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Crítica | Sr. Bachmann e Seus Alunos

Uma masterclass de humanidade.

por Luiz Santiago
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O que a diretora Maria Speth faz em Sr. Bachmann e Seus Alunos é algo que poucos cineastas conseguem fazer quando estão filmando alunos em seu ambiente escolar: deixar que a verdade dessas crianças, adolescentes e jovens dominem a narrativa, e isso implica abrir espaço para as falhas, para as opiniões, as birras, o choro, as dificuldades, as conquistas e as muitas ocupações que os mais diversos alunos assumem durante o período representado na tela. Filmar uma escola é filmar um espaço onde caminhos livres e obstáculos acumulados na vida de alunos e dos professores se alternam, e nesse processo é necessário que o lado humano abrace o lado pedagógico e o conteúdo esteja exibido juntamente com a ternura.

Existem alguns bons documentários sobre temáticas escolares, e eles podem ir do acompanhamento de uma sala problemática, como vemos em Entre os Muros da Escola (2005); passar por uma realidade, na França, bastante parecida com a que temos no presente longa, como em Ser e Ter (2002) ou abordar, em estilo de depoimentos, as experiências de alunos, pais e professores de diferentes classes sociais e realidades escolares no Brasil, como vemos em Pro Dia Nascer Feliz (2005). O que difere Sr. Bachmann e Seus Alunos dessas ótimas abordagens é o acompanhamento da jornada desses adolescentes, sua relação com os professores e sua real e plena exposição como seres humanos em formação. Aqui, os alunos são os protagonistas, enquanto o intitulado professor Bachmann é “apenas” aquele que organiza o fio narrativo.

As assustadoras 3h37 do longa rapidamente se mostram amigáveis, sendo este o tipo de filme longo que a hora passa e o espectador nem sente. Nas cenas iniciais, nos preparamos para um dia de aula. A câmera anda pela cidade, mostra algumas pequenas cenas diurnas e se aproxima cada vez mais da escola, onde encontramos pela primeira vez a classe que nos conquistará. A primeira coisa que salta aos olhos é o método de ensino abordado aqui e, claro, a reação dos alunos a esse tipo de aprendizagem. Embora o Sr. Bachmann não seja o único professor mostrado, suas aulas são o cerne do documentário e é durante a sua companhia, em momentos de aprender geometria, análise sintática, produção de texto, sociologia, música ou escultura que vemos os alunos exporem suas ideias, falarem o que pensam, sofrerem com certas atitudes dos colegas, chorarem por coisas que os magoaram e fazerem birra diante de algo que os frustrou.

O caráter humano da fita está no fato de a diretora genuinamente se interessar pelo que esses adolescentes pensam e como eles se relacionam com o professor e com o conhecimento que ele transmite. Através de um método pedagógico que lembra muito o de Paulo Freire, Bachmann estabelece uma relação professor-aluno que é capaz de tornar a escola uma verdadeira segunda casa e, a classe, uma verdadeira segunda família desses indivíduos. Aqui, nenhum assunto está fora da mesa. Fala-se sobre sexo, sobre sexualidade, sobre sonhos do futuro, sobre dificuldades familiares, sobre o drama de ser imigrante em um país como a Alemanha, sobre religião, comportamento e os mais diversos sentimentos. A carga emocional vai aumentando aos poucos e chega um momento em que nós nos sentimentos alunos desse professor, nos sentimentos próximos de alguns desses “colegas de sala” e esperamos ansiosamente pelo próximo encontro.

Há um cuidado muito grande da diretora em não artificializar as emoções, forçando no público, através de uma trilha sonora impactante, por exemplo, este ou aquele olhar particular para um aluno, para uma difícil situação. Isso é importantíssimo de se ressaltar, porque o impacto que temos ao longo de toda a reprodução é puramente gerado pelas reações de todos os que visitam essa escola, tanto alunos quanto professores. No espaço entre uma aula e outra temos a oportunidade de ver conversas entre os mestres da escola, discussões sobre o que fazer com alguns alunos ou mesmo conversas sobre a vida. Há um contexto biográfico bem incomum e interessante para o Sr. Bachmann e uma ótima exibição das aulas e método dos outros professores em suas disciplinas, fazendo-nos ter uma boa noção de como esses alunos são agraciados com uma educação tão humana quanto calorosa.

Não é possível chegar ao final desse filme sem uma forte pontada de melancolia e tristeza por ter que se despedir de todos. Aprender é um processo plural e pode ir do trauma ao pleno prazer, dependendo da matéria, do tema, do professor, da classe ou da escola — e nesse filme temos uma comprovação vívida disso. A minha vontade era a de dar um abraço em cada um dos alunos e professores, reservando um bom tempo para longas conversas com Dieter Bachmann. Esta produção vai para a lista dos filmes capazes de transformar pessoas. Certeza que fará parte de muitos cursos de educação daqui para frente, e não é para menos. Seja na forma honesta como essa realidade é cinematograficamente registrada, editada e apresentada; seja pelo conteúdo que vemos na tela, o que encontramos aqui é um verdadeiro mar de bons exemplos, dando uma boa visão do que pode ser uma educação humana, com equidade, amor e alta capacidade de fazer com que o conteúdo e os melhores valores para uma boa convivência em sociedade sejam de fato aprendidos.

Sr. Bachmann e Seus Alunos (Herr Bachmann und seine Klasse / Mr. Bachmann and His Class) — Alemanha, 2021
Direção: Maria Speth
Roteiro: Maria Speth, Reinhold Vorschneider
Duração: 217 min.

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