Crítica | Star Trek: Discovery – 2X13: Such Sweet Sorrow

– Contém spoilers do episódio. Leia nossas críticas dos filmes e séries de Star Trekaqui.

Such Sweet Sorrow é, sem dúvidas, um início bombástico para o season finale deste segundo ano de Discovery. A detonação dessa bomba traz à tona a essência de tudo o que a série tem sido ultimamente  —  tanto em termos de qualidades quanto, de maneira inegável, de defeitos.

A iniciar pela travessia da tripulação da “Disco” até a USS Enterprise, que se torna o show esperado de fanservice que nos foi prometido ao final do episódio anterior. O truque continua a funcionar, mesmo que com retornos ligeiramente decrescentes: assim como o grito de “Daleks!” em Doctor Who, o grito “Enterprise!” e a subsequente evocação dos visuais, efeitos sonoros e personagens clássicos só consegue levar nossa empolgação nas costas até certo ponto. É preciso uma história que mobilize esses elementos de forma realmente interessante  —  como foi, por exemplo, a visita nostálgica e auto-indulgente a Talos IV em If Memory Serves.

Dito isso, trama interessante também é o que não falta aqui. Mais precisamente, premissas empolgantes no papel. Há uma história realmente fascinante ocorrendo em Discovery — o problema é encontrá-la, já que não é na tela que ela se desenvolve. A estrutura dessa primeira parte consegue entregar o atual momento de desfecho da forma mais anticlimática possível: sanduichando intermináveis sequências melodramáticas de despedidas entre dois momentos breves de genuíno payoff narrativo. O roteirismo que tem assombrado a temporada de forma marcada mostra aqui sua cara mais feia.

Isso não tem nada a ver propriamente com o foco excessivo em nossa protagonista ou com quaisquer expectativas que possamos ter a respeito da inserção da trama atual no cânone de Star Trek. Lidar com o estilo e premissa dessa encarnação da série é terreno já percorrido e batido desde o início da primeira temporada, e é até elogiável o quanto a equipe produtiva conseguiu (ao menos até então) equilibrar a “correção de curso” dessa segunda temporada com uma fidelidade a visão original que Bryan Fuller teve para Discovery. O problema aqui é bem mais específico e tangível do que qualquer choradeira de fã: a narrativa em tela simplesmente não funciona muito bem.

A trama de ficção científica se encontra lançada de maneira definitiva ao pano de fundo, comprimida em rápidas sequências apressadas que parecem ter de pedir licença para berrarem diálogos expositivos entre os intermináveis momentos de adeus melodramáticos. Claro que ficção científica e drama funcionam muito bem em combinação — o problema é que a mistura aqui não realiza bem nenhuma das duas coisas. As camadas e mais camadas de conveniências do roteiro foram dando origem a uma narrativa que simplesmente não se sustenta mais em nenhuma delas.

Em termos do sci-fi, a situação chegou ao insustentável com a chegada da Rainha Me Hani Ika Hali Ka Po (Yadira Guevara-Prip), personagem anteriormente vista na Short Trek de Tilly (Mary Wiseman), Runaway. Com uma trama já pipocando de elementos importantes muito mal explorados (Dr. Culber (Wilson Cruz), alguém?), a inserção de uma personagem “externa” aos eventos atuais não cumpre outra coisa senão a tentativa de justificar de forma aparentemente orgânica os milagres de roteiro necessários para que tenhamos a tripulação da Discovery fabricando rapidamente uma nova versão do Anjo Vermelho — aquele dispositivo que era dito, alguns episódios atrás, possuir propriedades totalmente ilegíveis e impensáveis para toda e qualquer engenharia da época atual.

Novos elementos químicos? A gente arruma. Supernova? Feito. Abrir um wormhole e operá-lo sem praticamente qualquer familiaridade com esse tipo de engenharia? Nada que o conveniente arquivo de tutoriais de YouTube da Dra. Burnham (Sonja Sohn) não resolva! E tudo isso em questão de horas. O motor de esporos parece um elemento banal e bem resolvido perto desse corre-corre todo. Claro que a história de Trek (e de todo o gênero) é feita de muita pseudociência e technobabble — faz parte do DNA do subgênero tanto quanto agitar a câmera enquando as pessoas fingem que se seguram nos objetos da ponte de comando. O problema é quando a pseudociência se reduz ao puro e simples falatório, sem nos mostrar nada, sem fazer de nada disso uma narrativa. A missão de Burnham (Sonequa Martin-Green) nessas alturas infelizmente quase se reduz a isso: linhas e mais linhas de diálogo expositivo, pouquíssima narrativa sendo feita na tela.

Partindo dessa pontuação mal amarrada e que vem com a mão pesada do roteiro (perdendo tempo inclusive acenando a todo momento com teasers a respeito do futuro da série — “A Discovery vai para o futuro?”; “Quem será o novo capitão?”), temos longas sequências de adeus as quais conseguem a façanha de se sabotar dentro da própria extensão do episódio. Acompanhamos Michael por quase toda a duração do capítulo se despedindo para um sacrifício solitário, o qual acaba anulado pela decisão (nada previsível…) do restante da tripulação em permanecer a bordo. A qual, por sua vez, é seguida de mais uma dose pesada de “adeuses” melodramáticos e mal costurados. Muito adeus para pouca despedida: tivessemos desde o início construído a coisa como uma missão de sacrifício da USS Discovery como um todo, poderíamos ter explorado essa despedida do presente de forma mais interessante e orgânica ao longo do capítulo. Mesmo assim, no entanto, o caráter apressado e dependente de conveniências com o qual tal manobra se torna possível estaria longe de ter sido solucionado.

Such Sweet Sorrow foi provavelmente o episódio de Discovery que mais me desagradou desde o início da série. Mostrando que do lado de lá de tantos mistérios havia mais um plano de roteiro do que uma narrativa bem construída, a temporada se arrasta para um final anticlimático que, na melhor das hipóteses, salvará o dia com algumas cenas de ação empolgantes e, quem sabe, uma ou outra surpresa na segunda parte do desfecho. O cenário geral, no entanto, é de que o conjunto aqui acaba, infelizmente, se encaminhando para ser menos do que a soma de suas partes.

Star Trek: Discovery – 2X13: Such Sweet Sorrow (EUA, 11 de abril de 2019)
Direção: Olatunde Osunsanmi
Roteiro: Michelle Paradise, Jenny Lumet, Alex Kurtzman
Elenco: Sonequa Martin-Green, Doug Jones, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Anson Mount, Shazad Latif, Ethan Peck, Wilson Cruz, Michelle Yeoh, James Frain, Mia Kirshner, Tig Notaro, Rachael Ancheril, Rebecca Romijn, Emily Coutts, Patrick Kwok-Choon, Oyin Oladejo, Ronnie Rowe, Sara Mitich, Sonja Sohn, Alan Van Sprang, Yadira Guevara-Prip
Duração: 48 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.