Crítica | Star Wars Jedi Knight II: Jedi Outcast

Espaço: Alzoc III, Kejim, Artus Prime, Ruusan, Yavin 4, Nar Shaddaa, Bespin, Cairn
Tempo: 12 d.B.Y.

Tendo recentemente recebido um novo port para PlayStation 4 e Nintendo SwitchStar Wars Jedi Knight II: Jedi Outcast é um capítulo especial na história da galáxia muito, muito distante no mundo dos games. História essa muito bem-sucedida, em especial se levarmos em conta que se trata de uma franquia fazendo a costumeiramente amaldiçoada travessia das telas do cinema para os jogos eletrônicos. São diversos os títulos baseados na saga que merecem menção não apenas como tie-ins para os aficcionados, mas como ótimos games pura e simplesmente.

Porém, a escolha do Grande Camundongo em nos presentear com um port deste jogo em específico pode causar algum estranhamento, particularmente para os não iniciados na subsérie de que faz parte. Não, o problema não é “apenas” o título trambolhento e pouco esclarecedor — ao contrário do que pode parecer, trata-se tecnicamente do terceiro jogo da série Dark Forces, que opta por se apresentar como sequência numerada de Star Wars Dark Forces II: Jedi Knight, antes de dispensar o recurso à numeração na sequência final Star Wars Jedi Knight: Jedi Academy. Ufa! Para além de títulos desnecessariamente complicados, trata-se de uma sequência em todos os sentidos do termo — ambientação, narrativa, jogabilidade. Por que, então, nos jogar de paraquedas nesse momento em específico?

Longe de nós em tentar adivinhar o que se passa exatamente na cabeça de nossos soberanos disneyianos (ou quiçá suspeitar que a facilidade em portar a engine de Quake III Arena seja o grande atrativo da manobra), o fato é que Jedi Outcast é um game especial. Um daqueles jogos que traz boas lembranças em quem jogou e, embora não seja um nome imediatamente reconhecível como Knights of the Old Republic, trata-se sem dúvida de um “clássico cult” entre os fãs da franquia que viveram a nada saudosa época do AMD K6-2 500.

Mas afinal, o que é que torna esse jogo tão especial? Em suma: a produtora Raven Software consegue nada menos do que retomar todas as qualidades dos dois primeiros jogos de Dark Forces, atualizando a experiência para os padrões do novo milênio e completando-a com uma das melhores mecânicas de combate Jedi já criadas em um game. Um dos pontos fortes indiscutíveis da subsérie, que até então tinha sido produzida domesticamente pela LucasArts, era justamente o foco narrativo. Em total sinergia com os melhores elementos do Universo Expandido, a trama continua a aproveitar bem a esteira de entradas bem-sucedidas como a fabulosa trilogia de Herdeiro do Império e o bem-recebido Shadows of the Empire, bem consciente das vantagens da mídia em poder brincar “às margens” da cronologia e do cânone.

Acompanhamos aqui o protagonista Kyle Katarn em um momento já avançado de sua jornada. O cara já passou de stormtrooper a mercenário a aspirante a Jedi, e após umas rusgas com o lado negro encontra-se ao início do game em uma fase de renúncia e desligamento da Força. Além de gabaritar o sourcebook de criação de personagens para um RPG de Star Wars, o personagem é a fusão perfeita do heroísmo juvenil de Luke Skywalker e a badassery de Han Solo: uma armadilha minuciosamente preparada para capturar os incautos seguidores do evangelho de George Lucas. Mas engana-se quem pensar que esses elementos são explorados de forma superficial pela narrativa, que se mantem coesa, sem excessos e bem construída através de diálogos bem escritos e interpretados de maneira bastante competente pelo elenco de dublagem.

Apesar de deixar de lado as tosquíssimas clássicas cenas em live-action, a história continua a entregar momentos pra lá de interessantes que conferem a ambientação necessária para justificar a incursão nesse universo. Afinal de contas, um jogo derivado de uma franquia como Star Wars deve sempre ser mais do que uma mera skin audiovisual sobre a jogabilidade básica do gênero em questão, não? A jornada pessoal de Katarn se entremeia com explorações muito interessantes do lore da franquia, que conseguem a mágica de explorar os mistérios sobre o passado dos Sith e Jedi sem drenar o interesse do conceito através de exposições exageradas.

