Home FilmesCríticas Crítica | Sportin’ Life (2020)

Crítica | Sportin’ Life (2020)

por Michel Gutwilen
195 views (a partir de agosto de 2020)

Seis meses são o recorte temporal de Sportin’ Life, documentário de Abel Ferrara. De Fevereiro até Agosto de 2020 não houve exatamente uma continuidade na história da Humanidade, mas, pelo contrário, uma ruptura. Pré-COVID e Pós-COVID, dois mundos completamente distintos. É justamente a partir de uma dialética entre eles que surgirá este projeto que é tanto presente como pretérito, com o diretor alternando imagens de registros diários de sua experiência no Festival de Berlim (para exibir Siberia) em Fevereiro; trechos fictícios de seus últimos longas (Siberia e Tommaso); e imagens de arquivo do mundo em 2020 pós-COVID (trechos envolvendo a pandemia e o movimento negro desencadeado pela morte de George Floyd).

Destaco três frases dos próprios registros de Ferrara que ajudam a entender melhor Sportin’ Life. São eles: 1) “Não me preocupo com a história. Me preocupo com o ritmo do filme”. 2) “O documentário sobre o ato de fazer um documentário”. 3) “Seus filmes são sombrios?”, perguntam muitos jornalistas para o cineasta ao longo de sua passagem por Berlim. Dito isso, evidente que se trata de uma obra ditada a partir de um fluxo rítmico, de um vai e vem entre o ontem e o hoje que está mais interessadas nos efeitos gerados desta mistura. Um momento em particular resume essa intenção: as ruas vazias do mundo pandêmico são alternadas, pela montagem, com uma plateia lotada após uma apresentação musical de Ferrara. 

Resumidamente, Sportin’ Life é uma repetição desta sequência em uma escala macro: uma saudades do que era o mundo pra Ferrara (festivais lotados, entrevistas, muitos flashes de câmera, estar se divertindo com seu amigo Willem Dafoe) contraposto ao vazio e triste do mundo atual. Em direta ligação com isso está a frase sobre os filmes do cineasta serem “sombrios”. Se ele não responde essa pergunta diretamente, a intenção em explorar imagens de arquivo envolvendo a pandemia e o Black Lives Matter falam por ele. Não se trata da criação de narrativas sombrias se o próprio mundo é assim. O que ele faz é apenas ficcionalizar as angústias do contemporâneo a partir de histórias inventadas, mas o real é certamente muito mais assustador e desesperançoso do que suas próprias obras. 

Neste sentido, o plano final de Sportin’ Life é muito revelador diante deste pessimismo do mundo real. Ferrara executa um movimento de zoom em direção a imagem na qual o policial Derek Chauvin estrangula George Floyd. O que começa em um plano geral e nítido daquela brutal cena vira um plano totalmente preto, por conta do zoom nas calças pretas do assassino. Ou seja, quanto mais a fundo se mergulha no real (literalmente, pelo movimento de câmera), mais da escuridão do mundo será revelada. Aliás, uma outra sequência que corrobora essa questão é quando uma cena de Dafoe em Siberia (fictício), falando que as coisas vão melhorar, é contraposta logo em seguida por um depoimento (real) de uma pessoa sofrendo com os efeitos econômicos da pandemia. 

Por outro lado, o filme de Ferrara também é uma busca sobre o que seria o próprio fazer do cinema documental. A primeira frase de Sportin’ Life é uma voz em off que diz: “Improvisação artística acontecendo diante dos seus olhos. Nunca se sabe o que acontecerá depois. Ele é um excêntrico em tour.” O que é dito aqui pode servir tanto para definir o autor em pessoa, sua filmografia e para o próprio o fazer documental. Afinal, o documentário trabalha com uma condição de imprevisibilidade e descontrole do diretor em relação ao mundo real, no qual ele precisa se adaptar aos fatos que vão acontecendo diante de seus olhos. Quando Ferrara iniciou as filmagens-diário de sua estadia em Berlim, ele muito provavelmente não imaginou que o mundo entraria em colapso e que as usaria depois para um outro propósito diferente do originalmente planejado por ele. Igualmente, em um outro momento, Dafoe diz não fazer muitos documentários, porque não há muita direção e controle. 

Juntando as duas frases acima, chega-se a conclusão do que seria Sportin’ Life: uma tentativa de ter controle sobre o incontrolável. Do autor tentando criar uma narrativa a partir da própria mutabilidade de sua matéria fílmica documental. Ferrara ressignifica as imagens-capturadas por ele, que, em dialética com a imagem de arquivo da COVID, geram um filme-rítmico de sensações antagônicas (calor humano vs. solidão das ruas). Não só isso, mas tal contraposição evidencia também uma tensão inerente ao fazer cinema, que é a luta entre o egocentrismo de um diretor (é um filme sobre Abel) e uma tendência que preza pelo apagamento do mesmo em prol da temática (é um filme sobre pandemia). Diante deste choque, nasce uma obra que tenta sair da zona de conforto, como o próprio diretor afirma que filmes devem fazer.

Sportin’ Life (Idem, 2020) — Itália
Direção: Abel Ferrara
Roteiro: Abel Ferrara
Elenco: Abel Ferrara, Willem Dafoe, Cristina Chiriac, Anna Ferrara, Joe Delia, Paul Hipp
Duração: 65 min.

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