Home TVEpisódio Crítica | Star Trek: Discovery – 2X12: Through the Valley of Shadows

Crítica | Star Trek: Discovery – 2X12: Through the Valley of Shadows

por Giba Hoffmann
88 views (a partir de agosto de 2020)

– Contém spoilers do episódio. Leia nossas críticas dos filmes e séries de Star Trekaqui.

Mesmo levando em conta todas as reservas que alguém possa ter a respeito de seus detalhes, uma coisa é certa: Through the Valley of Shadows é uma entrada ambiciosa, inventiva e um tantinho insana para o cânone de Star Trek. Com o arco da temporada agora se arrastando por conveniências e pela força da mão pesada do roteirismo, a trama episódica da vez chega para salvar o dia com sequências sólidas para nossos personagens principais.

É nas minúcias da saga mais ampla do Anjo Vermelho que se encontram as maiores limitações da narrativa. Quem esperava que a sequência de revelações dos últimos episódios fosse nos encaminhar para uma reta final mais afunilada e com menos aspectos recortados do que o visto aqui ficou a ver navios. Os recém-introduzidos Cristais do Tempo se juntam aos Sete Sinais Vermelhos em uma dupla dinâmica de dispositivos de roteiro para garantir que os motores do arco amplo continuem a funcionar. A opção acaba não funcionando ao telegrafar o caráter de artificialidade de certos pontos do roteiro, e destoar do que se esperaria de uma exploração de ficção científica mais bem pensada para as temáticas de paradoxos temporais com a qual a produção decidiu se aventurar.

Com poucas linhas de diálogo somos informados de que Georgiou partiu em busca de “Leland”, e estabelecemos missões diversas para Michael (Sonequa Martin-Green) e Pike (Anson Mount), correndo com o pós-guerra do cataclísmico embate mais recente contra a IA maligna Control para colocar nossos personagens onde precisam estar no atual momento. Tanto o luto de Michael quanto a reação da Discovery são relativamente bem explorados nesse espaço curto de tempo, mas a impressão com que fiquei foi a de que faltou vermos um pouco mais da mobilização da Federação frente à crise, dada a magnitude da ameaça atual.

Revisitando o santuário de Boreth, que já apareceu anteriormente na franquia e fora apenas mencionado na atual temporada, temos a oportunidade para reencontrar o filho de Tyler (Shazad Latif) e L’Rell (Mary Chieffo), surpreendentemente envelhecido e agora servindo como guardião dos Cristais do Tempo. A inserção desse misterioso elemento continua a não me agradar muito pela extrema conveniência e pouca explicação com que são introduzidos em um cânone de regras já bastante estabelecido. Ou melhor dizendo: mesmo que se tratasse de uma série de exploração espacial totalmente nova, os itens já necessitariam de um pouco mais de explicação para tornarem-se críveis o suficiente dentro de uma ambientação sci-fi mais “realista” (como foi bem realizado, por exemplo, no caso do Motor de Esporos).  O fato de estarmos em uma prequel de uma franquia cinquentenária onde eles jamais foram mencionados anteriormente só torna a coisa um pouquinho mais complicada.

Dado seu aspecto inerentemente “mágico”, a inserção dos Cristais no lore dos Klingon é uma escolha acertada em princípio. Há inclusive um charme da pulp fiction inegável e muito bem construído por toda a visita do Capitão Pike ao planeta: dos diálogos melodramáticos ao encontro com o inexplicável, a coisa funciona muito bem por si só, causando mais estranhamento apenas em contraste com a abordagem mais gritty que a própria produção buscou semear em outros momentos.

Deixando de lado as picuinhas nerds, o valor dramático da visita de Pike é o grande tesouro do episódio. Após o festival de referências de If Memory Serves e mediante as recentes acenadas ao tema via diálogo, parecia que visitar o acidente que deixou o primeiro capitão da USS Enterprise confinado a uma cadeira robótica parecia uma tentação inevitável para Discovery. Felizmente, o resultado saiu melhor do que qualquer encomenda possível: Mount consegue vender com precisão o misto de melodrama sessentista e terror fotorrealista que as cenas pediam. Tanto seu fatídico acidente quanto o encontro com seu futuro horripilante são muito bem montados, em mais um triunfo visual para a presente encarnação da série. Embora levemente apressado, o elemento dramático que faz com que a opção de levar o Cristal o responsabilize por concretizar seu próprio futuro tenebroso adiciona ainda mais uma camada de heroísmo para a azarada figura.

