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Crítica | Spartacus: Deuses da Arena

A mitologia de Gannicus entre a primeira e a segunda temporada de Spartacus.

por Leonardo Campos
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Algo pouco comum, geralmente feito em desfechos de séries, Spartacus: Deuses da Arena é uma minissérie de seis eletrizantes episódios, situada entre a primeira e a segunda temporada, tendo na figura de Gannicus, interpretado por Dustin Clare, o seu ponto central. Segundo fontes históricas e seus desdobramentos na ficção e na cultura popular, ele foi um gladiador de origem gaulesa que se tornou um dos principais líderes da Terceira Guerra Servil, a grande revolta de escravos contra a República Romana liderada por Spartacus. Diferente de outros generais rebeldes, ele é historicamente lembrado por comandar uma facção composta majoritariamente por germanos e gauleses, demonstrando uma habilidade tática excepcional que desafiou as legiões de Crasso. Sua trajetória culminou na Batalha de Cantenna em 71 a.C., onde, apesar de lutar com bravura, seu destacamento foi cercado e derrotado pelas forças romanas. Entre sua mitologia e relatos históricos imprecisos, Gannicus é retratado como um guerreiro carismático, boêmio e dotado de uma destreza inigualável com espadas duplas. Ele é frequentemente apresentado como o primeiro campeão de Cápua a conquistar sua liberdade no mastro, o que adiciona uma camada de complexidade moral ao seu retorno à luta pela causa dos escravos.

A versão ficcional, graças também ao desempenho e carisma de Clare, ajudou a imortalizar sua imagem como o herói relutante, cujo espírito indomável e busca por redenção personificam o desejo de liberdade que definiu a era de muitos embates, corrupção, sangue e violência, tópicos temáticos apresentados ao longo dos episódios de 50 a 60 minutos desse universo televisivo. A trama foca na ambição de Quintus Lentulus Batiatus em elevar o prestígio de seu ludus (escola de gladiadores) e garantir um lugar de destaque na construção da nova arena de Cápua. A narrativa alterna entre as sangrentas lutas na arena e as intrigas políticas e sociais da elite romana, culminando em uma grande batalha que define o destino de seus gladiadores e mestres. E, para a imersão do espectador nesse universo, temos os ótimos diálogos e situações dramáticas do grande painel de personagens estabelecidos pela sala de roteiristas supervisionada pelo criador do programa, Steven S. DeKinght, realizador que coloca em cena muita catarse, mas também cenas de erotismo para todos os gostos.

Versar sobre Spartacus: Deuses da Arena é, para além do mencionado desenvolvimento dos arcos nos atos dos roteiros dos episódios, refletir como a sua estética singular desse universo de gladiadores no âmbito televisivo estabelece imagens devidamente conectadas com o enredo e as necessidades dramáticas dos personagens. A supervisão de efeitos visuais de Tim Capper é fundamental para a imersão, pois estabelece uma conexão orgânica entre os cenários reais e o CGI, garantindo que a estética digital não comprometa a organicidade do visual. Essa harmonia é potencializada pela fotografia de John Cavill e Aaron Morton, que utiliza enquadramentos e ângulos peculiares para alternar entre a intimidade dos personagens e a grandiosidade dos espaços. Esse trabalho de câmera valoriza o design de produção de Iain Aitken, que ganha vida através dos cenários estilizados de Chris Elliott e do rigor detalhista da direção de arte de Nick Bassett. É uma experiência visual complementada pelos figurinos de Barbara Darragh, responsáveis por criar um contraste marcante entre a elite no poder e a massa rebelde.

