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Crítica | Sr. Ninguém (Mr. Nobody)

por Fernando JG
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E se na sua infância você tivesse ido para outra escola, e não aquela em que você conheceu os seus melhores amigos, e que te influenciaram a fazer o ensino médio na escola onde eles fariam, e que foi o local em que você conheceu outras pessoas, outros amigos, que te levaram a escolher tal Universidade, que foi onde você conheceu aquela pessoa, num diazinho qualquer, como por um acaso, a qual te apaixonaste, e que mostrou-te um universo de coisas sem as quais você jamais imaginaria viver sem? E se a primeira pessoa que cruzou o teu caminho, lá na tua infância, e que te encaminhou por todos esses percursos na vida, nunca tivesse existido? Quem você seria hoje? Esse, talvez, seja o preceito mais basilar de Sr. Ninguém. 

Uma infinidade de narrativas já tentaram dar conta de perceber o tempo, que não é uma tarefa fácil, e poucos souberam administrá-lo com alguma maestria. João Guimarães Rosa, quando escreve o seu Grande Sertão: Veredas, tenta captar, através da memória de um velho jagunço, lapsos temporais de sua vida na juventude. James Joyce, com seu Ulisses, rompendo com tudo o que a gente entende por linearidade temporal, abre um campo totalmente novo. Thomas Mann, em seu A Montanha Mágica, recupera também a temática, tentando compreender o que é o tempo a partir da narração da vida de Hans Castorp. No cinema, talvez o grande pensador do tema acredito que tenha sido Andrei Tarkovski, que inclusive escreve o seu Esculpir o Tempo tentando perceber uma questão absolutamente complexa e talvez sem resposta. De Solaris a 2001, o tempo é, sobretudo, um mistério. Indefinição.

Mr. Nobody, ao colocar tudo isso em jogo, com uma narrativa que brinca com as estruturas fílmicas do próprio cinema, com narrações em off, uso de prospecção, retrospecção, fragmentação espaço-temporal, entre outros artifícios da composição, pensa a vida de um menino a partir da seguinte questão: e se meus pais não tivessem se separado, e se eu tivesse ido morar com a minha mãe, e não com o meu pai, e vice-versa, qual seria a minha história de vida? É um efeito borboleta, mas que está o tempo inteiro lidando e trabalhando com a teoria das cordas – o famoso modelo físico para explicar as dimensões -, e que não me atrevo nem um pouco a explicar, pois me foge a capacidade de mesmo entendê-la. Neste ponto, é até possível um diálogo com Donnie Darko, que brinca com as vicissitudes tempo-especiais de modo semelhante. 

O argumento gira em torno de Nemo Nobody (Jared Leto), um senhor de idade, que logo descobrimos ter 118 anos. E como se não bastasse, ele é o último homem mortal da Terra, vivendo em um momento em que a civilização alcançou a imortalidade. Somos introduzidos na sua história de vida a partir de uma entrevista que um jornalista (Daniel Mays) faz com ele, tentando saber mais quem é esse ser mortal, e o que acontece com esse sujeito que se encontra em estado de velhice, num mundo em que conceitos como a passagem de tempo e o envelhecimento parecem ser inexistentes. Com isso, com o choque diante da mortalidade e da efemeridade da vida, diversas questões são postas pelo jornalista, abrindo um abismo para quem assiste: o que se fazia antes da imortalidade? antes do amor tornar-se um ato obsoleto? 

