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Crítica | Space Jam: O Jogo do Século

por Roberto Honorato
326 views (a partir de agosto de 2020)

“Come on and slam and welcome to the jam.”

Uma coisa que todos esperam dos desenhos da Looney Tunes é o absurdo, várias piadas engraçadas e situações impossíveis, então é claro que ninguém reclamaria de um filme com estes personagens tão amados pelo público. Mas aí vem Space Jam: O Jogo do Século, e você começa a questionar seu amor pela Sétima Arte. E é claro que assistindo isso na década de 1990, ainda criança, esse filme parecia bem melhor do que realmente é, e você não tinha a mínima ideia de que na verdade era tudo apenas uma jogada de marketing descarada para aproveitar o sucesso de um comercial da Nike tentando vender seu novo tênis. Sim, é literalmente isso.

A proposta do filme tem alguns elementos interessantes e a premissa não é, digamos… de se jogar fora. Em algum lugar no nosso sistema solar existe um enorme planeta que serve como parque de diversões chamado Montanha Bobolândia – sim, é nesse nível -, onde os brinquedos são perigosos e radicais, mas ainda assim não agradam o público. Com isso em mente, o gerente decide enviar alguns de seus funcionários, pequenos alienígenas mal intencionados, para o nosso planeta, onde devem encontrar um jeito de capturar Pernalonga e seus amigos para que sirvam de atração principal no parque. Mas os Looney Tunes tem um plano: se aproveitando da baixa estatura dos visitantes, desafiam os seres extraterrestres em uma partida de basquete que decidirá tudo. Os pequeninos conseguem roubar o talento dos maiores jogadores da NBA (devo deixar claro que eles fazem isto usando uma bola de basquete “que suga os poderes dos jogadores”, esse detalhe não é importante, mas merece destaque para dar uma ideia do nível de dedicação que foi dado ao roteiro deste filme) e se transformam em gigantes criaturas chamadas “Monstars(só melhora!). E para derrotar os invasores alienígenas e evitar que sejam escravizados pela eternidade, os Tunes têm a brilhante ideia de chamar ninguém menos que Michael Jordan para seu time. Assim começa o “jogo do século”.

O argumento do longa parece a coisa mais idiota desse mundo, e não ajuda em nada admitir que eu consegui escrever essa premissa de cabeça e tenho a maioria das falas decoradas até hoje. ¯\_(ツ)_/¯

Space Jam, tecnicamente, não é a primeira vez onde vemos os personagens dos desenhos da Warner em um longa que mescla animação e live action. Uma Cilada Para Roger Rabbit, lançado quase uma década antes, já contava com a presença de alguns Looney Tunes. Mas desta vez a parte animada foi feita digitalmente (Roger Rabbit não utilizou computadores), e o resultado é melhor do que o encontrado na maioria das produções que seguem este estilo. A interação entre os elementos ficou bem natural e não envelheceu mal, tirando talvez as partes onde dá pra notar uma diferença na textura e a iluminação não ajuda muito, e esse é um tipo de cuidado que poderia ser tomado. Ainda assim, é um dos pontos positivos de um filme que saiu em 1996, e sabemos o pesadelo que foi o excesso de efeitos especiais desnecessários naquela década.

E agora que passei pelos pontos positivos, posso seguir para onde o filme peca, como no enredo, elenco, direção e basicamente tudo que é necessário para se ter um bom filme.

Vamos começar pelo enredo, que acredite ou não, tem quatro nomes creditados no roteiro. Nada faz sentido, obviamente, já que é tudo uma fachada para vender tênis para quem gosta de esporte e bonecos para quem gosta dos personagens animados. O filme nem tenta disfarçar o product placement (inserção de propaganda) e traz uma cena onde o agente de Michael Jordan entra no quarto do jogador pedindo para que ele “coloque seu Nike, prepare seu Gatorade e não esqueça de passar no McDonalds antes de ir para a quadra”. E eu nem preciso perder muito tempo aqui dizendo que a trama é uma das coisas mais preguiçosas e mal escritas, cheia de piadas sem graça e momentos aleatórios, e olha que a graça dos Looney Tunes é a comédia absurda, mas aqui eles parecem uma versão mais “adestrada” das que conhecemos, fazendo brincadeiras com coisas que ou ficaram datadas de uma forma inacreditavelmente rápida ou não combinam com o humor cínico pelo qual os personagens ficaram conhecidos. Raras as vezes onde alguma coisa funciona e parece ter sido escrita por alguém que sabe o potencial do material que tem em mãos, ou até a oportunidade de trabalhar com personagens tão icônicos. Em questão de narrativa, o filme também consegue ser bem cansativo e o ritmo varia constantemente na primeira metade, onde temos cenas alternando entre o mundo real e o animado. Depois que as partidas de basquete realmente começam, aí sim podemos ter um pouco de diversão vendo como todos interagem, sem contar que o jogo não é ruim.

