- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série e, aqui, de todo nosso material sobre Star Trek.
O oitavo episódio de Star Trek: Academia da Frota Estelar tenta ser o grande capítulo de catarse emocional da temporada. Depois de perdas, manipulações e traumas acumulados, especialmente os eventos da USS Miyazaki, a série decide parar tudo para falar sobre luto, culpa e reconstrução, algo que teoricamente já havia acontecido na semana passada, então não gostei da premissa repetitiva. Fora que, na prática, o episódio se mostra excessivamente didático, moroso e dramaticamente pouco eficaz.
A ideia central parte de um diagnóstico correto: os cadetes estão fragmentados emocionalmente. Ake convoca Sylvia Tilly, de Star Trek: Discovery, para usar uma peça como ferramenta de reconexão coletiva. O conceito é bonito no papel, ainda que clichê e previsível, de jovens oficiais aprendendo sobre impermanência e humanidade através do teatro, sendo que a execução escorrega para um sentimentalismo insistente. Em vez de permitir que os conflitos respirem por meio da encenação, o roteiro recorre a diálogos expositivos que explicam exatamente o que cada personagem está sentindo.
Eu até venho elogiando dentro de certos limites a proposta teen da série, mas esse episódio foi o que mais me incomodou em termos de dramas juvenis superficiais que vemos ao monte por aí. O problema não é usar arte como terapia. Star Trek sempre acreditou no poder transformador da cultura e da introspecção. O problema é que a série aqui não confia na sutileza. As cenas de ensaio parecem mais sessões de aconselhamento dramatizadas do que conflitos orgânicos. Falta tensão interna real, falta uma construção emocional melhor que justifique certas ações (a Tarima mesmo é quase que descaracterizada) e falta densidade para os temas propostos.
Já a trama de SAM é ainda mais problemática. O conceito de que sua programação sem infância a deixou vulnerável ao trauma é interessante do ponto de vista filosófico, especialmente em uma franquia que historicamente debate o que constitui humanidade. Porém, a execução é carregada de explicações forçadas, resoluções súbitas e diálogos vazios naquele melodrama mecânico em preto e branco que assistimos.
A ida a Kasq para tentar salvá-la amplia o escopo, mas não aprofunda o conflito. O fato de que ela não pode ser reparada e precisa ser “reconstruída” com uma infância simulada poderia gerar um debate moral mais complexo. Em vez disso, a solução surge como um gesto sentimental por parte do Doutor. Existe algum nível de beleza nesse desfecho, mas soterrado por uma trama bem morosa.
Há ainda um desequilíbrio estrutural: o episódio tenta abraçar simultaneamente o arco coletivo do teatro, a crise de Tarima e a reconfiguração existencial de SAM. Nenhum desses núcleos recebe profundidade suficiente. O resultado é uma hora que se arrasta emocionalmente, mas paradoxalmente parece apressada nas resoluções.
No fim, A Vida das Estrelas quer ser o episódio sobre cura e reconstrução (algo que deveria ter sido feito no intervalo da semana passada), mas acaba sendo um capítulo excessivamente expositivo e sentimental, cuja carga emocional não se sustenta pela construção dramática. A série, mesmo com suas limitações e ressalvas, já provou que pode discutir temas densos com leveza e tensão. Aqui, porém, a série opta por uma abordagem mais direta e menos sofisticada. O resultado é um episódio que parece importante em teoria, mas pouco envolvente na prática.
Star Trek: Academia da Frota Estelar (Star Trek: Starfleet Academy) – 1X08: A Vida das Estrelas (The Life of the Stars) | EUA, 26 de fevereiro de 2026
Desenvolvimento: Gaia Violo, Noga Landau, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Andi Armaganian
Roteiro: Alex Taub, Eric Anthony Glover
Elenco: Holly Hunter, Sandro Rosta, Karim Diané, Kerrice Brooks, George Hawkins, Bella Shepard, Zoë Steiner, Robert Picardo, Tig Notaro, Oded Fehr
Duração: 64 min.