Construído como uma antologia temática, refletindo inúmeras possibilidades de algo que poderia vir a ser, Mr. Nobody tem um título que entrega toda a proposta fílmica. Ele é ninguém: “I’m Mr. Nobody. A man who doesn’t exist”. Mas como pode alguém ser ninguém? E mais: como ele pode não existir? Essa palavra, que indica uma negação da existência, um não-lugar, um não-ser, se refere às mais distintas instâncias da sua subjetividade, da sua imaginação, da formação imaginária de um alguém que ele quis ser, mas que ele não é e não foi. Ele é ninguém porque todo esse alguém que conhecemos durante a narrativa é fruto da atuação e da enganação da sua psique. Esse alguém não existe pois é puramente desejo, idealização, narcisismo, vontade de ser e construção de um Eu que só existe, na verdade, em sua própria cabeça. Em um texto interessantíssimo, de 1899, chamado Lembranças Encobridoras, Freud analisa esse fenômeno da criação dentro da nossa mente, e evidencia que a nossa memória é tudo menos confiável, pois podemos reconstruir fatos a partir do nosso desejo, da nossa vontade de que aquilo seja verdade, manipulando o passado e o modo como ele ocorreu, construindo, inconscientemente, algo que não existiu. Ora, como temos acesso à história a partir da narração de Nemo e é ele quem nos coloca dentro de sua própria vida, então, pelo menos para mim, fica claro que, se tudo aquilo foi ficcionalizado em seu próprio inconsciente, de fato, ele não é ninguém, pois as diferentes vidas contadas nunca existiram, e portanto, Nemo simplesmente não é, pois ele não existe como pensa ser. A mente é, sobretudo, uma armadilha. 

O desenvolvimento das tramas amorosas é o núcleo que o filme melhor enfoca. Acompanhamos três distintos envolvimentos amorosos de Nemo, cada um representando uma possibilidade de vida para ele. Com elas, as namoradas, ele poderia ser alguém. Em sua idealização, ele se divide em três vidas: em uma ele vive o seu maior drama, que é o casamento com a sua esposa depressiva; em outro, ele vive com Jeanne, o símbolo de prosperidade; e no outro polo, ele está em busca de seu grande amor, Anna. Em Anna é que a complexidade amorosa toma contornos, ela é a sua primeira paixão e seu primeiro coração partido, e ele idealiza situações de encontro e reencontro, mesmo na velhice, construindo uma vida com a pessoa que, na sua juventude, lhe causou um dano irrevogável e irreparável. A potência amorosa é tão grande que todo o fio condutor da narrativa fílmica persegue as lembranças de amor de Nemo, que, mesmo com 118 anos de idade, as têm de maneira clara. Mas fica sempre a questão, que é a grande contradição: nada disso é verdade? 

Escolher lidar com o motivo da escolha e da consequência desta escolha é sempre muito arriscado, tanto para o argumentista, quanto para a direção, mas no longa de Dormael existe um cuidado muito grande em como montar, cinematograficamente, as diferentes possibilidades de escolha de alguém. Este filme é como uma sala de TV, uma cabine que abriga as câmeras de segurança de um estabelecimento, em que podemos ver diversas dimensões de um mesmo fato. Mr. Sandman, que foi a trilha sonora de Halloween 2 (1981), combina tanto com os primeiros momentos do longa que é inacreditável. 

No fundo, fica a grande questão do que é a vida e o que é viver na imortalidade, quando todas as experiências mais intensas da existência de um sujeito se ligam sempre à transitoriedade e a efemeridade da vida, que faz a contagem regressiva para acabar. Se aprender a viver e a morrer é que é o viver de verdade, penso que a imortalidade deve ser insuportável. Neste sentido, o longa é uma bela viagem estética e sensorial, imprimindo um ritmo de enredo que não só lança questões mas trabalha com a possibilidade real destes questionamentos, enveredando sempre pelo “e se”. Jaco Van Dormael, ao discutir o sentido da imortalidade, abre uma multiplicidade interpretativa em todas as camadas de seu filme, e com isso, com a possibilidade de ser um filme passível de um infinito reexame, imortaliza o seu próprio longa como uma peça que é, assim como o tempo, indefinida. 

Sr. Ninguém (Mr. Nobody, Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Portugal, Bélgica, Canadá, 2009)
Direção: Jaco Van Dormael
Roteiro: Jaco Van Dormael
Elenco: Jared Leto, Sarah Polley, Daniel Mays, Diane Kruger, Linh Dan Pham, Rhys Ifans, Natasha Little, Toby Regbo, Thomas Byrne, Jaco Van Dormael
Duração: 138 min.

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