- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série e, aqui, de todo nosso material sobre Star Trek.
O novo episódio de Star Trek: Academia da Frota Estelar desacelera depois do caos político e bélico recente e aposta em algo mais íntimo, com temas sobre dever, maturidade e a ansiedade de crescer antes da hora. É um capítulo que se divide claramente em dois eixos, entre o ritual khioniano envolvendo Darem e Jay’Den, e a pequena transgressão de Caleb e Genesis no campus. Embora não seja um episódio grandioso, é uma narrativa bonitinha e um dos mais coerentes tematicamente da temporada.
Depois da tragédia a bordo da USS Miyazaki e da manipulação de Nus Braka, a série escolhe respirar. A pausa de quatro dias funciona quase como um interlúdio emocional para os cadetes. Mas, fiel ao espírito de Star Trek, descanso nunca é apenas descanso: é oportunidade de confronto interno.
A “abdução” de Darem através do portal é um começo deliberadamente enganoso. A direção brinca com o suspense, sugerindo mais um mistério sci-fi, apenas para revelar tratar-se de um ritual pré-nupcial khioniano. A escolha é inteligente porque subverte a expectativa do espectador e desloca o foco da ameaça externa para o conflito cultural, outro tipo de trama comum na franquia para que os “puristas” por aí não reclamem.
O arco de Darem é, essencialmente, sobre destino imposto. Descobrimos que ele está prometido não apenas ao casamento, mas a um papel político como co-governante de Khionia após sua graduação. Há algo profundamente trekkiano nessa tensão entre tradição e autonomia individual. O universo da franquia sempre valorizou culturas alienígenas complexas, mas também questionou sistemas rígidos que aprisionam identidades.
Jay’Den como Ko’Zeine (equivalente a padrinho) é o ponto de vista ideal para essa crise. Ele observa, admira e, ao mesmo tempo, percebe a transformação silenciosa do amigo. O discurso que ele faz na recepção é um dos melhores momentos do episódio, não porque seja espetacular, mas porque expõe o subtexto da história, levando ao cancelamento do casamento.
Em paralelo, o núcleo de Caleb e Genesis é menor em escala, mas igualmente alinhado ao tema do episódio. Temos aqui uma pegada oitentista de filmes juvenis com pessoas presas durante férias, castigos, etc, com uma cara de travessuras cômicas como fachada de dramas de coming of age. O texto não é profundo, sutil ou denso o suficiente para fugir de certas convenções, mas gosto de todo o bloco, mesmo sem me encantar. Temos basicamente um episódio que acredita no processo de formação, não em choques traumáticos.
Inclusive, visualmente, o capítulo é mais contido. Não há grandes efeitos ou batalhas; a tensão é social e psicológica. Para alguns, isso pode soar como episódio “menor”. Para a proposta da série, é coerente. Talvez o único problema seja a leve fragmentação estrutural. Os dois núcleos se conectam tematicamente, mas não dramaticamente. Ainda assim, o episódio sustenta unidade pelo eixo comum: a pergunta sobre quem esses jovens querem ser quando o dever bater à porta. No fim, é um capítulo sobre escolhas adiadas e expectativas antecipadas. Sobre amizades que mudam. Sobre admitir sentimentos antes que seja tarde. Não é um episódio explosivo, mas é honesto e em linha com a abordagem teen da produção.
Star Trek: Academia da Frota Estelar (Star Trek: Starfleet Academy) – 1X07: Ko’Zeine) | EUA, 19 de fevereiro de 2026
Desenvolvimento: Gaia Violo, Noga Landau, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Andi Armaganian
Roteiro: Alex Taub, Eric Anthony Glover
Elenco: Holly Hunter, Sandro Rosta, Karim Diané, Kerrice Brooks, George Hawkins, Bella Shepard, Zoë Steiner, Robert Picardo, Tig Notaro, Oded Fehr
Duração: 55 min.