Quanto ao elenco, esse tem seus altos e seus baixos, mas também tem hora que despenca de um penhasco sem dó. Vamos dar crédito onde ele merece ser dado e reconhecer que Wayne Knight, mais conhecido por interpretar Newman em Seinfeld, é o único que aparenta estar se divertindo em Space Jam. Seu jeito desastrado e exagerado casa bem com a comédia física das animações, e não por ele estar acima do peso (muita gente faz sucesso só com isso sem ter talento algum, é só perguntar para Kevin James), e sim por ser um bom comediante e provavelmente o melhor ator do filme – se bem que não é difícil brilhar em um longa onde Michael Jordan é a estrela -, mesmo tendo que lidar com um roteiro que claramente tenta inserir piadas de mal gosto e sem graça envolvendo seu peso.

E por falar em Michael Jordan, este pode ser um gênio em um estádio de basquete, mas é um desastre atuando, não convence em momento algum, entrega as falas da forma mais desanimada possível e nem é carismático, o que pelo pelo menos seria uma forma de achar a presença dele neste filme mais tolerável. É sofrível, mas ele nunca teve a intenção de se tornar ator, então essa mancha no currículo é coisa pequena comparada ao que Bill Murray fez quando aceitou participar do jogo do século. Todos sabemos que Murray é uma daquelas figuras que muita gente adora e idolatra, ele está no seu Caça-Fantasmas favorito, te fez rir em Feitiço do Tempo e mostrou que consegue entregar uma performance dramática convincente em Encontros e Desencontros; Agora prepare-se para sentir vergonha com sua presença, interpretando ele mesmo, em Space Jam. Nada mais triste do que ver um ator passar por uma fase ruim na carreira e ter que contracenar ao lado de Michael Jordan e personagens que nem estão lá. Desnecessário para o filme, assim como muitas coisas nesta obra, ele serve apenas como ponto de referência e para piadas metalinguísticas que não fazem rir, como quando um dos desenhos confunde o ator com Dan Aykroyd (só porque os dois fizeram Caça-Fantasmas).

Agora vamos entrar em território um pouco mais sério e falar do maior pecado deste filme, que é a criação de Lola Bunny, o interesse amoroso de Pernalonga. Olha só, eu não tenho problema algum com você criar uma personagem com a única intenção de transformá-lo em um boneco, não existe crime nisso. Mas quando sua única representação feminina no filme é uma versão claramente sexualizada de uma coelha – olha onde fomos parar – usando roupas curtas para deixar todos os desenhos (e humanos) masculinos babando, dá pra entender mais uma vez o nível de esforço feito pela produção para desenvolver seus produtos, quer dizer, seus personagens. Mas se quiser um lado positivo, ela começou a ser bem utilizada nas séries depois disso, como no injustiçado The Looney Tunes Show, onde Lola tinha uma personalidade e falas que não envolviam impressionar os “garotos”. Mas tem um aspecto do filme que eu tenho que deixar para o final, isso porque é provavelmente o maior legado de Space Jam, aquele que está até hoje na cabeça de quem assistiu e provavelmente no Spotify de muitos (tudo bem, só no meu): a trilha sonora.

Se você achou que o maior feito – e único – desta incrível obra estrelada por Michael Jordan era a boa animação, é porque não prestou atenção na seleção de músicas, a maioria feita para o filme. Tirando Coolio, porque ninguém se importa com o Coolio, a trilha traz nomes como Seal, Jay-Z, Salt-N-Pepa e… Chris Rock em um dueto com Barry White?! Aí está uma colaboração que ninguém esperava. Mas é claro que você vai ficar dias e semanas, ou anos, como no meu caso, tentando tirar a música tema do filme da cabeça, feita pelo grupo Quad City Dj´s. A maioria dos grupos pode estar bem datado, mas ninguém é perfeito.

Brincadeiras à parte, este é um daqueles filmes que tem uma ideia ruim e ainda consegue executá-la de forma desastrosa. Mesmo que a animação seja competente e algumas cenas não tenham que ser descartadas completamente, são produções como Space Jam que mostram o pior lado da indústria, com corporações tomando conta de toda a parte criativa, se aproveitando da nostalgia do público e sem qualquer interesse em criar algo novo. É uma pena não ser o filme que os Looney Tunes merecem, e é uma lástima maior o desperdício de tempo e dinheiro em algo que serve apenas como uma oportunidade de marketing. É entretenimento, claro, não precisa ter uma crítica elaborada ou ser engajado em algum tópico político, mas não custa nada fazer algo com coração e um mínimo de esforço.

Isso é tudo, pessoal.

Space Jam: O Jogo do Século (Space Jam) – EUA, 1996
Direção: Joe Pytka
Roteiro: Leo Benvenuti, Steve Rudnick, Timothy Harris, Herchel Weingrod
Elenco: Michael Jordan, Wayne Knight, Theresa Randle, Bill Murray, Larry Bird, Charles Barkley, Patrick Ewing, Billy West, Danny DeVito, Bill Farmer
Duração: 88 min.

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