Crítica | Space Force – 1ª Temporada

Space Force já nasce com uma tarefa muito difícil e até injusta: conseguir ser no mínimo tão engraçada – ou trágica – quanto a realidade. Afinal, no alto de sua sapiência, o presidente americano Donald Trump não só criou sua “Força Espacial” ao final de 2019 como um braço independente das Forças Armadas, como, ao tentar explicar o que ela faria, chegou a afirmar, com seu linguajar técnico de praxe, que eles desenvolveriam um super-duper missile. Esse é, portanto, um dos casos em que a arte tenta imitar a vida, mas a vida é tão mais inacreditável, que a arte perde o fôlego já na largada.

E olha que estamos falando de uma série desenvolvida por ninguém menos do que Greg Daniels e Steve Carell, a dupla responsável pela versão americana de The Office, que, injustamente, parece ser a única lembrada. Daniels esforça-se na condução e Carell tem uma boa performance que, porém, não é lá muito diferente do que o ator costuma entregar quando faz humor, mas o resultado final da temporada é, no máximo, morno, daquele tipo que agrada, mas não é particularmente especial ou memorável ou… engraçado.

Praticamente toda a comicidade vem da rotina entre Carell como o general quatro estrelas Mark R. Naird que, contra sua vontade, se torna o líder da tal Força Espacial, tendo que se mudar com sua família para um buraco qualquer no Colorado e John Malkovich como o Dr. Adrian Mallory, cientista-chefe da equipe. Como esperado, de um lado vemos o militarismo histérico e descerebrado do tipo “atire primeiro, pergunte depois” e, do outro, o sarcasmo científico tentando, com toda a fleuma e edução possíveis, trazer sentido para a coisa toda. São bons momentos de choque e de construção de uma amizade(???) hesitante, mas que logo perdem a força pela repetição, algo que acontece também – e mais rapidamente ainda – com a rotina entre Naird e seu secretário Brad Gregory (Don Lake), que é nada menos do que também um general, só que de uma estrela.

As narrativas paralelas, que dão estofo para a vida pessoal de Naird, notadamente sua esposa Maggie (Lisa Kudrow), que está na prisão, e sua filha Erin (Diana Silvers), que se sente perdida e sozinha no Colorado, ajudam a tirar o mero escracho do protagonista e a humanizá-lo na medida em que a história progride, mas essas tramas ficam constantemente à margem da temporada, só ganhando uma direção minimamente mais sólida no terço final. A abordagem das duas personagens da família do general deixa claro que, pelo menos em sua primeira temporada, Space Force parece formada por peças que não conseguem encontrar encaixes muito fáceis e, por vezes, os roteiros forçam as situações e martelam soluções que não se mostram verdadeiramente satisfatórias.

Outro exemplo disso é a rivalidade dos EUA com a China. Apesar de essa “guerra fria espacial” gerar ótimos momentos como o episódio 1X02 que coloca um chimpanzé espacial como a última recuperação do satélite e o cliffhanger da temporada que estabelece o impasse entre os dois países em solo lunar, o conjunto da obra não é coeso e lida com essa questão de maneira episódica e fragmentada, espasmódica mesmo, exatamente como a missão espacial do penúltimo episódio que surge praticamente do nada. Falta, muito seriamente, uma progressão lógica e fluida para para esse pano de fundo internacional que parece mais funcionar como esquetes soltas – ainda que tematicamente relevantes – do Saturday Night Live (só que menos inspiradas) do que como algo feito para contar uma história propriamente dita.

Talvez tenha faltado mais ousadia a Greg Daniels que surpreende por manter a série em um nível muito educado e calmo, sem jamais meter o dedo de verdade nas feridas da administração que ele se dispôs a criticar. O anti-belicismo, aqui, é didático, explicado em seus mínimos detalhes e repetido à exaustão pelo intermédio dos constantes embates de Naird e Mallory, deixando de lado toda a sutileza e força existentes tanto em outras obras do próprio showrunner, como também em óbvias inspirações como Dr. Fantástico. Carell, que já graduou de personagens histriônicos, poderia também ter composto um Naird mais próximo de seu trabalho sério-satírico em Vice, pois seu general, especialmente considerando sua evolução “domada” mais para o final, é apenas uma sombra do potencial que parecia ter.

A realidade é consideravelmente mais bizarra e cômica do que Space Force consegue ser nesse seu começo claudicante e “arrumadinho” demais. Deve ser dureza ser comediante diante da concorrência feroz que a vida vem oferecendo…

Space Force – 1ª Temporada (EUA – 29 de maio de 2020)
Criação:  Greg Daniels, Steve Carell
Direção: Paul King, Tom Marshall, Dee Rees, Jeff Blitz, David Rogers, Daina Reid
Roteiro: Steve Carell, Greg Daniels, Shepard Boucher, Lauren Houseman, Brent Forrester, Aasia Lashay Bullock, Connor Hines, Yael Green, Maxwell Theodore Vivian, Paul Lieberstein
Elenco: Steve Carell, John Malkovich, Ben Schwartz, Diana Silvers, Jimmy O. Yang, Tawny Newsome, Noah Emmerich, Alex Sparrow, Don Lake, Fred Willard, Jessica St. Clair, Lisa Kudrow, Roy Wood Jr., Jane Lynch, Chris Gethard, Diedrich Bader, Dan Bakkedahl, Patrick Warburton, Larry Joe Campbell, Kaitlin Olson, Ginger Gonzaga, Owen Daniels, Aparna Nancherla, Spencer House
Duração:  324 min. (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.