Crítica | Star Trek: Discovery – 2X01: Brother

– Contém spoilers do episódio. Leia nossas críticas dos filmes e séries de Star Trek, aqui.

Dando início ao segundo ano de Star Trek: Discovery, Brother representa um próximo passo no desenvolvimento da mais nova iteração da icônica série televisiva perpassado pelo que já se tornou um de seus fatores característicos: a crise de identidade.

Que fique claro desde já, trata-se de uma “crise” no melhor sentido possível. Não é preciso saber qualquer coisa sobre os diversos problemas de bastidores que marcaram a produção para perceber que o programa adotou, ao longo de toda sua extensão até aqui, a abordagem tentativa-e-erro como forma de tatear sua personalidade própria. Que Discovery não seria um retorno a algum dos formatos clássicos já testados para a franquia já estava claro desde sua estreia, porém a forma como a série prequel desenvolveria sua visão permaneceria uma questão em aberto mesmo na conclusão de seus primeiros arcos.

A mudança mais marcada desta estreia é a experimentação em torno da tonalidade. Seguindo a deixa já preparada pelo finale Will You Take My Hand?, a produção volta a flertar com o otimismo humanista característico das versões originais de Trek, atenuando em alguns momentos o estilo pedregoso e realista da releitura de Discovery. Porém, por sorte, trata-se mais de uma espécie intrigante de “crossover” interno do que de “correção de curso” propriamente dita.

O pequeno destacamento de oficiais da USS Enterprise que aporta a bordo da USS Discovery chega trazendo roupas coloridas em tons mais saturados e a atitude energética típica da utopia científico-militarista da visão original de Gene Roddenberry. A diferença em relação ao clima predominante da Discovery, com sua jornada marcada manifestamente pelos ângulos oblíquos da guerra e da traição, não deixa de ser notada pelos tripulantes ou trabalhada pelo roteiro, ainda que por vezes de forma um tanto desajeitada. O encontro entre esses dois “sub-universos” de Trek é realizado de forma ponderada e sem exageros, alternando bem entre a sutileza e os momentos de fanfarronice descarada.

A principal presença nova aqui é, sem dúvida, o Capitão Christopher Pike de Anson Mount. Concentrando em sua figura esse contraste geracional e canalizando muito mais William Shatner do que Jeffrey Hunter, Pike apresenta um contraste imediatamente interessante em relação não apenas a todo status quo da “Disco”, mas mais especificamente em relação ao seu oficial encarregado anterior, o vilanesco e já saudoso Gabriel Lorca.

Do lado da Discovery, curiosamente, sem poder se servir do fator saudosista e do peso da iconografia da Série Original, a unidade é um tanto menos sólida e por vezes parece achar necessário pesar a mão na exposição para construir sua caracterização. Inaugurando um arco de temporada focado na relação fraterna entre nossa protagonista Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) e o icônico Sr. Spock, o capítulo lança mão de um tradicional flashback de infância como dispositivo de enquadramento, o qual infelizmente se ocupa com terreno já melhor percorrido com sutileza nos eventos presentes.

Saru (Doug Jones) novamente recebe pouco para fazer – o que é sempre uma lástima – preterido da cadeira de comando sem grandes cerimônias a partir da chegada de Pike. Tilly (Mary Wiseman) acaba na maior parte do tempo relegada a momentos de alívio cômico com resultados variáveis, com exceção da subtrama envolvendo Stamets (Anthony Rapp), que trabalha de forma interessante (ainda que um tanto breve) alguns dos efeitos dos eventos da temporada anterior. Fica a expectativa de que a série encontre tempo para trabalhar não apenas essas figuras centrais, mas também outros elementos da tripulação.

Os momentos em que há sintonia os objetivos do novo capitão e o estilo de trabalho único da Discovery são mais interessantes do que as tentativas de se criar conflito entre eles, que por vezes acabam soando um tanto forçadas. A inclusão do oficial de ciência Connolly (Sean Connoly Affleck) como um babaca padrão pronto para ser descartado após não confiar nos conselho de Burnham e o rompante desta na ponte de comando após um mal entendido com Pike, embora convincentes (e satisfatórios) em si, acabam pecando um pouco pela previsibilidade e falta de efeito imediato em um episódio em alta velocidade e que possuía frentes mais promissoras para se explorar.

A sequência de resgate da nave médica, por sua vez, representa o grande triunfo do capítulo. Os efeitos visuais e a direção de todas as cenas não devem nada aos seus equivalentes cinematográficos, e fazem algo que a série se encontra cada vez melhor posicionada para realizar: colocar o deleite visual e o show de ação característicos dos filmes da linha Kelvin a serviço da narrativa televisiva e seriada que fez de Trek o fenômeno do gênero que é. Fazendo um uso excelente de seus personagens e efeitos especiais, a sequência nos apresenta ainda a oficial Jett Reno (Tig Notaro), brilhantemente interpretada e imediatamente intrigante, potencialmente uma ótima adição à tripulação crescente da Disco.

Tomando seu tempo para construir o arco de temporada, a limitação mais marcada de Brother é justamente se restringir ao prelúdio e ao fator teaser de um grande evento por vir. A estreia da temporada anterior, embora se qualifique literalmente como um prólogo, traz um senso de finalidade e completa uma narrativa em si, sem precisar pintar a todo momento questões a serem resolvidas como o grande amarro narrativo do esforço. Aqui, embora sigamos com o enfoque em personagem que caracterizou aquela entrada, o fato é que muito da narrativa se pauta no uso da sempre aguardada figura de Spock.

Claro, mesmo que o irmão de Burnham não fosse “por acaso” um dos personagens mais icônicos da franquia e do subgênero como um todo, a trama de Brother se sustentaria da mesma forma. Porém, por outro lado, seu impacto dramático aposta em longas sequências de contemplação de elementos já conhecidos do público, de forma que o mistério das sete aparições cósmicas descaradamente se garante em três níveis: como busca de respostas da Frota Estelar acerca de um fenômeno cósmico de fato, como busca de respostas pessoal de nossa protagonista a respeito do irmão e como busca da audiência por uma nova iteração de uma figura não apenas familiar, mas reconhecidamente querida.

Como toda produção que se debruça sobre construção de narrativas “caixa de mistério”, a eficácia e significado de Brother acabarão melhor definidos com o desenrolar do arco que inaugura. Ao se apoiar de forma mais irreverente sobre o fator fanservice, a produção evoca a força da franquia no mesmo movimento em que se abre de forma mais marcada para os riscos de sua premissa enquanto prequel. Em todo caso, o capítulo traz um bom começo para a segunda temporada de Discovery, que permanece promissora em suas possibilidades.

Star Trek: Discovery – 2X01: Brother — EUA, 18 de fevereiro de 2019
Direção: Alex Kurtzman
Roteiro: Gretchen J. Berg, Aaron Harberts, Ted Sullivan
Elenco: Sonequa Martin-Green, Doug Jones, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Wilson Cruz, Anson Mount, James Frain, Mia Kirshner, Tig Notaro, Emily Coutts, Patrick Kwok-Choon, Oyin Oladejo, Ronnie Rowe, Ethan Peck, Sean Connolly Affleck
Duração: 48 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.