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Crítica | Star Trek: Lower Decks – 1X03: Temporal Edict

por Ritter Fan
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  • spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios e, aqui, todo nosso material sobre Star Trek.

A primeira coisa que certamente vem à cabeça de qualquer um lendo o título Temporal Edict (algo como “Decreto Temporal”) conectado com a franquia Star Trek é que o terceiro episódio de Lower Decks lida de alguma forma com viagem no tempo. Seria o óbvio, seria o esperado, seria o convencional. No entanto, é refrescante notar que não é nada nem remotamente ligado a isso e que essa brincadeira é apenas a primeira de várias muito bem boladas ao longo do capítulo.

Depois do bom, mas razoavelmente desapontador Envoys, a série parece querer começar a fazer experimentações. Nada do pareamento normal utilizado nos dois episódios inaugurais aqui, ainda que as ações sejam divididas entre a Cerritos e a superfície de um planeta, no caso Gelrak, para onde a nave é enviada pela Frota para fins de “escambo de quinquilharias”, levando à capitã Carol Freeman a ter um acesso de raiva pela desimportância da missão, já que ela estava nos preparativos finais para participar de um tratado de paz. Em sua explosão pela nave, ela esbarra no conceito de buffer time, algo largamente difundido nos conveses inferiores e que se relaciona com aquele “corpo mole” que todos nós fazemos vez ou outra para completar um trabalho, ganhando uma espécie de intervalo indevido, mas talvez até necessário, e, ato contínuo, estabelece o tal Decreto Temporal estabelecendo que todos os tripulantes, inclusive oficiais, têm que cumprir tarefas em tempos determinados, cronometrados e controlados.

Claro que o único que não tem problema algum em se adaptar com a nova realidade é Boimler, já que, para ele, essa é a única forma de trabalhar e de viver. Enquanto ele tira de letra suas funções, todos ao seu redor – inclusive Tendi e Rutherford – passam a ficar estressados e a cultivar olheiras profundas e cabelos desgrenhados. O comentário social embutido na prática de muitas empresas – públicas e privadas – é evidente e muito bem feito, sem didatismos e sem discursos cansativos. O caos na Cerritos dá-se pela exigência de eficiência absoluta que só uma máquina – ou um Boimler da vida, lógico – pode realmente oferecer todo o tempo.

Enquanto isso, Mariner acompanha o primeiro oficial Jack Ransom e um grupo de outros tripulantes na missão de baixa importância no planeta Gelrak, somente para, no primeiro gesto diplomático, ele iniciar uma guerra que acaba com todos presos e a Cerritos atacada. A única forma de eles contornarem o problema é, como não poderia deixar de ser, ganhar um duelo contra o maior brutamontes que os alienígenas têm.  Enquanto que o conflito entre Mariner e Ransom parece de longe com o que ela costumeiramente tem com Boimler, já que o primeiro oficial, todo engomadinho, segue as regras sem desvios e ela, claro, só quer tomar atalhos, o principal dessa dinâmica é brincar extensivamente com a “macheza” do Capitão Kirk na Série Original, com direito a camisa rasgada, comparação de cicatrizes, bravatas e uma tensão sexual hilária.

E, como se isso não bastasse, os gelrakianos – raça criada para a série – reúnem todas as características assíncronas de muitos episódios clássicos da Série Original. Enquanto eles usam roupas tribais e armas rústicas como lanças com pontas de cristal e cultuam quase que como deuses os cristais que pontilham o planeta, inclusive estabelecendo lutas gladiatoriais em estádios como forma de resolução de conflitos, os alienígenas, estranhamente, têm tecnologia suficiente para terem naves espaciais que eles usam para atacar a Cerritos e… pichar as paredes da nave inimiga enquanto os tripulantes estão estafados em razão do Decreto Temporal. Tudo bem que Mariner tem que “apontar” essa característica para estabelecer a conexão direta com Kirk (“não estamos mais nos anos 2260!”), mas Lower Decks não prima muito pela discrição em suas referências, pelo que é muito divertido vê-la ironizar as muitas bobagens benignas que sempre marcaram a franquia.

Em termos narrativos, a conexão entre as duas histórias paralelas é um bônus muito bem-vindo que torna célere o passo do episódio, impedindo qualquer barriga ou qualquer desperdício de tempo. Tudo bem que a resolução do drama “trabalhista” na Cerritos recorre a um discurso clichê desnecessário, mas o fato é que ele combina com a personalidade de Boimler e o epílogo que solidifica sua “importância” para a Frota Estelar, com direito a menção ao Chefe Miles O’Brien (essa foi uma referência obscura!) certamente é uma boa forma de encerra o capítulo.

Temporal Edict é, sem dúvida alguma, o melhor episódio da temporada inaugural de Lower Decks até agora e mostra que, se a série sair de seu script natural, ela encontrará excelentes caminhos para trilhar. E tomara que o recurso de se usar os oficiais da nave com um pouco mais de relevo para criar conflitos com os tripulantes dos conveses inferiores passe a fazer parte da fórmula da série, pois ele tem muito a oferecer.

Star Trek: Lower Decks – 1X03: Temporal Edict (EUA, 20 de agosto de 2020)
Showrunner: Mike McMahan
Direção: Bob Suarez
Roteiro: Dave Ihlenfeld, David Wright
Elenco (vozes originais): Tawny Newsome, Jack Quaid, Noël Wells, Eugene Cordero, Dawnn Lewis, Jerry O’Connell, Fred Tatasciore, Gillian Vigman, Paul Scheer
Duração: 25 min.

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