Crítica | Star Trek: Picard – 1X06: The Impossible Box

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Stardust City Rag foi, em sua essência, um filler cheio de galhofas que se valeu fortemente da nostalgia para reintroduzir Sete de Nove e dar um encerramento à querida personagem de Star Trek: Voyager. Nesse espírito, o episódio acabou funcionando para mim, pois de certa forma nos desviou do que estava dando errado em Star Trek: Picard, ou seja, roteiros que não sabem dosar ação com reflexão e uma estrutura cansativa de montagem de equipe que durou tempo demais. E The Impossible Box é mais uma prova de que falta ritmo à série que tirou Jean-Luc Picard de sua aposentadoria.

Se o episódio anterior não se levou a sério e, por isso, tornou possível aceitar as diversas conveniências que pontilharam a história, aqui acontece justamente o contrário. A narrativa é seríssima e é, para todos os efeitos, o desfecho da “fase um” da série, já que lida com o resgate de Soji por Picard lá no Cubo Borg, agora chamado de O Artefato. Por essa razão é que o roteiro repleto de saídas fáceis cansa demais, começando pela obtenção de uma credencial diplomática em 10 segundos por uma Raffi bêbada pedindo favor a uma agora ex-amiga, parte de um plano mal-ajambrado para justificar a presenta da La Sirena em espaço romulano, continuando com a “sala secreta” com “teletransportador secreto” que faria inveja ao deus ex machina mais conveniente e terminando com a presença heroica de Elnor no momento certo (e que agora pode matar sem sequer ser repreendido, pelo visto…), tudo é construído ao redor de “é assim porque eu quero que seja e que se dane”.

E isso porque eu nem mencionei o caso completamente deslocado – em termos de momento – entre Rios e a Dra. Jurati, com direito até à racionalização ridiculamente excessiva da situação e o fato de que Jean-Luc Picard, chegando abertamente ao Cubo Borg, não atrai a atenção imediata de TODOS os romulanos por ali, que no mínimo deveriam ter colocado seus espiões em peso seguindo o ex-almirante e o canino Hugh. Se espremermos, notaremos que a trajetória de Picard no Cubo é, basicamente, andar, ter lembranças dolorosas, andar, conversar com Hugh e… andar, pois tudo o que interessa acontece ao seu redor sem conexão alguma com ele. Tudo bem que eu mesmo advogo para que nenhum roteiro se engrace e coloque um ator octogenário em sequências de ação, pois isso seria ridículo, mas daí a transformar o que seria ação em um passeio no parque é um pouquinho demais.

Ah, mas alguns dirão que a ação, aqui, ficou por conta da relação de Zarek (só eu que acho esse personagem com constante cara de quem não toma banho há semanas?) com Soji, com o primeiro levando a segunda desavisada – e que convenientemente passa a descobrir em velocidade meteórica que ela não talvez não seja quem é – para um ritual romulano que, você adivinhou, não é nada mais do que “andar” por um caminho desenhado no chão falando sobre seus sonhos. É como um consultório psiquiátrico que troca o divã por mobilidade resultando em algo corrido e, novamente, extremamente conveniente, tudo para que os romulanos finalmente descubram o planeta natal da androide, provavelmente o assunto que ocupará os episódios finais da temporada.

Mas há pontos positivos, claro. Além da presença forte de Patrick Stewart em atuação prazerosa de se assistir, a interação de Picard com Hugh, se vista separadamente, é bem construída e bem estabelecida. Da mesma forma, a música-tema de Star Trek tocando na ponte da La Sirena depois que Raffi consegue as credenciais diplomáticas foi um toque bacana que precisa ser repetido mais vezes. E, finalmente, o ponto principal: esse foi o primeiro episódio da temporada que não usa a nostalgia – para além da presença de Picard, óbvio – como mola mestra.

Nostalgia é algo que, em doses homeopáticas, tende a funcionar muito bem, reunindo gerações diferentes de espectadores. Star Trek: Picard começou fortemente assim, como era de se esperar, mas o problema é que a temporada não havia ainda largado de verdade essa muleta narrativa. The Impossible Box, ao focar inteiramente na história do presente, deixa a nostalgia um pouco de lado e passa a se valer apenas das novas situações e novos personagens apresentados na série. Claro que os problemas que apontei não são magicamente apagados simplesmente porque o roteiro muda de tom nesse aspecto, mas é sem dúvida algo a ser aplaudido, ficando a torcida para que isso continue nos quatro episódios finais.

A 1ª temporada de Star Trek: Picard vai caminhando para seu fim sem ainda dizer a que realmente veio para além de ressuscitar um amado personagem clássico da franquia. Os showrunners parecem por um lado não saber como desvencilhar-se do passado e, por outro, como trabalhar o presente de maneira cadenciada, com roteiros realmente bem estruturados que fujam das soluções tiradas da cartola. Será uma pena se a temporada acabar sem que Jean-Luc Picard retome seu trono de ícone de Star Trek.

Star Trek: Picard – 1X06: The Impossible Box (EUA, 27 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Maja Vrvilo
Roteiro: Nick Zayas
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List
Duração: 55 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.