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Crítica | Star Trek: Lower Decks – 1X08: Veritas

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios e, aqui, de todo nosso material sobre Star Trek.

Não estou contando, obviamente, mas Veritas talvez seja o episódio que mais contem referências da franquia Star Trek como um todo e isso, em mãos pouco hábeis, poderia significar um desastre, já que tudo arriscaria transformar-se em muletas narrativas que têm a tendência de substituir a própria história, como aconteceu na 1ª temporada de Star Trek: Picard. Felizmente, porém, este não é o caso aqui, já que o showrunner Mike McMahan, com o roteiro inteligente de Garrick Bernard parece ter alcançado o equilíbrio perfeito.

E esse equilíbrio vem do uso da própria estrutura do episódio que, por si só, é figurinha fácil nas diversas séries e filmes da criação de Gene Roddenberry, como uma maneira de olhar para a própria franquia, olhar esse ao mesmo tempo crítico e reverente, resultando quase que um meta-episódio, extremamente auto-consciente do que ele é. Em Veritas, as referências são integrais à narrativa e não brincadeiras apenas, o que pode sim tornar o episódio razoavelmente hermético e só realmente compreensível em todo o seu esplendor por aqueles que têm conhecimento mais do que apenas básico sobre esse universo, mas a verdade é que ele potencialmente também funciona para fãs casuais dado o humor bem inserido.

Seria perfeitamente possível afirmar que vários dos melhores momentos de Star Trek aconteceram em julgamentos como esse que acompanhamos em Veritas. Com isso – e certamente por causa disso – temos uma espécie de simulação visual do tribunal Klingon do sensacional A Terra Desconhecida que espiritualmente leva o espectador a todo tipo de episódio de tribunal ou de julgamento pelos quais as diversas tripulações das séries já passaram, aí incluindo The Menagerie, da Série Original; The Measure of a Man, de A Nova Geração; Tribunal, de Deep Space Nine, Distant Origin, de Voyager e Judgment, de Enterprise, isso só para citar um de cada série live-action anterior ao revival da CBS com Discovery, dentro de uma excelente mecânica inspirada em Rashomon, com Mariner, Rutherford, Tendi e Boimler oferecendo, cada um de uma vez, sua visão dos eventos que levaram seus oficiais a serem aparentemente presos pelo alienígena Clar (voz de Kurtwood Smith, o Clarence Boddicker, de RoboCop).

Com isso, o episódio parece querer colocar Star Trek na tribuna, literalmente em julgamento, quase que indagando do espectador o que ele acha de uma série sci-fi que se faz quase sem sci-fi propriamente. E a brincadeira é boa e valida, com os quatro protagonistas tendo suas respectivas oportunidades de lidar com o passado imediato, cada um de sua maneira peculiar e bem característica que constrói uma narrativa de passo rápido, que mantém o frescor constantemente e que usa as referências de maneira integral ao seu desenvolvimento, sem que elas pareçam penduricalhos utilizados apenas para o fã apontar para a tela e citar o nome do episódio em que isso ou aquilo citado por essa ou aquela pessoa aconteceu. Até mesmo a presença de Q (John de Lancie retornando ao seu clássico e espalhafatoso papel), que nos leva imediatamente para Encounter at Farpoint, funciona bem como um quadro dentro do quadro que serve de comentário até para o tom farsesco que tudo acaba tomando.

E o melhor é que, apesar de todo o humor, de toda a brincadeira e da reviravolta final (mais sobre isso em breve) a integridade do espírito de Star Trek é mantido do começo ao fim, com os personagens dando um show de respeito às regras da Federação e de lealdade a seus superiores. Claro, isso é feito de maneira enviesada e cômica no que diz respeito a Mariner, sempre desobediente, Rutherford, que tem seu implante cibernético desligando-o a todo momento e Tendi entrando em uma missão sem querer, mas isso faz absolutamente parte do que é Lower Decks, com Boimler fechando a quadra de ases ao mergulhar no cerne da questão em um momento que chega até mesmo a ser emocionante.

A reviravolta final é algo que não sei se gostei sem reservas, porém. A revelação de que o tribunal não era um tribunal, mas sim uma comemoração pela libertação de Clar pela Federação é quase como aquele artifício do “era tudo um sonho” que algumas obras se arriscam muito em utilizar e que nem sempre (ou quase nunca) dá realmente certo. É quase como uma enganação, por assim dizer. No entanto, minha hesitação em aceitar o final é parcial apenas dada toda a construção do episódio e, claro à presença de Q por duas vezes que justamente cria essa instabilidade narrativa de “realidade alternativa” ou algo semelhante. E, lógico, faz todo sentido que aquele ali não seja mesmo um tribunal sério e misterioso considerando a natureza da série.

Veritas consegue ser Lower Decks no que a série faz de melhor: humor inteligente, com uso ainda mais inteligente do poder das referências e citações ao rico material que veio antes. Será que isso quer dizer que Mike McMahan não consegue fazer sua criação andar por seus próprios méritos? A essa altura do campeonato, tenho para mim que não, não é nada disso, pois os méritos de Lower Decks estão em justamente colocar o dedo nas feridas da franquia, ao mesmo tempo que a homenageia e não há outra forma de se fazer isso com alguma relevância sem olhar para o passado.

Star Trek: Lower Decks – 1X08: Veritas (EUA, 24 de setembro de 2020)
Showrunner: Mike McMahan
Direção: Kim Arndt
Roteiro: Garrick Bernard
Elenco (vozes originais): Tawny Newsome, Jack Quaid, Noël Wells, Eugene Cordero, Dawnn Lewis, Jerry O’Connell, Fred Tatasciore, Gillian Vigman, Paul Scheer, Toks Olagundoye, John de Lancie, Kurtwood Smith
Duração: 25 min.

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