Já um elemento retirado que poderia parecer uma perda no campo da narrativa, acaba se justificando pelo lado da jogabilidade. Trata-se da possibilidade de optar entre a evolução de Katarn nas habilidades da Força, escolhendo entre habilidades da luz ou sombrias. A escolha prova-se acertada na medida em que possibilita ao jogo apresentar um level design mais enxuto, que leva em conta um set de habilidades pré-determinado no desenho de seus puzzles e desafios variados, ao invés de ter que contornar as diferentes possibilidades de uma skill tree.

Embora a escolha entre luz e trevas possa ser uma oportunidade ótima de amarrar narrativa e jogabilidade, trata-se de um elemento que faz mais sentido se pareado com mecânicas de mundo aberto e uma narrativa mais solta — como é o caso, por exemplo de inFAMOUS. Em um esquema mais linear e focado, como é o caso aqui, essa linearização acaba tendo como resultado fases que continuam a contar com ambientes expansivos, porém sem o sentimento de caos visto nos títulos anteriores.

E isso leva ao ponto central de toda a experiência, que é a exploração das mecânicas de shooter sob o controle de um “Jedi cinza” em busca de vingança e respostas. O game joga muito bem tanto em primeira quanto em terceira pessoa, o arsenal diversificado de armas possibilitando o uso de diversas estratégias com equipamentos icônicos da franquia. Além de tocar o terror com uma balestra laser (sempre um ponto positivo), dá até mesmo para criar uma empatia com os pobres stormtroopers, já que o spread da arma padrão deles explica em parte sua fama como atiradores.

O grande destaque, no entanto, fica por conta do combate com o sabre de luz. Embora eu ache as habilidades de Força um tanto desajeitadas, esse fator é mais do que compensado pelo excelente combate de espadas, que consegue simular com perfeição o estilão dos icônicos combates Jedi das telonas. É um resultado que parece obtido através da mais pura exploração caótica de uma engine que não certamente não foi feita com samurais espaciais em mente, mas que consegue algo mais sólido do que tentativas posteriores muito mais complexas.

Esse excelente sistema de combate com sabres de luz não depende de uma simulação realista de física, nem da recriação das acrobacias intrincadas dos Jedis pululantes da República — afinal de contas, o que se pretende recriar são cenas de ação relativamente simples cujo grande atrativo é a ambientação narrativa e audiovisual.

Com a imersão garantida, o sistema de combate de três estâncias garante horas e mais horas de diversão Jedi, tanto na camapanha single-player (cujos modos de dificuldade superiores permanecem impenetráveis para mim mesmo após todos esses anos) quanto no modo multiplayer altamente customizável. Não me surpreenderia saber que o jogo original ainda possui vida no multiplayer, nem que seja na LAN particular de uns barbados saudosos — as versões para console que me desculpem, mas esse tipo de coisa só funciona com mouse e teclado para mim.

Jedi Outcast mostra que não basta sobrepor uma skin temática em Quake III para se obter um autêntico shooter de Star Wars. Não basta desenhar um mapa tridimensional bonitinho da Estrela da Morte, colocar sabres de luz e balestras Wookie nas mãos dos jogadores e botar a id Tech 3 pra rodar — é preciso ambientar o jogo no universo de Star Wars, e isso é feito de forma exemplar tanto pela campanha single-player quanto pelo sólido multiplayer. Infelizmente o port novo, apesar de facilitar a revisita a esse universo já distante, pega o bonde no meio da viagem. Porém, os jogos originas de Dark Forces encontram-se disponíveis via Steam, GOG e Origin — ainda que em rendições pouco otimizadas. Se você curte um jogo velho e nunca jogou, confira. Se já conferiu, relembre. A Força é forte neste aqui, vai por mim!

Star Wars Jedi Knight II: Jedi Outcast
Desenvolvedora: Raven Software
Lançamento: 26 de março de 2002 (PC), 19 de novembro de 2002 (GameCube, Xbox), 24 de setembro de 2019 (PlayStation 4, Switch)
Gênero: Tiro em primeira pessoa, tiro em terceira pessoa, hack and slash
Disponível para: PC, Nintendo GameCube, Xbox, PlayStation 4, Nintendo Switch

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.