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Crítica | Star Trek: Discovery – 3X06: Scavengers

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série e, aqui, de todo nosso material sobre Star Trek.

Michael não é a primeira e nem será a última oficial da franquia Star Trek a ser insubordinada. Isso está no DNA desse universo utópico, mas muito menos do que perfeito desde o seu começo, mesmo que alguns ainda insistam que todos os personagens das diversas séries sempre obedeceram rigorosamente o livrinho de regras da Frota Estelar. Portanto, ver a protagonista mais uma vez mergulhar em uma missão sem chancela superior em Scavengers não é novidade alguma. Se alguma coisa, é o padrão da personagem desde o primeiro episódio da série. O que torna o capítulo diferente dos demais (e quando digo demais, quero dizer de toda a franquia, não só de Discovery) é que ele não varre as consequências da insubordinação para debaixo do tapete, resolvendo-a com um discurso do tipo “estou desapontado, mas você mandou bem, então está tudo certo” ou mesmo afirmando com todas as letras que a atitude condenável deveria ser considerada uma atitude condenável.

Vejam, por exemplo, a atitude do Almirante Charles Vance quando a aventura de Michael acaba. Seu primeiro comentário é para Saru, na linha de que o Michael fizera não era sem mérito e que ele – Saru – deveria ter levado a sugestão dela para o conhecimento superior, pois talvez sua missão pudesse ter sido sancionada pela Frota e pela Federação. Ato contínuo, Vance se vira para Michael e não deixa a insubordinação barata por uma questão de princípio, o que leva Saru a rebaixá-la de Primeiro Oficial e Oficial Chefe de Ciência mais uma vez, em uma atitude que inclusive ganha aprovação indireta de Tilly, grande amiga de Michael, que não a defende cegamente quando o capitão pergunta o que ele deveria fazer, talvez até buscando uma saída menos severa.

O ponto, aqui, é o quanto a atitude de Michael pode refletir no restante da tripulação da Discovery que ainda precisa se provar diante de seus pares do futuro. Uma peça fora do lugar, especialmente alguém fundamental na hierarquia, pode fazer ruir todos os esforços de integração da Discovery a esse novo status quo. Ao mesmo tempo, é importante salientar o reconhecimento de que o que Michael fez talvez tivesse mesmo que ser feito e não só em relação às vidas que ela salvou, mas talvez, principalmente, pela obtenção de mais uma caixa preta de nave da Frota na época da Combustão para que o fenômeno possa ser investigado.

E isso me leva ao meu incômodo sobre o episódio ou, mais ainda, sobre esse futuro que ainda está sendo apresentado. Claro que podem haver particularidades que ainda não entendemos ou que sequer foram apresentadas, mas, seja como for, não só o motor de esporos da Discovery não parece estar sendo objeto de estudo de dezenas (centenas?) de engenheiros da Federação com o objetivo de replicá-lo (entendo a manutenção de segredo, mas não em detrimento de estudos de algo tão vital assim), algo que espero seja abordado mais para a frente, como parece haver uma espécie de indiferença sobre o que aconteceu com todo o dilítio do universo. Comentários simplistas do tipo “não sabemos ainda o que ocorreu” não são aceitáveis. Tudo bem que a Federação, com todas as suas limitações de viagens interplanetárias, deve estar trabalhando febrilmente cada minuto do dia somente para manter as coisas funcionando, mas me parece haver um desinteresse grande demais sobre a Combustão, como se fosse fácil aceitar um fenômeno que, segundo as explicações iniciais – agora derrubadas por Michael – aconteceu simultaneamente em todos os lugares. O mero fato de não terem imaginado a questão das caixas pretas me deixa um pouco cabreiro, mas com esperança que haja alguma explicação lógica que porventura passe por uma gigantesca operação de acobertamento do que realmente ocorreu pela própria Federação, não sei.

Dito isso, o retorno de Book para a série foi bem-vindo, especialmente considerando que sua “entrada” se deu por intermédio de seu gato Grudge. A missão de Michael, que, óbvio, arregimenta a única pessoa que não titubearia em ajudá-la, a Imperadora Georgiou, não é lá das mais originais do mundo, mas, considerando sua premissa simples, mas honrável de libertação de essencialmente escravos e sua execução que leva as duas mulheres a fazerem dupla novamente, algo sempre divertido, o resultado final é bastante agradável. O bônus ficam por conta do que parece ser a continuidade temática daquele “branco” de Georgiou que vimos em Die Trying depois de seu interrogatório por David Cronenberg (só eu que acho que o nome do personagem dele deveria ser David Cronenberg também?). Ela, agora, tem estranhas visões paralisantes que parecem ser a semente para uma sub-trama que ainda não consigo classificar como interessante, talvez curiosa apenas.

Scavengers tem seus altos e baixos, mas o resultado final é sóbrio em razão do ótimo desfecho da decisão de Michael de agir por conta própria, carregando um peso e gerando consequências que são raras de se ver por aí quando uma missão não-sancionado tem resultados positivos. Discovery vem conseguindo fazer sua temporada mais centrada até agora, valendo-se bem menos de pirotecnias que as anteriores e usando de cautela para desdobrar aos poucos os detalhes desse futuro ainda mais distante em que o sonho de uma entidade utópica como a Federação não é algo que existe de maneira tão ampla a ser reconfortante para os habitantes desse universo.

Star Trek: Discovery – 3X06: Scavengers (EUA, 19 de novembro de 2020)
Showrunners: Alex Kurtzman, Michelle Paradise
Direção: Douglas Aarniokoski
Roteiro: Anne Cofell Saunders
Elenco: Sonequa Martin-Green, Doug Jones, Anthony Rapp, Mary Wiseman, David Ajala, Wilson Cruz, Rachael Ancheril, Michelle Yeoh, Tig Notaro, Emily Coutts, Blu del Barrio, Oded Fehr, Vanessa Jackson, Jake Epstein
Duração: 49 min.

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