Crítica | Star Trek: Discovery – 2X03: Point of Light

– Contém spoilers do episódio. Leia nossas críticas dos filmes e séries de Star Trek, aqui.

Após investir em um formato tradicional episódico, Star Trek: Discovery retorna à narrativa serial e traz um capítulo que se debruça sobre o desenvolvimento de personagens, revisitando figuras que não víamos desde a temporada anterior. Costurando alguns ganchos narrativos deixados em aberto na conclusão da Guerra Klingon com o arco atual do Anjo Vermelho, a trama de Point of Light se divide em três frentes que, apesar de não confluírem em torno de uma unidade bem definida, avançam a narrativa de forma significante.

A bordo da Discovery, acompanhamos o reencontro de Michael (Sonequa Martin-Green) com sua mãe adotiva na busca pelo meio-vulcano mais procurado da franquia. Após Burnham errar novamente em seu palpite de quem teletransportaria a bordo da Discovery, acompanhamos uma das tramas mais interessantes a explorar Amanda (Mia Kirshner) para além da perspectiva “mãe de Spock” ou “esposa humana de Sarek”. Com isso, ficamos sabendo um pouco mais de onde Michael herdou seu pragmatismo e resolutividade. Se é verdade que a ambientação como prequel engessa a série em relação a certos desenvolvimentos narrativos, essa exploração de perspectivas novas sobre personagens e eventos passados continua a ser uma possibilidade que vale ser explorada.

Um possível trabalho de encobrimento a respeito da estadia do meio-vulcano no hospital psiquiátrico nos dá pistas de que a Federação pode saber mais sobre o fenômeno das manifestações vermelhas do que poderíamos imaginar. Em todo caso, o que vem à tona são revelações a respeito do passado da família: o Anjo Vermelho é inserido sem cerimônias na infância de Spock, e ficamos sabendo um pouco mais sobre o evento que abalou a relação entre os irmãos.

A narrativa indireta encontra aqui um resultado misto. Embora seja o suficiente para dar os contornos definitivos à dinâmica familiar já deixada implícita anteriormente, a revelação de que Michael fez algo propositalmente para afastar o irmão e assim protegê-lo da fúria de extremistas vulcanos acaba ficando a depender de maiores esclarecimentos para evitar cair em um drama forçado. É o risco que corremos com uma narrativa envolta em “caixas do mistério” —  a eficácia de algumas subtramas só será medida de acordo com o seu desfecho. Dado que a frente Klingon do episódio traz uma trama de perseguição cultural e sacrifícios familiares, não teria sido mais negócio nos mostrar aqui diretamente o que ocorreu entre os dois no passado? Ao menos a situação traz também efeitos atuais tangíveis: a principal sendo o fim da parceria mãe e filha, que ao menos plantou a pulga atrás das orelhas de Burnham e Pike (Anston Mount), fortalecendo sua parceria em busca de um objetivo comum.

Na subtrama envolvendo Tilly (Mary Wiseman) e sua colega fantasma, a produção se aproveita do timing ideal e não enrola demais para que a aspirante a capitã entregue os pontos a respeito de sua condição. Como suspeitamos, tratava-se do efeito combinado entre o pulso de matéria negra e a contaminação de esporos sofrida pela oficial na fuga do Universo Espelho. A trama da rede micelial continua a se manter como uma das mais interessantes dessa encarnação da série, e aqui a narrativa do mistério é construída de forma ainda mais interessante: ao invés de reter descaradamente informações do espectador, a produção se utiliza do caráter dúbio das alucinações de Tilly e de diálogos ambíguos para nos deixar em dúvida a respeito dos possíveis significados do que se passa ali. Seriam os clarões vermelhos um efeito diretamente ligado ao uso da rede micelial?

A terceira subtrama é a mais “recheada” em termos de acontecimentos, ao mesmo tempo em que, curiosamente, é a que menos se conecta com o restante da história. A inserção de um follow-up à trama dos klingons, no atual momento, parece cumprir mais a construção do universo mais amplo da série (e de seus spin-offs já planejados pela CBS) do que colocar em movimento novos jogadores para a trama atual. Porém, em se tratando de Discovery e sua aversão calculada à ideia de status quo, nunca se sabe!

Embora de início a ideia de revisitar os klingons tão cedo no novo arco, logo após uma primeira temporada com alto “teor klingônico”, possa parecer um tanto precipitada e tendendo à superexposição da espécie multifacetada, o retorno de L’Rell (Mary Chieffo) e Tyler/Voq (Shazad Latif) se provam bem encaixados e conseguem mostrar que Discovery se encontra cada vez mais segura de sua capacidade “multitarefas”. A renderização de Qo’noS que vemos aqui é um deleite visual, e os vislumbres que temos da sociedade klingon consegue mostrar uma cultura mais nuançada e melhor alinhada com o que seria visto posteriormente na cronologia da série.

A intriga política e o drama pessoal conseguem condensar muito bem um plot que se alongou na temporada anterior, sendo que eu me peguei mais interessado nos rumos do conflito interno klingon aqui do que ao longo de boa parte da temporada anterior. As cenas de ação trazem um pouco mais do que já se tornou uma das marcas de Discovery – ação over the top com show visual e desfechos dramáticos.

No caso em questão, o retorno da versão espelhada de Georgiou (Michelle Yeoh) é impactante nos dois sentidos, e amarra para onde toda essa subtrama se dirige: manter uma L’Rell livre no cargo máximo de Qo’noS  (aquele mais feroz do que o de chanceler: mãe!) e contar com a ajuda do sorrateiro Tyler na Seção 31. Se eles terão envolvimento com o caso de Spock ou se se tratou de um descarado backdoor pilot para a série vindoura focada na divisão spec-ops, só o tempo dirá. Independente do caso, a trama klingon consegue ser sucinta e nos dar um vislumbre impactante do status atual dessa sociedade, mostrando um modelo poderoso para a série desenvolver sua construção de mundos sem precisar se ancorar nas narrativas de personagem.

Point of Light consegue avançar três frentes diferentes apenas tateando a temática da maternidade, e constrói tensão para sua trama central no melhor estilo do que foi feito da ótima temporada de estreia. Novamente, ficamos à mercê do desenrolar dos eventos para termos uma perspectiva melhor da coisa toda – mas é certo que a espera para o próximo episódio será intensa!

Star Trek: Discovery – 2X03: Point of Light — EUA, 31 de janeiro de 2019
Direção: Olatunde Osunsanmi
Roteiro: Andrew Colville
Elenco: Sonequa Martin-Green, Doug Jones, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Shazad Latif, Anson Mount, Michelle Yeoh, Mia Kirshner, Mary Chieffo, Kenneth Mitchell, Bahia Watson, Emily Coutts, Patrick Kwok-Choon
Duração: 48 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.