Crítica | Star Trek: Discovery – 2X04: An Obol for Charon

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Parece-me que o intercalamento de episódios dedicados à continuidade do arco maior com auto-contidos é o padrão na 2ª temporada de Star Trek: Discovery pelo menos nesse começo. E An Obol for Charon é, sem dúvida alguma, o capítulo “solto” que mais consegue emular o tipo de história que poderíamos encontrar na Série Original, já que ele usa e abusa de dois artifícios clássicos, a entidade espacial que parece, mas não é uma ameaça à Enter… digo Discovery e a doença misteriosa que acomete um dos tripulantes. O resultado, porém, é desequilibrado e até, talvez, frustrante.

Introduzindo finalmente a Número Um de Rebecca Romijn, papel vivido originalmente por Majel Barrett em A Gaiola, o episódio já começa com o paradeiro de Spock na mira. Com a obtenção ilegal (pela Número Um) da assinatura de dobra do transporte que ele aparentemente furtou do sanatório onde se internara, o Capitão Pike ordena a perseguição, somente para a Discovery ser arrancada da corrida por uma aleatória esfera espacial incandescente que transforma a nave em uma Torre de Babel por alguns momentos.

Essa narrativa, vou ser muito sincero, não funciona muito bem como alicerce do episódio, logo transformando-se no MacGuffin para permitir a verborragia expositiva na ponte de comando, artifício que certamente teve sua época, mas que, hoje, parece mais uma brincadeira de criança, com o roteiro soltando pseudo-ciência e pseudo-tecnologia para todo lado sem se preocupar muito com a lógica interna. Pelo menos esse aspecto do episódio ganha reflexo na repentina doença terminal de Saru, que ele explica ser típica de sua raça quando está na época da raça dominante de seu planeta caçar seus pares. A conveniência das duas situações – as mortes próximas dele e da esfera de 100 mil anos – dialogam bem e se auto-alimentam, com a coincidência sendo explicada pela profunda empatia de Saru, que capta a essência daquilo que a esfera quer transmitir.

Com isso, muito do episódio é dedicado a lidar com a relação do kelpiano com Michael, fortalecendo e expandido o laço entre os dois e proporcionando bons momentos entre Doug JonesSonequa Martin-Green. O roteiro de Alan McElroy e Andrew Colville faz um belo trabalho para estabelecer paralelo entre a relação dos dois, que desenvolveu-se a passos largos desde o começo da série, e a relutância de Michael em encontrar-se novamente com Spock. Da mesma forma, o texto consegue ser muito eficiente ao nos convencer de que Saru morrerá mesmo e que não há saída.

E é isso que acaba sendo um pouco frustrante quando seus “gânglios de medo” desaparecem e ele é magicamente curado. Mas calma, não fiquem furiosos comigo por querer a morte de Saru. Abrirei até um parênteses aqui para deixar muito clara minha admiração pelo trabalho de Jones na construção do personagem e pelo cuidado em sua caracterização, aí incluído o espetacular trabalho prostético que, em seu conjunto, talvez resulte do mais alienígena dos alienígenas da franquia Star Trek. E vou além e afirmo que Discovery sem Saru é um conceito mais estranho do que sem Michael Burnham em minha cabeça, pelo que, lá no fundo, tinha certeza que um deus ex machina qualquer viria para resolver o “problema”. Mas a grande verdade é que, quando ele chegou, tudo aconteceu em um piscar de olhos e de maneira muito fácil, além de completamente sem explicação (e isso é particularmente estranho em um episódio repleto de infindáveis explicações), o que espero seja remediado mais para a frente. Além disso, a excelente ideia que foi criar um oficial tão importante na série que é regido pelo medo vai para o ralo aqui, o que ameaça a dinâmica do personagem com seus pares. Mas, não tem muito jeito e, agora, é esperar para ver como essa questão será abordada.

O terceiro vértice narrativo continua a história de Tilly com sua amiga de escola May que, como descobrimos no episódio anterior, é, na verdade, um fungo da rede micelial. Com os problemas na Discovery, a “bolha disforme” sugada de Tilly por Stamets volta a prender-se à cadete, em outro ambiente auto-contido. Nele, Stamets e Reno, personagem de Tig Notaro introduzida em Brother e que ainda bem que parece que será aproveitada na temporada como personagem recorrente, fazem de tudo para separar Tilly dessa outra entidade com propósito incerto e não sabido.

A dinâmica estabelecida entre Reno e Stamets é o ponto alto dessa história, com a postura antitética dos dois criando faíscas e divertindo imensamente ainda que o roteiro pese na mão nas mensagens ambientais bem explicadinhas (sutileza, onde está você?). O que não é lá terrivelmente interessante é a situação de Tilly em si, já que essa narrativa da rede micelial, apesar de essencial para a 1ª temporada, dá a impressão de estar sendo esticada demais. Considerando que a tecnologia não existe no “futuro” da franquia, o que sempre causou urticária nos fãs mais xiitas, pode ser, porém, que essa continuidade tenha como objetivo enterrar os teletransportes fungais da Discovery, o que, junto com a eliminação dos gânglios de Saru e o surgimento das cabeleiras dos Klingons, parece indicar que a direção da série quer se livrar daquilo que a torna diferente do que veio antes.

An Obol for Charon cansa pela história principal em razão de uma ameaça que nunca realmente se concretiza e que é trocada por diálogos sem fim na ponte, frustra pela morte não morrida de Saru e continua a sonífera história do motor de esporos. E isso sem contar que a procura de Spock já deu o que tinha que dar… Mesmo assim, esse foi apenas o primeiro soluço em uma temporada que tem se mostrado muito boa.

Star Trek: Discovery – 2X04: An Obol for Charon (EUA, 07 de fevereiro de 2019)
Direção: Lee Rose
Roteiro: Alan McElroy, Andrew Colville (teleplay), Jordon Nardino, Gretchen J. Berg, Aaron Harberts (história)
Elenco: Sonequa Martin-Green, Doug Jones, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Shazad Latif, Anson Mount, Michelle Yeoh, Mia Kirshner, Mary Chieffo, Kenneth Mitchell, Bahia Watson, Emily Coutts, Patrick Kwok-Choon, Tig Notaro, Rebecca Romijn
Duração: 51 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.