- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série e, aqui, de todo nosso material sobre Star Trek.
O quinto episódio de Star Trek: Academia da Frota Estelar é um capítulo bem consciente do legado que carrega. Depois de um quarto episódio interessado em discutir identidade cultural e sobrevivência civilizacional, a série agora desloca o eixo para um terreno do cânone sobre fé, transcendência e pertencimento, usando SAM como lente e Deep Space Nine como fantasma permanente. O resultado é um episódio que flerta perigosamente com a nostalgia, mas que consegue transformá-la em uma ferramenta dramática razoavelmente eficiente.
A escolha de centrar a narrativa em SAM é interessante pelas particularidades da personagem. Desde sua introdução, a cadete fotônica vinha funcionando mais como conceito do que como personagem, uma ideia curiosa ainda em busca de densidade emocional. Aqui, isso muda. Ao revelar sua missão como emissária de Kasq, precisando observar os orgânicos e decidir se sua espécie deve ou não se integrar, o episódio estabelece um conflito sci-fi bacana. A estrutura do episódio, com quebras da quarta parede e uma narrativa mais ensaística, reflete bem essa condição da personagem, sem falar de dar um tom divertidamente bobo ao longo da trama.
O elo com Benjamin Sisko é, naturalmente, o coração simbólico do capítulo. Mas o roteiro é cuidadoso ao não transformar Sisko em resposta. O mistério sobre seu destino não é revelado, pois que interessa não é onde Sisko foi parar, mas como ele viveu com a ambiguidade de ser Emissário e homem ao mesmo tempo. A descoberta dos registros de Jake Sisko desloca o foco da mitologia para a intimidade, da religião para o afeto, e é aí que o episódio realmente ganha força no arco de SAM espelhado pelas informações sobre Sisko. Sisko não é lembrado como figura divina, mas como pai, amigo e alguém que escolheu não se anular em nome de um papel maior.
O segmento no bar — assumidamente leve, caótico e juvenil — poderia facilmente descambar para fan service vazio, mas acaba funcionando como rito de passagem. A decisão de permitir que Caleb “embriague” SAM é simbólica: trata-se de uma personagem literal e metaforicamente alterando sua programação para experimentar o mundo de outra forma. As interações resultantes são experiências de descontrole, algo que SAM jamais viveria se permanecesse fiel às diretrizes de seus criadores.
O retorno de Jake Sisko é tratado com clara delicadeza. Sua presença não fecha nada, não explica nada, não entrega respostas definitivas. Ele apenas compartilha uma verdade simples: seu pai encontrou sentido vivendo de forma plural, não se reduzindo a um título. A aparição funciona quase como um espelho temporal, conectando duas jornadas separadas por séculos, mas unidas pelos mesmos questionamentos.
Claro que falta um texto menos expositivo, menos óbvio e menos superficial para dar mais profundidade e destreza para esses problemas, mas a embalagem teen continua trazendo uma carisma bacaninha para as perguntas difíceis do subtexto. Ademais, não gosto da subtrama envolvendo Nahla Ake e Kelrec, por ser, de fato, periférico, mas também inútil, agregando pouco ao debate do capítulo.
Também há um limite claro no risco de isolamento. É um episódio que funciona melhor para quem carrega Deep Space Nine no coração e entende o peso simbólico de Sisko. Ainda assim, o texto se esforça para tornar a experiência acessível, usando SAM como mediadora entre passado e presente, fé e lógica, destino e escolha. E, nesse sentido, o capítulo tenta bastante homenagear Star Trek.
No fim, o episódio reafirma aquilo que Academia da Frota Estelar promete quando está em seu melhor momento: não apenas contar histórias de jovens no espaço, mas usar a juventude como território legítimo para discutir os temas densos da franquia com um nível maior de leveza. É um episódio imperfeito, sim, mas emocionalmente honesto e tematicamente alinhado com temas caros à Star Trek.
Star Trek: Academia da Frota Estelar (Star Trek: Starfleet Academy) – 1X05: Série Aclimatação Mil (Series Acclimation Mil) | EUA, 05 de fevereiro de 2026
Desenvolvimento: Gaia Violo, Noga Landau, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Larry Teng
Roteiro: Kirsten Beyer, Tawny Newsome
Elenco: Holly Hunter, Sandro Rosta, Karim Diané, Kerrice Brooks, George Hawkins, Bella Shepard, Zoë Steiner, Robert Picardo, Tig Notaro, Oded Fehr
Duração: 58 min.