Enquanto o Capitão Pike continua a estrelar excelentes momentos como co-protagonista temporário da produção, nossa protagonista fixa não deixa de ser bem servida com uma subtrama igualmente empolgante. Explorando novamente a ótima química entre Burnham e o irmão adotivo Spock (Ethan Peck), a dupla parte em investigação de mais uma ocorrência “misteriosa” provavelmente ligada a Control, o que resulta em mais um combate direto contra nosso antagonista da temporada.

twist aqui pode não ser tão surpreendente assim, mas é construído com cuidado o suficiente para nos entregar mais uma excelente sequência de ação, com direito a Spock não conseguindo se safar com o velho truque da pinçada de nervos e tendo que usar a outra técnica mortal pela qual também é conhecido: a ciência. A pareceria entre uma Michael emocionalmente descentrada e um Spock “à paisana” explora um lado diferente do usual para os personagens, e ajuda a dar o tom visceral que o momento pedia.

Through the Valley of Shadows é mais um episódio empolgante e divertido de Discovery, que funciona mesmo em meio a uma montagem de arco um tanto desajeitada. Já que optamos por fazer da coisa toda algo pessoal com Michael, é bom constatar que a produção tem conseguido trabalhar a ideia à altura, principalmente em termos dramáticos e fazendo bom uso da ação. Um maior cuidado com os detalhes poderia fazer do arco do Anjo Vermelho um verdadeiro clássico para a série  pelo menos por enquanto, vamos indo bem com momentos empolgantes, costurados meio que às pressas.

Star Trek: Discovery – 2X12: Through the Valley of Shadows (EUA, 4 de abril de 2019)
Direção: Douglas Aarniokoski
Roteiro: Bo Yeon Kim, Erika Lippoldt
Elenco: Sonequa Martin-Green, Doug Jones, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Anson Mount, Shazad Latif, Ethan Peck, Mary Chieffo, Mia Kirshner, Tig Notaro, Rachael Ancheril, Emily Coutts, Patrick Kwok-Choon, Oyin Oladejo, Ronnie Rowe, Sara Mitich
Duração: 48 min.

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25 comentários

Fausto Franca 8 de abril de 2019 - 20:52

Os intérpretes do Cap.Pike, do Saru ( o melhor ator de expressões corporais sob próteses e maquiagem – vejam os braços do Salu qdo ele caminha!) e da Georgiou estão roubando a cena em todos os episódios a ponto de eu dar menos atenção ao jovem Spock ou ao Stamets.
Sinto falta de uma maior participação da deslumbrante Detmer, mas sinto principalmente a ausência do Capitão Lorca, o Jason Isaacs é um especialista em grandes vilões. Já do som do idioma Klingon eu não sinto falta, rs.

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Afonso Alves Galante 8 de abril de 2019 - 08:00

Incomoda bastante o excessivo foco da série em somente um personagem “Michael” os outros são figurantes, até mesmo o Capitão parece receber ordens dela. Somente ela é capaz de resolver os problemas da nave. Diferente das outras encarnações de Star Trek onde temos pelo menos um trio de personagens principais, fora que os outros têm também seu espaço, aqui não, com certeza não merece o nome de Star Trek!

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Everton Araujo 8 de abril de 2019 - 12:40

Tem o Saru… tem a Phillipa… tem o Pike que não recebe ordens apenas ouve a Michael como a toda tripulação e toma suas decisões… tem o Tyler por pior que ele seja…tem a turminha da engenharia.. foco sempre existiu, Ricker foi o foco em TNG e nem era capitão, sei bem qual é o seu incomodo…

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Jose Claudio Gomes Souza 8 de abril de 2019 - 00:26

Minha maior curiosidade é saber como serão explicados todos esses fatos que nunca foram citados na série clássica, como a irmã do Spock, o motor de esporos e os cristais do tempo.

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Italo Bandeira 8 de abril de 2019 - 07:19

Tem coisas que não vale a pena ficar matutando, eu mesmo decidir apenas assistir e estou curtindo bastante.

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Tony Bandeira 8 de abril de 2019 - 15:38

Pode justificar como uma linha do tempo paralela, ou então apagar as memórias de todos os envolvidos…

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maul1961 12 de abril de 2019 - 18:30

Só espero que não façam um restart, seria uma solução muito simples.

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Jefferson Viana 7 de abril de 2019 - 23:41

Desse episodio não gostei do fato dos “cristais de tempo” parecer ser um mineral ou algo do tipo, esperava que fosse um cristal sim, mas produzido com tamanha dificuldade que não se arriscariam mais. Acho muito interessante a mudança de spock para o vulcano conhecido, primeiro quando ele sai do estado catatônico ele esta abalado, a razão e a emoção “falhou”(ou não) como ele disse, então ele está mais emotivo nos primeiros episódios, depois ele vai se restabelecendo com seu estado mental vulcano normal.

