Home TVTemporadasCrítica | Spartacus: A Vingança – 2ª Temporada

Crítica | Spartacus: A Vingança – 2ª Temporada

Agora donos de uma rebelião, os gladiadores escravizados tocam o terror em busca de seus respectivos gritos de liberdade.

por Leonardo Campos
12 views

Após o trágico afastamento do ator Andy Whitfield por motivos de saúde, Liam McIntyre assumiu com vigor o protagonismo em Spartacus: A Vingança, temporada lançada em janeiro de 2012 que consolidou o legado da franquia. A trama se inicia apenas algumas semanas após o sangrento massacre na casa de Batiatus (John Hannah), situando o protagonista como o líder de uma pequena banda de ex-escravos que sobrevivem escondidos nos esgotos de Cápua. Através de saques estratégicos e ataques surpresa a patrulhas romanas, a produção da Starz expande sua narrativa, deixando os limites da arena para focar na transformação gradativa de gladiadores fugitivos em um exército rebelde organizado. Ao longo de 10 episódios eletrizantes, acompanhamos o protagonista e seus aliados batalhando contra os constantes cercos de Roma, em uma luta desesperada para manter as liberdades que foram conquistadas com doses extremas de sangue e fúria, traduzidos em atos de violência e morte, além das habituais cenas de sexo sem qualquer pudor, entre todos os tipos de pessoas, saindo da perspectiva da ficção audiovisual cinematográfica e televisiva que, antigamente, focava apenas na nudez feminina.

Filmada nas paisagens da Nova Zelândia, a série mantém sua identidade visual única, apresentando episódios adornados pela trilha sonora empolgante de Joseph L. Duca, que dita o ritmo das batalhas épicas. A estética é potencializada pelos efeitos visuais supervisionados por Charlie McClellan, que estilizam cada explosão e jato de sangue em tela, criando uma coreografia de violência quase pictórica. Complementando essa atmosfera, a maquiagem da equipe de Roger Murray realiza um trabalho primoroso ao tornar os corpos desmembrados angustiantemente realistas, um aspecto que é reforçado pelo design de som minucioso de Bruno Barrett-Garnier. Essa união técnica garante que o espectador sinta o peso de cada golpe, mergulhando profundamente na brutalidade crua do período histórico retratado, permitindo aos espectadores uma conexão maior com a produção, para além dos ótimos diálogos, tramas e seus ganchos narrativos que sempre encerram adequadamente cada capítulo da temporada.

A excelência na concepção visual é fruto do trabalho contínuo de Iain Aitken no design de produção, setor que se manteve consistente por todas as temporadas da série. Os cenários eficientes concebidos por Daniel Birt e Jill Cormack transportam o público da opulência romana à sujeira dos esconderijos rebeldes, enquanto os figurinos detalhistas de Barbara Darragh, agora apoiada por Lesley Burkes-Harding, demonstram uma pesquisa histórica rigorosa adaptada ao estilo graphic novel da obra. Soma-se a isso a direção de arte de Nick Bassett, responsável pelos adereços peculiares que conferem autenticidade ao universo, e a direção de fotografia dividida entre Aaron Morton e John Cavill. A dupla de fotógrafos capta com maestria os contrastes visuais entre o luxo das vilas romanas e a precariedade dos acampamentos, utilizando luz e sombra para acentuar o drama de cada cenário, dando coesão aos aspectos estéticos do programa com seus habituais 55 a 60 minutos de duração por episódio.

