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Crítica | Spider Baby (1967)

por Rafael Lima
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Spider Baby é uma obra curiosa da transição que o cinema de terror passava nos anos 1960. O filme dialoga com o terror clássico dos anos 30 e 40, mas antevê o niilismo do gênero nos anos 70. Ainda que longe da crueza de obras como O Massacre da Serra Elétrica, ou Quadrilha de Sádicos, o longa de Jack Hill antecipa elementos destes filmes, como a subversão da instituição familiar e a loucura inata dos sãos. Na trama, Bruno (Lon Chaney Jr.) é o chofer da família Merrye, e cuida dos irmãos Ralph (Sid Haig), Elizabeth (Beverly Washburn) e Virgínia (Jill Banner) desde a morte do patrão. A família tem uma doença neurológica conhecida como a síndrome de Merrye, que faz com que seus membros regridam emocionalmente a partir do fim de infância, desenvolvendo tendências psicóticas até tornarem-se totalmente primitivos, o que força Bruno a proteger os Merrye da sociedade, mas também a sociedade dos Merrye. Tudo se complica quando Emily (Carol Ohmart) e Peter (Quinn K. Redeker), dois primos distantes, acompanhados do advogado Schlocker (Karl Schanzer) e sua assistente Ann (Mary Mitchell) chegam para requerer a propriedade e parte da fortuna da família. 

Escrito e dirigido por Jack Hill, Spider Baby traz uma história de loucura e violência, mas que também concede ao horror proposto um aspecto lúdico, flertando com o Terrir. Os assassinatos cometidos principalmente pelas irmãs Merrye são tratados como travessuras, com o clima de brincadeira macabra sendo reforçado pela forma caricatural com que a obra retrata os personagens sãos. O plano de Emily para se apossar da propriedade dos Merrye, por exemplo, é posto como algo muito mais malicioso do que os crimes dos três irmãos, lançando uma luz jocosa sobre a violência prestes a ser desencadeada. Lembrando um pouco as narrativas de Tim Burton, o filme parece atestar que por mais loucos e depravados que os Merrye sejam, eles ainda são mais humanos do que as pessoas normais, vide advogado Schlocker, por exemplo, que enxerga absolutamente tudo pela ótica jurídica. Claro, a forma como a gananciosa Emily é tratada pelo roteiro é bem problemática para o gosto atual. Por mais apelativo que pareça, entendo que faz sentido para a personagem ficar se admirando em frente a um espelho com diferentes Lingeries, mas tudo isso culmina em uma cena de estupro (implícito) cujas consequências são tratadas com um humor que vai longe demais. 

Embora também sejam caricaturas, no caso, a do herói e da mocinha; Peter e Ann são muito mais simpáticos do que seus companheiros, ganhando contornos que servem para fins cômicos. Peter tem intenções mais nobres que as da irmã, mas é ingênuo demais para perceber o perigo mesmo quando ele está bem na sua frente. Já Ann, ainda que seja a mocinha clássica, demonstra uma autoconsciência curiosa para um filme dos anos 60, sendo a única que realmente percebe que há algo errado, com essa percepção vinda de seu assumido gosto por filmes de terror, o que gera um ótimo momento metalinguístico com a referência ao clássico O Lobisomem, estrelado por Lon Chaney Jr.

Mas o interesse do filme não está nos personagens “normais” e sim nos macabros. Ralph surge como a expressão máxima dos sintomas da síndrome de Merrye, com Haig entregando um personagem bestial, mas expressivo, que transita com desenvoltura entre a inocência tenra e a lascívia bestial.  Beverly Washburn e Jill Banner, por sua vez, trazem uma química fantástica para Elizabeth e Virginia, em uma dinâmica repleta de provocações infantis e ciúmes, mas que também revela o laço afetivo entre as duas. Ainda que Virgínia, a Spider Baby do título (nome recebido devido à sua ligação com aracnídeos e gosto por brincar de aranha jogando redes sobre as pessoas para então esfaqueá-las) seja uma assassina fria, ela realmente parece não entender as implicações de seus atos, agindo mais por instinto do que por maldade ou sadismo, sendo comovente perceber que o seu maior medo seja que Bruno deixe de amá-la devido aos seus atos. Quanto a Elizabeth, ela é a mais maliciosa do trio, preferindo manipular os irmãos ao invés de sujar as mãos, mesmo que não hesite em fazê-lo, se preciso. Mas em um trabalho sutil de Washburn, percebemos que Elizabeth se importa muito com Bruno e seus irmãos, com o momento onde ela enfim revela as suas emoções sendo um dos mais tocantes da obra.

