Home TVEpisódio Crítica | Star Trek: Discovery – 4X07: …But to Connect

Crítica | Star Trek: Discovery – 4X07: …But to Connect

O espírito de tudo o que é Star Trek.

por Ritter Fan
6.632 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série e, aqui, de todo nosso material sobre Star Trek.

Mesmo que um tantinho mais didático do que talvez precisasse ser e mesmo valendo-se de tramas paralelas com uma servindo de comentário à outra, com direito até mesmo a entrelaçamento de discursos como se fosse uma série dos anos 80, …But to Connect foi um grande episódio de Star Trek: Discovery, um que estuda com calma e perfeitamente dentro da história macro da temporada, os valores e a função da Federação de Planetas. Se, de um lado, temos uma tensa reunião diplomática emergencial entre representantes de planetas parte ou não da Federação em reconstrução sobre o que fazer em eventual encontro com a Espécie 10-C (nome provisório dado à espécie desconhecida de fora da galáxia que seria responsável pela anomalia), de outro temos uma fascinante discussão sobre inteligência artificial e o que exatamente é Zora.

O roteiro de Terri Hughes Burton e Carlos Cisco é cuidadosamente construído em cima de todos os eventos abordados na temporada, seja o desejo firme da presidente da Federação em fortalecer os laços entre planetas e trazer cada mais mais novos membros para sua organização, seja a desconfiança natural entre os representantes de cada grupo e, principalmente, o luto por que Book passa com a destruição de seu amado planeta (e, consequentemente, sua família) em razão da primeira manifestação da anomalia, tudo tem seu espaço e tudo é explorado a contento, com um encerramento explosivo, mas ao mesmo tempo perfeitamente esperado e lógico.

A recusa da temporada em se afastar do estudo da dor que Book sente pelo ocorrido é fascinante e, diria, absolutamente inesperado, pois não é um assunto sexy ou mesmo agradável para uma série de ficção científica que inegavelmente tem prezado mais pela ação. Mas essa abordagem minuciosa do personagem sofrendo pela perda de tudo que ama em questão de segundos, sem que ele possa fazer nada, é algo que nem mesmo nas séries tidas clássicas da franquia Star Trek ganhava essa dimensão e esse detalhamento. Seu afastamento gradativo de Michael deságua aqui, com os dois assumindo posturas opostas e, francamente, inconciliáveis que representam os dois lados da discussão posta pela presidente da Federação, ou seja, usar diplomacia em eventual primeiro contato com a Espécie 10-C ou usar a invenção do arrogante cientista Ruon Tarka, introduzido em The Examples, para eliminar a anomalia, mas com efeitos colaterais potencialmente sérios? Ou, mais simplesmente: conversar ou atacar?

Pode parecer um dicotomia óbvia, típica de filosofia de botequim, mas, se pararmos para pensar de verdade, ela é a base da História do Mundo, de todos os conflitos bélicos da Humanidade e, portanto, faz parte de nosso DNA histórico. Star Trek sempre foi pelo ideal, pelo que se imagina ser o melhor para “um mundo melhor” e atacar, mesmo que seja algo constantemente feito nas séries e filmes, sempre foi algo que ficou no banco de reservas, sendo usado como última alternativa. Aqui não é diferente, e a discussão que se trava é de puros ideais, ainda que o de Book seja muito claramente afetado por sua experiência pessoal, por sua dor que é inteligentemente manipulada por Tarka que tem até uma história de amor perdido na manga para contar. E, se a vitória da paz era algo francamente claro, ela não veio sem preço, o primeiro deles sendo o estremecimento das relações de Michael com a representante da Terra, seu planeta natal e o potencial fim de seu relacionamento com Book. Além disso, claro, a insubordinação de seu amante que, com Tarka e o novo motor de esporos (outra pedra narrativa que já vinha sendo cantada), parte para fazer aquilo que ele perdeu no voto, sem que a Federação possa ter controle sobre seus atos.

A profunda quebra de confiança entre Michael e Book ganha seu inteligente espelhamento no dilema que se apresenta com a insubordinação – que tecnicamente não é insubordinação, mas deixe-me chamar assim pelo momento – de Zora, algo que nem mesmo as mais malignas inteligências artificiais do audiovisual se atreveriam a fazer: dizer que tem a informação essencial que todo mundo precisa para salvar a galáxia, mas dizer que não vai revelá-la. Uma escolha narrativa simples, mas extremamente eficiente justamente pela sua simplicidade e pela lógica quase vulcana por trás: se a diretiva de Zora é salvar a tripulação da Discovery e se a informação que ela tem ameaça a vida desta mesma tripulação, então a revelação é impossível. Só mesmo Kovich para começar a desatar esse nó, algo que ele faz com a valiosa ajuda antitética de Stamets, o único ali com coragem de verbalizar suas reservas sobre Zora com base no trauma representado pelo vilanesco Controle.

O desenvolvimento desse lado da trama do episódio conseguiu, para mim, ser ainda mais interessante do que a reunião da Federação com seus membros e agregados e da cunha cravada entre Michael e Book. A disposição de Zora de fornecer meios para que ela seja eliminada em caso de alguma atitude que ameace a tripulação e a concordância imediata de Stamets em usar esses meios se necessário forem fala muito sobre cada um dos personagens e Kovich enxerga justamente isso, colocando não a I.A., mas sim Stamets em julgamento. Mesmo sem o cientista perceber, ele se desenvolve, entende a questão, estabelece as bases para a construção da confiança entre ele e Zora – exatamente como a presidente da Federação vem fazendo com a ajuda de Michael – e chega à solução para o impasse com a ajuda coletiva de Culber, Adira e Gray e, claro, regência de Kovich. Chega a ser emocionante o momento em que Zora demonstra felicidade em ser simplesmente “vista”, reconhecida como alguém além de uma mera I.A., em um reflexo de tudo que Star Trek sempre foi e que muita gente se esquece: o reconhecimento dos diferentes e seu tratamento como iguais. Temos, agora, uma nova forma de vida na série, uma integrada à Discovery e que sim, depois do juramento perante a Frota Estelar, pode ser insubordinada, sofrendo as consequências – humanas – por isso. Como diria um certo ser de orelhas pontudas: “Fascinante!”.

Em seu episódio de metade de temporada, Alex Kurtzman e Michelle Paradise mostram que sabem muito bem o que estão fazendo e como conduzir este ainda misterioso ano da série. Eles ainda têm um desafio grande pela frente, já que o jogo de sombras que eles vêm fazendo sobre a anomalia pode ser um daqueles tiros que sai pela culatra. No entanto, seja como for, …But to Connect conversa profundamente com o espírito da franquia sem deixar por um momento sequer de construir em cima do que foi estabelecido na temporada. Se o que vem pela frente estará à altura do que vimos aqui, começaremos a descobrir em seis semanas…

Aviso: A 4ª temporada de Star Trek: Discovery entrará em hiato, retornando, apenas, no dia 10 de fevereiro de 2022.

Star Trek: Discovery – 4X07: …But to Connect (EUA, 16 de dezembro de 2021)
Showrunners: Alex Kurtzman, Michelle Paradise
Direção: Lee Rose
Roteiro: Terri Hughes Burton, Carlos Cisco
Elenco: Sonequa Martin-Green, Doug Jones, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Wilson Cruz, David Ajala, Blu del Barrio, Ian Alexander, Emily Coutts, Oyin Oladejo, Patrick Kwok-Choon, Chelah Horsdal, Oded Fehr, Ronnie Rowe Jr., Ayesha Mansur Gonsalves, Annabelle Wallis, David Cronenberg, Shawn Doyle
Duração: 47 min.

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