Crítica | Star Trek: Picard – 1X07: Nepenthe

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Seria bem mais honesto aos meus olhos se Star Trek: Picard se chamasse Star Trek: Epilogue. Afinal, a história das filhas de Data é até interessante e bem amarrada na mitologia do ex-Almirante Picard, mas a grande verdade é que, até agora, ela só tem sido mesmo uma espécie de desculpa para que os showrunners revisitem personagens clássicos para dar-lhes histórias que cobrissem as últimas duas décadas e uma espécie de fim, seja ele da natureza que for.

Não que seja terrível a ideia de uma série baseada quase que exclusivamente no saudosismo, mas o ponto é que essa escolha tem soterrado a narrativa que deveria, pelo menos em tese, ser a principal. Se espremermos, os sete episódios que foram ao ar até agora não têm material novo suficiente para preencher nem três de duração regulamentar de 45 minutos. Claro que é muito bacana ver Data, Sete de Nove, Hugh e, agora, Deanna Troi (Marina Sirtis) e William Riker (Jonathan Frakes) novamente depois de tanto tempo, mas o problema reside em que todo esse fan service tem tido um fim em si mesmo, não impulsionando a história efetivamente, talvez com exceção dos flashbacks/sonhos com Data.

Chega a ser cansativo ver Kestra (a simpaticíssima Lulu Wilson), filha de Troi e Riker, agir como uma Trekker e nos contar – usando o diálogo canhestro com Soji como desculpa – toda a importância de Data e o porquê de ele se preocupar em ter uma filha com saliva e muco. É igualmente cansativo todo o gigantesco texto expositivo de vários minutos em momentos diferentes para revelar os detalhes da vida e morte de Thaddeus, filho mais velho da dupla, que tragicamente sonhava em ter um lar que não fosse uma nave espacial e que, certamente fazendo inveja a J.R.R. Tolkien, inventou nada menos do que 12 línguas para seu mundo imaginário, uma delas de uma espécie de borboleta que “fala” com o bater de asas (ohhhh, tão poético…).

Tudo isso fica parecendo material perfeito para uma HQ ou um livro que focasse o intervalo entre a aposentadoria e a volta de todos esses personagens, mas que, em um episódio que deveria ser “de fuga”, em um momento já adiantado de uma temporada de apenas 10 episódios, torna-se uma torneira que jorra informações completamente desnecessárias apenas para fazer os olhinhos dos fãs brilharem. Novamente, nada contra SE os roteiros não cismassem em pegar a história principal e colocar em segundo, por vezes terceiro plano para que todo personagem “de uso único” da temporada ganhasse seu momento para lembrar do passado.

Mas claro que Nepenthe lida também com a trama principal de duas maneiras. Uma sacrificando Hugh em mais uma demonstração de que os personagens coadjuvantes, nessa temporada, têm, de uma forma ou de outra, vida curta. Eles são utilizados apenas quando necessários – outras vezes nem isso, pois não dá para dizer que a presença de Sete foi exatamente necessária – e descartados logo em seguida, seja com uma singela despedida, seja com, no caso aqui, uma morte besta que poderia ter sido evitada pelo ninja romulano que, por sua vez, até ganha bons momentos de pancadaria, mas que ainda não mostrou a que veio para além desses breves arroubos de ação.

A outra maneira é na perseguição à La Sirena por Narek, o romulano que não toma banho, com direito a um flashback que finalmente revela o que aconteceu com a Dra. Jurati naquele fatídico encontro com a Comodoro Oh, chefe da segurança da Frota Estrelar. E que flashback… hummm… porcaria, não? Bastou a vulcana fazer a fusão mental com a doutora para ela “descobrir” que o universo será destruído se os sintéticos forem autorizados a existir e em momento algum agir como uma cientista e indagar sobre o que ela viu. Afinal, para que, não é mesmo? É muito melhor engolir uma pílula rastreadora logo de cara e concordar, assim como quem não quer nada, em matar o ex-namorado assim que o encontrar, além de sabotar a missão de um honrado ex-Almirante. Faz MUITO mais sentido do que parar para pensar um pouco, pesquisar e, por incrível que pareça, até mesmo conversar com as pessoas ao seu redor! Talvez Jurati seja uma crítica social, como a encarnação audiovisual das hordas de internautas que leem somente as manchetes de artigos de redes sociais e acreditam piamente no que está escrito sem qualquer bom senso ou verificação… Se for assim, pelo menos a personagem tem uma função nobre, caso contrário tomara que ela não saia de seu coma ou morra engasgada com bolo…

Se eu fosse unicamente pela nostalgia, minha avaliação do episódio seria muito mais alta, mas a grande verdade é que nostalgia só é boa em filmes e séries se ela não se torna o centro da história, invertendo completamente a lógica narrativa. Convenhamos que só pelo fato de a série chamar-se Star Trek: Picard, trazendo Patrick Stewart de volta, toda a dose necessária de saudosismo já estava devidamente preenchida e com folga. Mas não. Aparentemente isso não era o suficiente e, no lugar de contar uma história nova, olhando para a frente e apenas por vezes lembrando-se do passado, os showrunners resolveram olhar para trás o tempo todo, apenas de vez em quando olhando para a frente. Uma pena.

Star Trek: Picard – 1X07: Nepenthe (EUA, 05 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Doug Aarniokoski
Roteiro: Samantha Humphrey, Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jonathan Frakes, Marina Sirtis, Jonathan Del Arco, Tamlyn Tomita
Duração: 59 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.