Crítica | Star Trek: Discovery – 2X05: Saints of Imperfection

  • Contém spoilers do episódio. Leia, aqui, nossas críticas dos demais episódios e de todo nosso material sobre Star Trek.

Ok, vou dizer logo de cara que, se era para reviver alguém da primeira temporada, teria sido muito mais interessante que fosse Lorca. O retorno do Dr. Hugh Culber (Wilson Cruz) desfaz um momento fortíssimo e chocante da trama, retirando, de quebra, parte da “nuvem” sombria que pairava sobre seu assassino. Isso, junto com a volta dos cabelos dos Klingons e a perda dos gânglios de medo de Saru, ameaça retirar de Discovery aquilo que faz dessa série um Star Trek refrescante e ousado, mas, claro, ainda é cedo para fazer esse julgamento.

Mesmo que as tecno-explicações dessa volta de Hugh cansem um pouco e façam sentido apenas com muito boa vontade e algumas reviradas de olhos, isso não quer dizer que a construção da história em Saints of Imperfection seja ruim. Muito ao contrário, na verdade. E a grande razão da narrativa funcionar melhor aqui do que no episódio anterior é uma só: foco. No lugar de três tramas paralelas, temos uma história só que parece encerrar a sub-trama da rede micelial pelo momento e que é introduzida por intermédio do já esperado preâmbulo enquadrador sobre a interminável procura por Spock que é particularmente funcional, já que serve, de uma tacada só, para trazer a ex-Imperadora de volta para a temporada depois de sua missão em Point of Light, resultando em ótimos momentos de farpas e faíscas entre ela e Michael, com um capitão Pike quase comicamente estupefato e perdido no meio, além de também funcionar como desculpa para integrar Ash/Voq à Discovery e, de quebra, aproximar a Seção 31 de toda a narrativa, graças ao epílogo com a almirante Katrina Cornwell (Jayne Brook de volta em micro-ponta) como mediadora das pazes entre Pike e Leland (Alan van Sprang).

No recheio da moldura trazida pela temática sobre Spock, é revelado, para surpresa de absolutamente ninguém, que Tilly está viva dentro da rede micelial graças ao teletransportador biológico que sua amiga-cogumelo criara. Lá, finalmente descobrimos o porquê de Amy ter atravessado dimensões e possuído a cadete: sua espécie está sendo dizimada pela presença de um “monstro” imparável e Tilly é sua última esperança de livrar-se dele. Claro que Stamets bola um jeito de transformar a Discovery em uma espécie de ponte entre universos e, como todo episódio precisa reiterar detalhada e heroicamente, com direito a discurso edificante, que ninguém será deixado para trás mesmo que todo mundo possa morrer no processo, o plano é executado com um “meio-pulo” que literalmente coloca a nave encravada entre uma dimensão e outra.

Lá em Pando…, digo rede micelial, Tilly e Amy, depois de estabelecerem laços mais fortes, vão ao encontro da Discovery, com Stamets e Michael, os únicos que podem transitar entre um lado e outro graças à cápsula que permite o pulo e serve de buffer, fazendo o caminho inverso. Logo eles se encontram e os quatro esbarram em Hugh como um mendigo interdimensional. O que segue é um trabalho bem feito de construção de tensão por parte da direção de David Barrett, que sabe trabalhar a montagem de forma a equilibrar os dois lados da história (em nosso universo e no universo micelial), com o roteiro de Kirsten Beyer costurando muito bem a Seção 31 nessa estrutura.

Apesar de obviamente sabermos que nenhuma tragédia se abaterá à Discovery ou aos seus tripulantes – pelo menos não na escala que se avizinha – o passo narrativo apertado e o trabalho inquieto de câmera na mão de Barrett para representar o lado fosforescente, com uma ótima direção de arte, consegue emprestar um clima de urgência e perigo ao que vemos passar na telinha. Mesmo que a narrativa tenha que literalmente parar para que as tentativas de explicação dos “comos” e dos “porquês” sobre Hugh sejam expostas de maneira lenta e sem ritmo, o drama na ponte da Discovery com ajuda da nave da Seção 31 (que se disfarça de asteroide como se a navegação espacial fosse visual…) compensa os problemas e torna tudo mais interessante, ainda que longe de excepcional.

Se Saints of Imperfection marcar um ponto de virada, em que a narrativa da terra dos cogumelos ganha um fechamento mesmo que temporário e a Federação passa, de maneira conjunta – com o lado da luz e o lado sombrio trabalhando juntos, mesmo que tenhamos que ver a Philippa do mal tornar-se boazinha – a correr atrás de Spock e do mistério dos sete sinais e do anjo vermelho, então ele terá tido mais valor ainda, já que a temporada está precisando encontrar sua identidade e seu passo. Afinal, se aquilo que muitos consideram como “pecados do passado” começarem a ser expiados, Discovery pode perder seu diferencial e tornar-se mais do mesmo. Existe um ponto de equilíbrio e é mais importante encontrá-lo do que o próprio Spock.

Star Trek: Discovery – 2X05: Saints of Imperfection (EUA, 14 de fevereiro de 2019)
Direção: David Barrett
Roteiro:  Kirsten Beyer
Elenco: Sonequa Martin-Green, Doug Jones, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Shazad Latif, Anson Mount, Michelle Yeoh, Mia Kirshner, Mary Chieffo, Kenneth Mitchell, Bahia Watson, Emily Coutts, Patrick Kwok-Choon, Tig Notaro, Rebecca Romijn, Wilson Cruz, Jayne Brook, Alan van Sprang
Duração: 52 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.