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Anônimo 7 de abril de 2019 - 23:31
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Moema Rampon 7 de abril de 2019 - 22:04

Assisto o episódio e aguardo para ler estas críticas ótimas. Concordo com o “vamos indo bem com momentos empolgantes”. 😉

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Misael Rodrigues 7 de abril de 2019 - 20:22

Desculpem pela falta de informação. Mas se Discovery passa se 10 anos antes do Kirk , é claro que Kirk deveria ser um adolescente concluindo assim que Spock é bem mais velho, mas no filme de 2009 a Enterprise teve sua viagem inaugural com o Cap Pike no Comando com Kirk como cadete e Spock já como 1 Oficial e não um simples tenente, e na Discovery a Enterprise já estava em sua missão de 5 anos Kirk nem sonhava ainda estar na frota.
Lembrando também que em além da escuridão, Pike morre como Almirante e Vulcano já havia sido destruído e alterado toda a história que conhecemos. No episódio pelo Vale das sombras Pike viu o futuro e o seu trágico destino assim como já sabíamos desde O episódio 11 da série clássica.
Está meio confuso este universo trek

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Leandro Henrique Pereira Neto 8 de abril de 2019 - 00:53

Linha temporais diferentes. A TV é uma ou filmes são outra que não tem nada a haver um com a outra.

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Edson Ostemberg Benites 7 de abril de 2019 - 20:05

Eu esperava que o filho do Tyler tivesse um pouco mais de traços humanos. Já caminhando para a aparência de Worf que era mestiço.
Não entendi a visão do Pike. Sabemos que ele morreu no atentado no quartel da frota. Aquela visão arremeteu a cena do Kirk e o Spock durante o embate com Khan.

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Anônimo 7 de abril de 2019 - 23:23
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Leandro Henrique Pereira Neto 8 de abril de 2019 - 00:53

Linha temporais diferentes. A TV é uma ou filmes são outra linha temporal.

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planocritico 14 de abril de 2019 - 01:31

Os filmes novos apenas é que são em linha temporal diferente a chamada Linha Temporal Kelvin. Todos os demais com o Kirk de William Shatner e Picard de Patrick Stewart são na mesma linha temporal que as séries de TV.

Abs,
Ritter.

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Gustavo Silva 9 de abril de 2019 - 07:52

Pike morreu no quartel da Frota? Acho que você não viu o mesmo Star Trek que eu kkk os filmes do J.J. Abrams se passam em um universo alternativo, nele sim o Pike morreu

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Antonio Carlos 7 de abril de 2019 - 19:08

Assisti desde minha adolescência a SÉRIE ORIGINAL onde o capitão PIKE contracena com a versão clássica de SPOCK e termina numa cadeira robótica em piores condições que o astrofísico STEPHEN HAWKING com E.L.A. Se os responsáveis pelo STAR TREK DISCOVERY continuarem bem como estão, PODERÃO ressuscitar a CONTINUIDADE da SÉRIE CLÁSSICA em um futuro REENCONTRO entre SPOCK e o capitão KIRK como sugere a LÓGICA ROTEIRÍSTICA.

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Herberti Pedroso 7 de abril de 2019 - 17:50

Episódio excelente! Tanto a subtrama de Pike, como a subtrama de Burhan foram bem encaixadas na narrativa maior. A única parte em que os roteiristas realmente pesaram a mão foi apresentar o filho de Tyler já adulto, um recurso desnecessário ao meu ver. Se o tal sacerdote guardião fosse um outro klingon qualquer que diferença iria fazer???
Os últimos episódios teem se notabilizado por momentos de grande carga emocional: a armadilha na qual Burhan foi a isca, a metamorfose e maleficação de Leland e agora Pike descobrindo seu triste destino!
Vou repetir: Star Trek Discovery, ao lado de The Expanse, é uma grata surpresa para o raquítico universo da boa e memorável ficção científica televisiva.

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joca alves 7 de abril de 2019 - 17:50

tentei mas esse clube da Luluzinha Discovery ficou insuportavel

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planocritico 7 de abril de 2019 - 20:40

Mas ficou insuportável porque é, na sua ótica, um “clube da luluzinha” ou porque, APESAR disso, a série não te agradou? Ou seja, se trocarmos os papeis femininos para masculinos tudo se resolve ou continua ruim?

Abs,
Ritter.

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Luiz Carlos Fernandes 7 de abril de 2019 - 15:10

O controle, ou a inteligência IA, me deu a intender que serão os Borgs.

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Marcelo israel 8 de abril de 2019 - 07:09

nada haver, os borgs já existiam nesta epoca, e eles ainda estão no quadrante beta, só aparecem quando a entidade Q aparece nos episodeos de The Next Generation

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Everton Araujo 8 de abril de 2019 - 12:20

“Resistir é inútil” … com cristais do tempo tudo e possível…

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Italo Bandeira 8 de abril de 2019 - 07:19

Estou pesando nisso também, acho que seria melhor manter a origem deles como sendo um mistério ou adotar a teoria apontada em Star Trek Legacy.

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