gênero musical. Portanto, o mundo a sua volta é apenas o caminho que ele precisa atravessar para chegar ao seu destino (tanto no sentido de “fim” como de “determinismo”), que é a apresentação que ele irá tocar. Então, nada mais irônico do que Joe ser vítima (literalmente) do seu próprio individualismo, em uma morte tremendamente estúpida: em sua sede pelo sucesso profissional, com os olhos voltados apenas para si, ele não fora capaz de enxergar um simples bueiro na rua. 

Se o mundo físico é apenas um caminho que Joe quer rapidamente atravessar para chegar ao seu destino, ao morrer a relação se inverte: naquela esteira para o Pós-Vida, ele não quer chegar ao fim, mas adiar o máximo possível aquela jornada. Logo, como a maioria dos filmes da Pixar (e das fábulas ocidentais, no geral), Soul será um ensinamento para seu protagonista a partir de um caminho que ele atravessará. O roteiro triplamente assinado por Pete Docter, Kemp Powers e Mike Jones possui alguns motes centrais que serão a grande moral da história aqui. Primeiramente, é uma jornada anti-determinista, já que uma das grandes reviravoltas gira em torno da descoberta que, contrário ao que se acreditava, o requisito para ir à Terra não era uma aptidão profissional, mas o próprio fato de estar pronto para aproveitar a experiência mundana em si. A característica distintiva de uma pessoa não é sua grande habilidade para uma atividade — o basquete, a culinária, a música etc. — pois isso implicaria em reduzir a existência humana como um todo. O próprio título do filme é uma brincadeira polissêmica pois funciona tanto no sentido de alma em inglês quanto do soul, gênero musical afro. Quando a narrativa começa, há uma convergência entre os termos, pois é a música que completa a alma de Joe. Ao fim da jornada, não será mais a música a grande essência da vida deste homem.

Consequentemente a este primeiro mote, um grande assunto que circunda a narrativa de Soul é também o aprendizado de que a vida não se resume ao trabalho. Assim, uma sequência significativa para deixar este ponto claro é aquela do espaço hipotético que reúne todas as memórias importantes de Joe em uma espécie de museu. Para ele, sua vida se resumiu em jazz e seus fracassos/decepções. Não há mais grandes outros momentos em sua vida, porque ele de fato nunca se importou com outra coisa. Ainda que não precisasse, por aquelas imagens já serem claríssimas por si só, o roteiro acrescenta uma frase para o protagonista falar ao fim daquela visita em seu “museu pessoal”: “minha vida não teve significado”. 

Portanto, como durante toda sua vida Joe só teve olhos para sua obsessão profissional, a narrativa cria um dispositivo para que ele passe a olhar, de maneira forçada, para si mesmo: a troca de corpos. Trata-se de uma solução não muito nova neste tipo de história, mas em Soul parece funcionar justamente porque seu protagonista está completamente impregnado de um individualismo que, ironicamente, será solucionado através de uma visão exterior de si mesmo. Até por isso, poderoso é o momento em que Joe, na pele do gato, vê a número 22 (no controle de seu corpo) sendo uma agradável companhia para o barbeiro e os outros clientes, justamente por fazer algo tão simples que ele nunca conseguiu enxergar: falar sobre outro assunto que não a música. “Você nunca perguntou nada sobre minha vida”, diz o barbeiro, na hora de se despedir. Eis então o grande choque de realidade para Joe.

Se esse momento em específico é um dos mais diretos da narrativa, outros acontecimentos corroboram com a mesma intenção de maneiras mais sutis. Um deles é quando a número 22 (controlando Joe), em um movimento oposto a correria do protagonista que vimos anteriormente, para no meio da estação de metrô para escutar um músico tocando violão, evidentemente encantada com aquela experiência. Logo, este momento é contrastante não apenas porque vai no encontro de mostrar as pequenas belezas da vida, como também de apontar mais uma vez o individualismo do protagonista. Afinal, ele aparentemente é um grande apaixonado pela música, mas nunca teve tempo para uma atitude como essa, se importando apenas com a sua música.

Imbuído de questões filosóficas — a essência do indivíduo, a vida e a morte, o propósito da existência na Terra — é curioso pensar nas escolhas estéticas de Soul, principalmente no que tange a representação daquele “mundo hipotético” que é um grande limbo. Partindo para um caráter universal, o filme parece fugir de uma estética baseada na representação cristã, apostando em um tom mais científico e moderno (porém não menos espiritual), com as imagens daquela grande esteira para o portal branco sendo o grande ápice disso, além dos próprios “zeladores” daquele lugar, que normalmente seriam representados por anjos, mas aqui são figuras mais abstratas. Neste sentido, o longa parece até, mais do que se inspirar em outras obras da Pixar, ir em direção a uma estética de jogos eletrônicos de caráter independente que fazem sucesso justamente por suas jornadas emotivas que se passam em ambientes desoladores e minimalistas. Um pessimismo e o senso de vazio que ditam o tom cênico, o que se confirma pela trilha sonora.

No fim, minimalismo é uma questão chave de Soul. Há esse minimalismo estético, como dito no parágrafo acima, o que afasta aquela incessante procura de easter eggs espalhados pelo cenário, retomando o foco apenas para o protagonista e sua jornada. De outro lado, há esse minimalismo como o máximo aprendizado de que, tal como Dois Irmãos, reforça mais a jornada em si e menos o destino final. A mensagem é clara, o que importa são as pequenas coisas: experiências gastronômicas, uma folha que cai da árvore, a água do mar batendo no pé, os momentos vividos com os pais. Quando consegue se desvincular de seu individualismo, dando o “passe à Terra” para a número 22, Joe está pronto para, enfim, viver a vida. E não deixa de ser significativo que, nos momentos finais, haja um paralelismo entre a cidade de Nova York, vista em sua amplitude de luzes artificiais, e o universo, com suas estrelas brilhantes: nossos sonhos (que se transformam em obsessão), que regem e ditam nossas vidas, além de nossa certeza que somos o centro do universo, não são nada perto da grandeza do mundo lá fora. O tal do ditado “um grão de areia no meio do nada”. Adquirir este conhecimento é se libertar e, justamente por reconhecer a própria insignificância diante do todo, aproveitar as pequenas coisas.

Soul (EUA, 2020)
Direção: Pete Docter, Kemp Powers
Roteiro: Pete Docter, Mike Jones, Kemp Powers
Elenco: Jamie Foxx, Tina Fey, Graham Norton, Rachel House, Alice Braga, Richard Ayoade, Phylicia Rashad, Donnell Rawlings, Questlove, Angela Bassett, Cora Champommie, Margo Hall, Daveed Diggs
Duração: 96 minutos

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