- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série e, aqui, de todo nosso material sobre Star Trek.
Com Vitus Reflex, Star Trek: Academia da Frota Estelar entrega um episódio claramente juvenil, talvez o que parece mais confortável com a própria identidade até aqui, assumindo sem vergonha o formato de drama estudantil sci-fi e usando essa estrutura para testar, em escala menor, valores que sempre estiveram no coração da franquia. O resultado é desigual, às vezes bobo demais para o próprio bem, mas também surpreendentemente alinhado ao espírito pedagógico que Star Trek sempre defendeu, ainda que agora embalado em mascotes, rivalidade esportiva e guerras de trotes.
Depois de dois episódios ainda ocupados em justificar sua existência, o terceiro capítulo finalmente aceita que a Academia é o centro da série. A rotina dos cadetes, os treinamentos físicos, as tensões entre grupos e, sobretudo, a rivalidade com o pessoal do Colégio de Guerra estruturam o episódio inteiro. É uma escolha consciente: sair do drama “fundacional” e apostar no cotidiano. Isso faz com que o capítulo tenha menos peso político e menos ambição temática imediata, mas também mais fluidez e clareza de tom.
O conflito central com a guerra de trotes entre Academia e Colégio de Guerra é assumidamente banal. Bolas na cabeça, teletransporte constrangedor no banho, provocações adolescentes. Em outro contexto, isso poderia soar como uma traição ao legado da franquia. Aqui, funciona razoavelmente porque a série enquadra essa banalidade como parte do processo formativo. Não estamos vendo oficiais da Frota Estelar; estamos vendo jovens que cresceram durante um período de conflito, marcados por frustração, perda e uma sensação constante de derrota histórica.
A introdução do Vitus Reflex é exemplar nesse sentido. A plantinha “fofa” que repete palavras em voz cartunesca parece, à primeira vista, apenas uma piada visual. Mas o episódio é até cuidadoso ao transformá-la em metáfora: o Reflex não cria nada, apenas replica o que absorve. É exatamente isso que está em jogo no episódio, com o tipo de comportamento que esses cadetes vão reproduzir quando tiverem poder real.
O arco de Darem Reymi é o mais evidente e também o mais didático. Sua obsessão em ser o melhor, em liderar pela força e pela performance, o coloca rapidamente no papel do capitão errado para aquele time. A série não é sutil ao usar seus problemas convencionais como motor narrativo, mas ao menos evita torná-lo unidimensional. Genesis também ganha seus dois centavos de construção narrativa no conflito com Darem, com todo esse arranjo tendo um aspecto meio de déjà vu por termos visto tudo isso em outras obras escolares.
O núcleo emocional mais delicado do episódio fica por conta de Caleb e Tarima, o drama que acho mais interessante de ver até aqui. Claro que tudo é bem flerte de gente com hormônio explodindo, mas vejo mais camadas aqui do que nos outros clichês teens da produção. Ademais, Nahla Ake, curiosamente, funciona melhor aqui do que nos capítulos anteriores. Ao ser revelada como uma antiga “rainha dos trotes” da Academia, a personagem ganha algo que Holly Hunter vinha tentando imprimir: leveza maluquinha. Ainda não compro a personagem completamente, mas é mais funcional aqui.
De maneira geral, o episódio flerta perigosamente com a estética de “sessão da tarde sci-fi”, e alguns momentos esticam demais a ação. A guerra de trotes, em certos instantes, parece longa demais para o que entrega dramaticamente. Além disso, o Colégio de Guerra é retratado de forma excessivamente caricata, com apenas ensaios ali de crítica ao militarismo.
Ainda assim, Vitus Reflex é um episódio importante. Não por expandir mitologia ou discutir grandes dilemas galácticos, mas por mostrar que a série pode sustentar histórias pequenas sem trair seus princípios. Ao aceitar que Academia da Frota Estelar é, sim, uma série sobre crescer, errar, competir e aprender a cooperar, o episódio encontra uma voz mais confiante. Mesmo com tudo soando meio bobinho, infantil ou convencional, há mérito na diferença de que, em Star Trek, até a guerra de trotes pode virar uma aula sobre empatia, estratégia e contenção de conflitos. Se a série conseguir manter esse equilíbrio entre leveza juvenil e comentário ético, deve seguir sendo razoavelmente boa em suas redundâncias. Só não sei se vai muito além disso.
Star Trek: Academia da Frota Estelar (Star Trek: Starfleet Academy) – 1X03: Vitus Reflex (Vitus Reflux) | EUA, 22 de janeiro de 2026
Desenvolvimento: Gaia Violo, Noga Landau, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Doug Aarniokoski
Roteiro: Alex Taub, Kiley Rossetter
Elenco: Holly Hunter, Sandro Rosta, Karim Diané, Kerrice Brooks, George Hawkins, Bella Shepard, Zoë Steiner, Robert Picardo, Tig Notaro, Oded Fehr
Duração: 63 min.
