Crítica | Star Trek: Discovery – 2X06: The Sound of Thunder

– Contém spoilers do episódio. Leia nossas críticas dos filmes e séries de Star Trekaqui.

Em uma temporada que tem se aventurado em intercalar estilos e focos narrativos diferentes na tentativa de equilibrar tudo aquilo que deu certo no ano de estreia com correções de curso visando seu lugar na historiografia trekkiana, The Sound of Thunder representa um ponto interessante de confluências. Ao mesmo tempo em que acompanhamos o desenvolvimento de subtramas de personagem cuidadosamente construídas ao longo de toda a série até aqui, o capítulo também procura se alinhar ao formato episódico com o qual a produção tem flertado, trazendo um conto de ficção científica intrigante.

O primeiro quesito é onde o episódio se garante com maior tranquilidade, ainda que no contexto de encarar um desafio e tanto. Desde o início da série, um desejo meu (que eu vi ser ecoado no ponto de vista de diversos outros espectadores) foi de que fosse concedido mais tempo de tela e desenvolvimento de personagem ao interessantíssimo Comandante Saru (Doug Jones). Tendo roubado a cena em diversos momentos-chave da Guerra Klingon e garantido sempre bons momentos de personagem nas interações com seus colegas de tripulação na Discovery, o kelpiano era meu candidato favorito à cadeira de capitão e eu confesso que o excelente Christopher Pike de Anson Mount teve que fazer um extra para garantir meu respeito após me privar dessa possibilidade.

O conceito de um oficial da frota proveniente de uma espécie e cultura majoritariamente motivados pelo medo, abordado com seriedade e sem caricaturizações, é fascinante. Na ambientação pulp que dá o tom das aventuras clássicas da Série Original  —  com as quais tudo que seguiu sempre acaba por dialogar  —  a relação entre coragem e medo muito frequentemente é indistinguível do maniqueísmo entre o herói destemido e o fraco covarde. Alegorizar o que há de natural  —  e não inerentemente desvirtuoso  —  no medo em uma espécie fadada a se hipersensibilizar com a própria fragilidade é uma ideia sensacional e repleta de potencial para ser explorada. A atuação brilhante de Jones e o trabalho prostético excelente da produção apenas completaram a figura, garantindo que a contraparte reservada e racional ao espírito combativo de Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) não redundasse em mais uma simples caricatura do imortal Sr. Spock.

Nesse sentido, a superação do processo de vahar’ai por parte de Saru em An Obol for Charon representou provavelmente o maior ponto sem retorno para o personagem  —  a própria morte talvez não lhe fosse tão transformadora, conforme o Dr. Culber está aí para nos atestar. Nos livrando da angústia de perder um de seus personagens mais interessantes às custas daquilo que ele trazia de mais único, a resolução daquele episódio deixou um gancho narrativo aberto que, felizmente, a produção não demorou para retomar. Dando sequência àquela excelente exploração da interação entre Burnham e o kelpiano, a jornada para Kaminar continuou a trabalhar melhor nosso imediato, lançando-o em meio a um momento decisivo da história de seu povo ao mesmo tempo em que nos apresentou sua origem em maiores detalhes.

Entrando na frente da trama “auto-contida” do capítulo é que algumas de suas limitações se fazem presentes, ainda que no balanço geral a experiência continue a tender ao ótimo. Apoiando-se fortemente na construção de personagem feita ao longo da série, a trama investe acertadamente em flashbacks precisos e econômicos para dispor de suas temáticas centrais sem muitas delongas. No entanto, essa abordagem cirúrgica não funciona tão bem quando aplicada a Kaminar e a toda sua complexa dinâmica entre as culturas e espécies kelpiana e ba’ul. Apesar de ser visualmente estonteante, a missão em solo de Burnham e Saru sofre um pouco pela brevidade e ritmo acelerado das situações  — o encontro com Siranna (Hannah Spear) peca pela superficialidade e nos dá uma perspectiva muito sucinta sobre uma cultura milenar a qual estamos prestes a ver ser transformada para sempre por conta das ações da USS Discovery.

Se é certo que desenvolver uma trama dessa magnitude e complexidade apoiando-se em meia dúzia de personagens e alguns minutos de conversa na ponte de comando não é nenhum crime para o subgênero, o nível de imersão com o qual essa nova encarnação da série flertou por diversas vezes poderia nos servir especialmente bem aqui. Com a nossa perspectiva restrita ao encontro entre Saru e Siranna (os únicos kelpianos que vemos antes da purgação dos gânglios de medo de toda a espécie), o caráter um tanto inconsequente das ações da Discovery na sequência final acaba realçado. No entanto, para sermos justos, é preciso reconhecer que o intento da produção aqui era justamente o de acompanhar a jornada de Saru, e nisso o episódio entrega em praticamente todas as frentes.

Valendo-se de um suspense bem construído em torno dos misteriosos (e patologicamente tímidos) ba’ul, a trama garante-se com um senso de perigo iminente que consegue convencer e manter o momentum mesmo vindo na sequência de duas ocasiões cataclísmicas para a USS Discovery. Pela maior parte do tempo, nós aqui em casa suspeitamos que teríamos a revelação de que kelpianos e ba’ul seriam parte de um mesmo ciclo evolutivo no qual os primeiros se transformavam nos segundos através do vahar’ai (estranhamente, não foi a única coisa do episódio que nos fez lembrar de Full Circle). Confessando ter sido um tanto decepcionante que esse não tenha sido o desfecho da trama (ao menos por hora), a incursão de Saru não falhou em garantir um protagonismo bem entregue ao personagem. O maquinário e a base ba’ul adentram um território visual ainda pouco explorado por Discovery, e a aparição do único “espécime” dos predadores foi convincentemente alienígena. O conflito iminente com a Discovery traz bons momentos de tensão na ponte, embora a decisão de Pike em interferir de forma tão drástica e acelerada possa trazer algum estranhamento — é a bizarra magia que Burnham tem de convencer seus superiores a apertar o botãozão vermelho na hora do aperto.

Como primeiro momento da jornada de auto-descoberta do kelpiano pós-vahar’ai, The Sound of Thunder se sai muito bem e nos deixa curiosos a respeito dos destinos do personagem. Enquanto trama episódica sobre esse momento decisivo do planeta Kaminar, o capítulo convence emocionalmente e empolga com sua grande escalada de eventos, mas acaba carecendo de um desenvolvimento mais cuidadoso para realmente atingir todo o seu potencial. Afinal de contas, são dois os deus ex machina de que se usa para encaminhar uma resolução ao conflito: o absurdamente conveniente repositório de história galática obtido pela transmissão da misteriosa esfera senciente e, é claro, nosso MacGuffin da temporada, o Anjo Vermelho. Ligados entre si por estripulias temporais a serem mostradas futuramente, estes elementos externos à trama episódica ficam totalmente a depender de desenvolvimentos futuros para que possamos avaliar seu sentido e coesão na narrativa. Ainda que não brilhe por completo no segundo quesito, o episódio não apenas entretém como avança a mitologia própria de Discovery de forma significativa, provando que nem só de klingons e universo espelho precisa viver o universo de Trek.

Star Trek: Discovery – 2X06: The Sound of Thunder (EUA, 21 de fevereiro de 2019)
Direção: Douglas Aarniokoski
Roteiro:  Bo Yeon Kim, Erika Lippoldt
Elenco: Sonequa Martin-Green, Doug Jones, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Shazad Latif, Wilson Cruz, Anson Mount, Emily Coutts, Patrick Kwok-Choon, Oyin Oladejo, Ronnie Rowe, Hannah Spear
Duração: 52 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.