No centro do conflito político e militar, o Pretor Gaius Claudius Glaber é enviado a Cápua pelo Senado Romano com a missão de esmagar a revolta, estabelecendo sua base de operações justamente no antigo ludus de Batiatus. Tornando-se o antagonista principal, Glaber foca sua perseguição implacável em Spartacus e Crixus, enquanto o protagonista enfrenta um dilema existencial profundo. O herói vive um conflito interno dilacerante entre saciar seu desejo de vingança pessoal contra o homem responsável pela escravidão e morte de sua esposa, Sura, e a necessidade de amadurecer como líder estratégico. Para garantir a sobrevivência de seu exército crescente, o protagonista precisa aprender a colocar o bem comum acima de sua dor individual, em uma jornada de sacrifício que define o tom épico de Spartacus: A Vingança. Ele é um desses heróis que transcende a beleza física e o apelo sexual em torno de sua masculinidade. É um estrategista astuto como o herói da Odisseia, mas habilidoso como Heitor e Aquiles, da Ilíada.

Assim, nos arcos dramáticos da temporada em questão, Spartacus se consolida como líder, aprendendo a equilibrar sua sede de vingança com a necessidade estratégica de proteger seu exército. Termina esse ciclo temporariamente vitorioso e decidido a enfrentar Roma de frente. Crixus (Manu Bennett), motivado pela busca por Naevia, torna-se o braço direito de protagonista e, mesmo capturado e torturado, consegue ser resgatado na metade da temporada, voltando a lutar com fúria. Gannicus (Dustin Clare), centro da minissérie Spartacus: Deuses da Arena, aqui evolui de um gladiador hedonista para um aliado crucial, encontrando propósito na liberdade e lutando contra a República. Temos a reentrada de Naevia (Cynthia Addai-Robinson), personagem que passa por uma transformação traumática, de escrava doméstica a guerreira. Ela busca vingança contra Ashur e, no final, decapita-o em um duelo sangrento. Oenomaus/Doctore (Peter Mensah) vive uma “crise de fé” após a destruição do ludus, tendo dificuldades em lidar com uma teia perigosa urdida pelos inimigos, encontrando um final já esperado, mas sem deixar de empunhar a sua espada e batalhar até os minutos finais, consagrando a sua honra.

Na Roma Antiga, a liberdade feminina era limitada pelo pátrio poder, mas mulheres de diferentes classes exerciam influência social e política significativa. Enquanto figuras da elite podiam patrocinar jogos e influenciar decisões, mulheres escravizadas enfrentavam duras realidades nos bastidores das arenas. Relatos históricos destacam que, embora excluídas da cidadania plena, elas moldavam a cultura e a economia romana. Recentemente, pesquisas reforçam que algumas mulheres desafiaram normas de gênero ao atuar como gladiadoras em espetáculos públicos. Será por isso a inclusão de uma guerreira na atual Spartacus: House of Ashur? Independentemente disso, voltando ao segundo ano da série, as mulheres continuam tendo destaque no painel geral de personagens. A ambiciosa e fascinante Lucretia (Lucy Lawless) é outra personagem que retorna, pois sobreviveu milagrosamente aos eventos da temporada anterior e finge insanidade para manipular Ilithyia (Viva Bianca) e Ashur (Nick E. Tarabay): A primeira, grávida e infeliz em seu casamento , torna-se peão nas maquinações de Lucretia, caminhando para um desfecho possivelmente arruinada, enquanto o segundo, tal como sempre foi, atua como o principal traidor, ajudando Glaber para obter poder e riquezas.

A jornada, apesar de favorável para os rebeldes nessa temporada, continua em Spartacus: A Guerra dos Condenados, encerramento do arco de Liam McIntyre como o protagonista em 2013.

Spartacus: A Vingança (Spartacus: Vengeance/Estados Unidos – 2012)
Criação: Steven S. DeKnight
Direção: Jesse Warn, Rick Jacobson, Michael Hurst, Brendan Maher, John Fawcett
Roteiro: Seamus Kevin Fahey, Steven S. DeKnight, Misha Green, Maurissa Tancharoen, Jed Whedon
Elenco: Liam McIntyre, John Hannah, Manu Bennett, Erin Cummings, Lucy Lawless, Peter Mensah, Nick E. Tarabay, Viva Bianca, Katrina Law
Duração: 55 min (cada um dos 10 episódios)

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais