Crítica | Star Trek: Discovery – 2X12: Through the Valley of Shadows

– Contém spoilers do episódio. Leia nossas críticas dos filmes e séries de Star Trekaqui.

Mesmo levando em conta todas as reservas que alguém possa ter a respeito de seus detalhes, uma coisa é certa: Through the Valley of Shadows é uma entrada ambiciosa, inventiva e um tantinho insana para o cânone de Star Trek. Com o arco da temporada agora se arrastando por conveniências e pela força da mão pesada do roteirismo, a trama episódica da vez chega para salvar o dia com sequências sólidas para nossos personagens principais.

É nas minúcias da saga mais ampla do Anjo Vermelho que se encontram as maiores limitações da narrativa. Quem esperava que a sequência de revelações dos últimos episódios fosse nos encaminhar para uma reta final mais afunilada e com menos aspectos recortados do que o visto aqui ficou a ver navios. Os recém-introduzidos Cristais do Tempo se juntam aos Sete Sinais Vermelhos em uma dupla dinâmica de dispositivos de roteiro para garantir que os motores do arco amplo continuem a funcionar. A opção acaba não funcionando ao telegrafar o caráter de artificialidade de certos pontos do roteiro, e destoar do que se esperaria de uma exploração de ficção científica mais bem pensada para as temáticas de paradoxos temporais com a qual a produção decidiu se aventurar.

Com poucas linhas de diálogo somos informados de que Georgiou partiu em busca de “Leland”, e estabelecemos missões diversas para Michael (Sonequa Martin-Green) e Pike (Anson Mount), correndo com o pós-guerra do cataclísmico embate mais recente contra a IA maligna Control para colocar nossos personagens onde precisam estar no atual momento. Tanto o luto de Michael quanto a reação da Discovery são relativamente bem explorados nesse espaço curto de tempo, mas a impressão com que fiquei foi a de que faltou vermos um pouco mais da mobilização da Federação frente à crise, dada a magnitude da ameaça atual.

Revisitando o santuário de Boreth, que já apareceu anteriormente na franquia e fora apenas mencionado na atual temporada, temos a oportunidade para reencontrar o filho de Tyler (Shazad Latif) e L’Rell (Mary Chieffo), surpreendentemente envelhecido e agora servindo como guardião dos Cristais do Tempo. A inserção desse misterioso elemento continua a não me agradar muito pela extrema conveniência e pouca explicação com que são introduzidos em um cânone de regras já bastante estabelecido. Ou melhor dizendo: mesmo que se tratasse de uma série de exploração espacial totalmente nova, os itens já necessitariam de um pouco mais de explicação para tornarem-se críveis o suficiente dentro de uma ambientação sci-fi mais “realista” (como foi bem realizado, por exemplo, no caso do Motor de Esporos).  O fato de estarmos em uma prequel de uma franquia cinquentenária onde eles jamais foram mencionados anteriormente só torna a coisa um pouquinho mais complicada.

Dado seu aspecto inerentemente “mágico”, a inserção dos Cristais no lore dos Klingon é uma escolha acertada em princípio. Há inclusive um charme da pulp fiction inegável e muito bem construído por toda a visita do Capitão Pike ao planeta: dos diálogos melodramáticos ao encontro com o inexplicável, a coisa funciona muito bem por si só, causando mais estranhamento apenas em contraste com a abordagem mais gritty que a própria produção buscou semear em outros momentos.

Deixando de lado as picuinhas nerds, o valor dramático da visita de Pike é o grande tesouro do episódio. Após o festival de referências de If Memory Serves e mediante as recentes acenadas ao tema via diálogo, parecia que visitar o acidente que deixou o primeiro capitão da USS Enterprise confinado a uma cadeira robótica parecia uma tentação inevitável para Discovery. Felizmente, o resultado saiu melhor do que qualquer encomenda possível: Mount consegue vender com precisão o misto de melodrama sessentista e terror fotorrealista que as cenas pediam. Tanto seu fatídico acidente quanto o encontro com seu futuro horripilante são muito bem montados, em mais um triunfo visual para a presente encarnação da série. Embora levemente apressado, o elemento dramático que faz com que a opção de levar o Cristal o responsabilize por concretizar seu próprio futuro tenebroso adiciona ainda mais uma camada de heroísmo para a azarada figura.

Enquanto o Capitão Pike continua a estrelar excelentes momentos como co-protagonista temporário da produção, nossa protagonista fixa não deixa de ser bem servida com uma subtrama igualmente empolgante. Explorando novamente a ótima química entre Burnham e o irmão adotivo Spock (Ethan Peck), a dupla parte em investigação de mais uma ocorrência “misteriosa” provavelmente ligada a Control, o que resulta em mais um combate direto contra nosso antagonista da temporada.

twist aqui pode não ser tão surpreendente assim, mas é construído com cuidado o suficiente para nos entregar mais uma excelente sequência de ação, com direito a Spock não conseguindo se safar com o velho truque da pinçada de nervos e tendo que usar a outra técnica mortal pela qual também é conhecido: a ciência. A pareceria entre uma Michael emocionalmente descentrada e um Spock “à paisana” explora um lado diferente do usual para os personagens, e ajuda a dar o tom visceral que o momento pedia.

Through the Valley of Shadows é mais um episódio empolgante e divertido de Discovery, que funciona mesmo em meio a uma montagem de arco um tanto desajeitada. Já que optamos por fazer da coisa toda algo pessoal com Michael, é bom constatar que a produção tem conseguido trabalhar a ideia à altura, principalmente em termos dramáticos e fazendo bom uso da ação. Um maior cuidado com os detalhes poderia fazer do arco do Anjo Vermelho um verdadeiro clássico para a série  pelo menos por enquanto, vamos indo bem com momentos empolgantes, costurados meio que às pressas.

Star Trek: Discovery – 2X12: Through the Valley of Shadows (EUA, 4 de abril de 2019)
Direção: Douglas Aarniokoski
Roteiro: Bo Yeon Kim, Erika Lippoldt
Elenco: Sonequa Martin-Green, Doug Jones, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Anson Mount, Shazad Latif, Ethan Peck, Mary Chieffo, Mia Kirshner, Tig Notaro, Rachael Ancheril, Emily Coutts, Patrick Kwok-Choon, Oyin Oladejo, Ronnie Rowe, Sara Mitich
Duração: 48 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.