- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série e, aqui, de todo nosso material sobre Star Trek.
Os dois primeiros episódios de Star Trek: Academia da Frota Estelar deixam claro, desde o início, que a nova série não pretende apenas ocupar mais um espaço no já vasto mosaico da era Alex Kurtzman, mas testar até onde Star Trek pode ir sem abandonar completamente sua espinha dorsal, deixando os fãs mais saudosistas de cabelo em pé mais uma vez. Da premissa de um drama juvenil nesse universo até o marketing bastante provocativo com a pegada teen da produção, a dupla de capítulos iniciais funciona como uma espécie de manifesto bastante claro: esta não parecer ser uma série sobre explorar o desconhecido no sentido clássico, mas sobre formar aqueles que, no futuro, irão explorá-lo. A mudança de eixo é significativa e, nos melhores momentos, genuinamente refrescante. Nos piores, expõe os vícios recorrentes do Trek contemporâneo.
O piloto carrega um peso dramático logo de saída que não acho que funciona tão bem. Ao escolher abrir a série com um longo bloco dedicado à culpa de Nahla Ake (Holly Hunter) e à tragédia pessoal ligada à separação de Anisha Mir (Tatiana Maslany) e seu filho Caleb, o episódio aposta em uma dramaticidade que parece meio forçada, apressada e até pouco em linha com o tom do restante dos episódios. O texto de Gaia Violo toca em temas caros a Star Trek, como autoritarismo estatal, punição, família, reparação histórica, mas de forma superficial, quase protocolar. A ideia é boa, a execução nem tanto, com o núcleo sendo tratado com a delicadeza de um martelo, algo que contrasta com a tradição da franquia de trabalhar dilemas morais a partir de nuances, não de slogans.
Felizmente, tudo muda quando a narrativa finalmente chega onde sempre deveria ter estado: na Academia. Aqui, o tom da série se mostra mais claro, até mais leve e carismático. A introdução de Caleb no ambiente acadêmico é o verdadeiro ponto de inflexão do piloto. A partir do momento em que ele pisa na USS Athena, o ritmo desacelera e, sobretudo, os personagens começam a existir para além de suas funções dramáticas. Caleb deixa de ser apenas o “filho da culpa” de Ake e passa a ser um jovem tentando se encontrar em um universo maior do que ele e, aos poucos, a identidade da série vai sendo formada.
O grupo central de cadetes é apresentado com eficiência e, mais importante, com potencial. Jay-Den Kraag, o jovem klingon que quer ser médico, é imediatamente um destaque pela curiosa subversão da cultura klingon. Outros coadjuvantes seguem a mesma toada de quebra de expectativa e de caracterizações interessantes, como Sam, a holograma em busca de pertencimento, que funciona como uma atualização temática elegante de questões que Star Trek já explorou com Data, por exemplo. Ainda não vemos o suficiente do grupo, mas temos diversas peças genuinamente intrigantes para os dilemas da franquia aflorarem.
O que me incomoda é que, mesmo com certas ideias subversivas, a trama geral ainda não me encanta em alguns desenvolvimentos convencionais. A produção não se desvincula tanto de certos clichês de dramas estudantis e, pelo menos nesse estágio inicial, fiquei sentindo falta de um tempero a mais nas histórias para justificar a premissa para além de ser uma mistura tanto interessante quanto divertida, principalmente em relação aos “fãs” que mais uma vez reclamam de novos testes.
Inclusive, o segundo episódio, Teste Beta, é um pouco mais revelador sobre o que Star Trek: Academia da Frota Estelar pode ser. Ao se passar majoritariamente em São Francisco, no campus da Academia, o episódio adota uma estrutura mais clássica de Star Trek, com tramas paralelas que dialogam entre si. O foco no cotidiano dos cadetes com avaliações, inseguranças, relações interpessoais é exatamente onde a série se mostra mais segura, se ainda não necessariamente cativante.
A introdução de Tarima Sadal adiciona uma nova camada emocional ao grupo e um tipo de dinâmica que gostei com o protagonista, meio que abraçando-o e puxando-o ao mesmo tempo. Sua relação com Caleb surge de forma orgânica, sem pressa, e aponta para conflitos futuros que vão além do romance juvenil. Claro que tudo tem um quê de fofura infantojuvenil, mas o texto é relativamente esperto para fugir de momentos melodramáticos, incluindo boas doses de humor para melhorar a narrativa. Fiquei bastante surpreso com a pegada humorística crescendo à medida que os episódios progrediam.
O pano de fundo político envolvendo Betazed e o futuro da Federação também é promissor. Ao sinalizar que a série pretende visitar temas densos, a obra se coloca como um espaço de reconstrução não apenas institucional, mas ideológico. A Academia, nesse contexto, deixa de ser só uma escola e passa a ser um laboratório de futuros possíveis. É uma ideia forte, alinhada com o DNA da franquia, e que pode render discussões interessantes se for desenvolvida com a complexidade que merece.
Voltando para o lado negativo, alguns coadjuvantes centrais me incomodaram. Paul Giamatti como Nus Braka é divertido, mas claramente excessivo. Sua presença como vilão episódico cumpre bem a função de provocar caos, mas dificilmente sustenta interesse a longo prazo. Holly Hunter, por sua vez, ainda parece deslocada como Nahla Ake. A ideia da personagem é interessante, mas a execução tropeça na construção do perfil da personagem e em uma performance que soa, por vezes, meio esquisita. Não acho que Hunter encontrou o tom da personagem. O restante dos professores são mais engraçadinhos do que intrigantes ainda, mas veremos.
Se Star Trek sempre foi sobre imaginar um futuro melhor, Academia da Frota Estelar propõe algo ligeiramente diferente: imaginar como se aprende a construir esse futuro. Ainda é cedo para saber se a série conseguirá sustentar essa proposta sem se perder nas convenções desse tipo de trama teen ou, melhor, se conseguirá propor boas histórias que vão além da premissa colorida, mas, ao menos nesses dois primeiros episódios, há ali uma centelha genuína. E, em um universo tão vasto quanto o de Star Trek, às vezes é exatamente disso que precisamos para seguir adiante.
Star Trek: Academia da Frota Estelar (Star Trek: Starfleet Academy) – 1X01 e 02: A Garotada Hoje em Dia e Teste Beta (Kids These Days and Beta Test) | EUA, 15 de janeiro de 2026
Desenvolvimento: Gaia Violo, Noga Landau, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Alex Kurtzman
Roteiro: Gaia Violo (1X01); Noga Landau, Jane Maggs (1X02)
Elenco: Holly Hunter, Sandro Rosta, Karim Diané, Kerrice Brooks, George Hawkins, Bella Shepard, Zoë Steiner, Robert Picardo, Tig Notaro, Oded Fehr, Tatiana Maslany, Paul Giamatti
Duração: 76 min. (1X01) e 61 min. (1X02)
