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Crítica | Star Wars: A Luz dos Jedi (A Alta República), de Charles Soule

por Ritter Fan
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Para analisar Star Wars: A Luz dos Jedi (Light of the Jedi) de maneira mais justa e equilibrada, é necessário um pouco de contextualização, ainda que ela não resolva por completo os problemas do romance. O primeiro aspecto a ser levado em consideração é que o livro, primeira parte de uma trilogia, porque, aparentemente, nada mais pode ser escrito em um volume só, é o carro-chefe do lançamento da linha de publicações batizada de A Alta República, o mais recente esforço da Lucasfilm/Disney em explorar uma época da linha temporal da franquia que não havia ganhado foco anteriormente: um momento de paz e prosperidade na República 200 anos antes dos eventos de A Ameaça Fantasma.

Em 05 de janeiro de 2021, simultaneamente à publicação de A Luz dos Jedi, focado no público adulto, houve o lançamento de Star Wars: Um Teste de Coragem (A Test of Courage), para o público mais jovem, Star Wars: O Grande Resgate Jedi (The Great Jedi Rescue) e, no dia seguinte, a primeira edição da minissérie em quadrinhos Star Wars: A Alta República. Além disso, diversas outras publicações foram anunciadas para todo o ano de forma a fazer o investimento ganhar tração e abrir um novo “espaço” nesse vasto universo. Com isso, A Luz dos Jedi, por ser o carro-chefe e abre-alas, carrega o ônus de ser o sustentáculo desse novo momento e o romance, por ter essa característica, precisou focar em “construção de universo” muito mais do que em pequenos núcleos ou personagens.

Portanto, Charles Soule, conhecido por escrever diversas HQs de Star Wars para a Marvel Comics, tinha como missão desbravar um novo período e, com isso, ele naturalmente acabou sacrificando desenvolvimento de personagens, tendo eleito – provavelmente por determinação da editoria – uma abordagem ampla, muito mais preocupada em apresentar esse novo período do que mergulhar em personagens específicos. Em linhas muito gerais, o que ele faz é, primeiro, afirmar algumas dezenas de vezes como a República é pacífica, diversa, inclusiva, preocupada em abarcar planetas de todas as orlas, algo que é simbolizado pelo sloganNós somos toda a República” (ou, no original, We Are All the Republic) e pela construção do chamado Starlight Beacon, uma base gigantesca não só para facilitar as comunicações interplanetárias como também para servir de apoio médico, militar e social para todos os cidadãos.

Em segundo lugar, Soule estabelece a Ordem Jedi como a grande salvadora da galáxia e criando situações que permitem o uso variado da Força, inclusive uma espécie de reunião de poderes de quase todos os Jedi em prol de uma missão específica sob comando da Mestre Avar Kriss (personagem criado por Soule para a minissérie em quadrinhos Star Wars: A Ascensão de Kylo Ren. Além disso, claro, o autor introduz um novo vilão ou, melhor dizendo, uma nova entidade vilanesca batizada de Nihil que, pelo menos no que se refere a este primeiro livro, não tem conexão alguma com os Sith, o que é um bom refresco, mas não exatamente o suficiente para tornar-se particularmente ameaçadora.

O estabelecimento de uma República unida e atenciosa com todos os seus habitantes é consideravelmente cansativo menos por ser uma sucessão de clichês de uma utopia forçada e criada não organicamente e mais pela repetição incessante de mantras tendo a Chanceler Suprema Lina Soh como símbolo maior dessa “inocência” e simplicidade narrativa que transforma basicamente todos os personagens em “bonzinhos” ou “malvados”, inexistindo meios-termos ou os chamados tons de cinza. Com isso, Soule deixa de entregar algo verossímil e nuançado, preferindo empregar as quase quatro centenas de páginas para erigir uma República desinteressante e clichê até a raiz do cabelo.

No lado vilanesco é a mesma coisa, como se os Nihil fossem – e são – a versão espelhada da República com suas brigas internas, desrespeito por vidas, inclusives as suas próprias e interesses mesquinhos e pequenos, como se eles fossem, na verdade, uma turba de Vikings espaciais com direito até mesmo a máscaras assustadoras e técnicas de batalha sujas e amorais. Há que se destacar, porém, a forma como Soule aborda a característica que diferencia os Nihil de outros vilões: seu controle do hiperespaço. Em A Luz dos Jedi, as rotas de hiperespaço são os principais elementos de ficção científica e é um acidente ocorrido em uma delas com repercussões enormes pela galáxia, especialmente para o Sistema Hetzal, que serve de gatilho narrativo para Soule que, aos poucos, revela a natureza da tragédia e como os Nihil têm vantagens nesse modo de navegação interplanetário. Sem dúvida é um conceito interessante que o autor até consegue desenvolver a contento, mas diria que não é um atrativo considerável o suficiente para justificar a existência do livro.

Aliás, um problema até mais sério é a ausência quase que completa de personagens desenvolvidos de forma a nos preocuparmos com eles. Há até muitas mortes no romance, mas elas são vazias exatamente em razão desse aspecto. Até mesmo Avar Criss, que se conecta com a Força como se ela fosse uma música (outro elemento repetido ad nauseam na história), parece mais uma personagens genérica que não tem voz suficiente ao longo da narrativa apesar de seus feitos impressionantes. Outros Jedi, como o Mestre Loden Greatstorm e seu Padawan Bell Zettifar, são igualmente introduzido às pressas, como parte do “cenário” e não como personagens tridimensionais de verdade. Os não Jedi então, como a própria já citada Chanceler Suprema, parecem mais notas de rodapé que são definidos por suas características básicas e não por suas personalidades.

A Luz dos Jedi, apesar de todos os seus pontos negativos, não é uma leitura desagradável. Se encararmos o romance como o começo de um projeto mais amplo, ele até consegue funcionar minimamente bem, ainda que Soule talvez devesse ter usado pelo menos um de seus personagens como linha mestra para sua história, sem basicamente sair citando nomes novos com algumas características físicas para que ele, nos volumes seguintes, ou, provavelmente, outros autores em outros romances ou em mídias diferentes os desenvolvessem. O livro, portanto, é o equivalente ao contorno narrativo de um filme ou série de televisão, quase que como um tratamento inicial onde todas as ideias são jogadas e nenhuma realmente esculpida em detalhes, o que pode afastar muita gente desse começo da Alta República.

Star Wars: A Luz dos Jedi (A Alta República) (Star Wars: Light of the Jedi – The High Republic / EUA, 2021)
Autor: Charles Soule
Editora: Del Rey
Data original de publicação: 05 de janeiro de 2021
Páginas: 382

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