Apesar das Irmãs Merrye serem personagens muito interessantes, a grande figura dramática de Spider Baby é mesmo o Bruno de Lon Chaney Jr. O ator confere ao chofer uma humildade que o torna completamente relacionável e humano, o que dá uma âncora ao público no ambiente dividido entre os insanos Merrye e seus visitantes gananciosos. Chaney Jr. merece aplausos aqui por conseguir fazer de Bruno este ponto de identificação tanto em cenas mais cômicas, como em passagens mais dramáticas, sem nunca tornar o personagem deslocado e mantendo o coração do filme intacto, que é a relação do Chofer com esses irmãos homicidas. O grande dilema do personagem é que ele ama esses três jovens de todo o coração, e sabe que eventualmente ira perdê-los, se não para a doença, para as maquinações de Emily. 

A proposta de Hill em articular os fatores mais lúdicos da trama com elementos de terror macabro e depravado, é arriscada, por exigir um equilíbrio muito delicado. Afinal, os créditos de abertura trazem uma divertida animação com toques góticos, embalada por uma canção cantada por Chaney Jr., que não ficaria fora de lugar em uma produção de A Família Addams, mas o filme ainda trata de canibalismo, assassinato, estupro e incesto. Surpreendentemente, para um diretor estreante, Hill demonstra grande controle de sua narrativa, conseguindo transitar com uma desenvoltura impressionante entre o humor pateta e o horror, sem que um tom sabote o outro. Para constatarmos isso, basta observar a sequência de abertura, onde um azarado carteiro tenta entregar uma correspondência no casarão dos Merrye, apenas para ser pego na teia de Virginia. 

O diretor constrói uma atmosfera arrepiante, ao mesmo tempo em que o pobre carteiro reage de forma cômica, por parecer reconhecer estar em um cenário de uma obra de terror, com estes alívios cômicos apenas tornando mais perturbadora a sequência em que Virginia mutila o rosto do homem. O diretor se desafia o tempo todo ao se colocar na linha entre o absurdo cômico e o desconfortável, e se em um momento nos divertimos pelo fato de Virginia estar conduzindo Peter para uma armadilha mortal sem que esse se dê conta, imediatamente depois ficamos incomodados quando esta adolescente tenta seduzir o seu primo, algo que nem mesmo o ingênuo Peter consegue deixar de notar. Já a direção de arte e a cenografia do filme abraçam com gosto a morbidez visual proposta no texto, vide o decrépito casarão dos Merrye, com suas madeiras podres e porões cheios de quartos escondidos; ou o carro dirigido por Bruno, que poderia perfeitamente ter saído de uma funerária. Os trabalhos de figurino e maquiagem também são dignos de nota, especialmente no que diz respeito a construção visual dos Merrye por articular a natureza infantil dos três irmãos com a sua crescente selvageria. 

Spider Baby é um trabalho de paixão, trazendo um realizador bastante reverente ao gênero com que está trabalhando, mas também estando pronto para satirizar os seus signos, sem com isso esvaziar o clima de horror de seu longa metragem. Em alguns trechos, o diretor demonstra a sua inexperiência em momentos de maior movimentação cênica, e em poucos momentos, perde a mão deste delicado equilíbrio que se propôs a estabelecer, o que gera os momentos mais datados e de gosto duvidoso. Tais tropeços, entretanto, não arranham os méritos conquistados por esta bizarra e divertida produção B, que desafia o público a simpatizar com um trio de homicidas psicóticos adolescentes e percebê-los como sendo mais humanos que algumas pessoas “normais”. 

Spider Baby (Spider Baby, Or The Maddest Story Ever Told) – Estados Unidos, 1967
Direção: Jack Hill
Roteiro: Jack Hill
Elenco: Lon Chaney JR, Carol Ohmart, Quinn K. Redeker, Beverly Washburn, Jill Banner, Sid Haig, Mary Mitchell, Karl Schanzer, Mantan Moreland, Carolyn Cooper, Joan Keller Stern
Duração: 81 min. 

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