Além disso, Spartacus: Deuses da Arena se beneficia do trabalho de maquiagem de Roger Murray e Sarah Rubano, setor que contribui para a atmosfera inquietante de corpos destroçados por violências de todo tipo. A trilha sonora de Joseph L. Duca, em conjunto com o design de som supervisionado pela equipe de Bruce Langley, intensifica a experiência, reforçando que a minissérie é uma produção que demonstra a importância de sua estética para o sucesso, integrando cada um desses elementos técnicos para criar seu impacto visual. São profissionais que, na jornada em equipe, criam os ambientes por onde circundam os gladiadores, em especial, Gannicus, retratado por aqui como um lutador carismático, imprudente e hedonista, que busca refúgio no álcool e nas mulheres para esconder seus conflitos internos. Um mestre habilidoso que frequentemente luta com duas espadas ou até mesmo de olhos vendados, demonstrando um talento nato que o torna um verdadeiro “deus da arena”. Diferente de Spartacus, que luta por liberdade, Gannicus inicialmente luta pela glória momentânea, embora possua um núcleo moral sólido que o leva a questionar sua condição de escravo.

Dentre os pontos abordados nesta ponte entre Spartacus: Sangue e Areia e Spartacus: A Vingança, a minissérie delineia a ascensão de Batiatus (John Hannah) e nos mostra como ele herdou o ludus de seu pai e as táticas cruéis que utilizou para ganhar poder. Temos também os conflitos familiares, diante da relação tensa entre esse “alpinista social” e seu pai, Titus (Jeffrey Thomas), que desaprova os métodos excessivos do filho. Entre o drama e a traição, mas sem se tornar novelístico e arrastado demais, temos o triângulo amoroso proibido entre Gannicus, seu melhor amigo Oenomaus (Peter Mensah) e a esposa deste, Melitta (Marisa Ramirez). A narrativa também aproveita para inserir a origem de Crixus (Manu Bennett) e sua chegada como um escravo bruto, alguém que evolui e, em sua transformação gradual, se torna um dos maiores gladiadores de Cápua. Nesse painel, temos as investidas astutas, mas discretas de Lucretia (Lucy Lawless), bem como a inserção de Gaia (Jaime Murray), amiga cujas conexões e estilo de vida influenciam as intrigas de poder dentro da ardilosa e intrigante casa de Batiatus.

Produzida devido aos problemas de saúde de Andy Whitfield, que o impediram de retornar imediatamente como o protagonista, papel que seria assumido por Liam McIntyre apenas no segundo ano, a minissérie foca na ascensão da Casa de Batiatus. O enredo centraliza a figura desse alpinista social e sua ânsia desenfreada por reconhecimento em Cápua, movido pelo desejo de levar seu nome até Roma e deixar de ser apenas mais um lanista comum. Nesse cenário de ambição, surge a figura de Gannicus, o melhor lutador da arena na época, um gladiador irreverente e arrogante que se comporta como um verdadeiro astro do rock, sorrindo e deliciando-se com a ovação da plateia enquanto domina seus oponentes. A produção não poupa o público de cenas realistas e chocantes, exibindo mortes, perfurações e gargantas cortadas em trechos viscerais que reflete a brutalidade inerente ao contexto histórico, sem nunca soar gratuita. Para além do sangue, Spartacus: Deuses da Arena se consolida como puro entretenimento relevante ao conectar sua trama a debates sociais e políticos que ecoam na atualidade. Esse “recheio” de reflexão, inserido em meio à violência extrema e aos jogos de poder, é o que torna o programa uma experiência envolvente e muito mais profunda do que um simples espetáculo de ação. Há tempos reservada para assistir, veio no momento de maturidade adequado.

Continua em Spartacus: A Vingança.

Spartacus: Deuses da Arena (Spartacus: Gods of The Arena/Estados Unidos – 2011)
Criação: Steven S. DeKnight
Direção: Jesse Warn, Rick Jacobson, Michael Hurst, Brendan Maher, John Fawcett
Roteiro: Seamus Kevin Fahey, Steven S. DeKnight, Misha Green, Maurissa Tancharoen, Jed Whedon
Elenco: Dustin Clare, John Hannah, Manu Bennett, Peter Mensah, Dustin Clare, Jaime Murray, Nick E. Tarabay, Marisa Ramirez, Lucy Lawless
Duração: 60 min (cada um dos 05 episódios)

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