Crítica | Star Wars: Os Últimos Jedi, de Jason Fry

Espaço: D’Qar (base da Resistência), D’Qar (órbita), Ahch-to, Cantonica (Canto Bight), Crait, Frota Imperial, Frota da Resistência
Tempo: 34 d.B.Y.

Diferente da adaptação literária de O Despertar da Força, que foi lançada poucos dias depois da estreia do filme, a de Os Últimos Jedi chegou às livrarias americanas meses depois, o que é bom para evitar spoilers. Além disso, a única edição existente do livro foi marcada com a designação “Edição Estendida” o que não faz nenhum sentido primeiro por não existir uma versão “não estendida” e, depois, porque não há mais extensão aqui em relação ao filme do que houve na adaptação da obra anterior. Ou seja, não passou de uma jogada de marketing para vender mais e que seria repetida na adaptação de Han Solo: Uma História Star Wars.

O que importa mesmo é saber se, diferente de Alan Dean Foster, Jason Fry, responsável por, dentre outros livros no novo cânone do Universo Star Wars, Alvo em Movimento e A Arma de Um Jedi, conseguiu usar o material extra para criar uma obra coesa e que vai além da completa servidão em relação ao filme que adapta. E a resposta é claramente sim, ainda que o resultado tenha ficado aquém de outra adaptação recente, a que Alexander Freed fez de Rogue One. Seja como for, Fry foi capaz de não só capturar o espírito do roteiro polêmico de Rian Johnson, como dar voz interior aos personagens-chave, desenvolvendo raciocínios e tornando mais palatáveis algumas decisões cuja lógica porventura tenha escapado aos que somente assistiram ao filme.

No entanto, é importante salientar que Fry não inventa moda, não altera o conteúdo da obra original e não acrescenta nada que não seja dedutível simplesmente parando para pensar, com serenidade, sobre as questões que Johnson esmerou-se em colocar em seu roteiro por mais que alguém possa rolar os olhos para o resultado (e não faço parte da turma que desgosta de Os Últimos Jedi, muito ao contrário). O natural espaço maior que uma obra literária tem dá-se a apenas fazer o leitor mergulhar no processo mental dos personagens, notadamente, aqui, Luke Skywalker, a General Leia Organa e Poe Dameron, que são os três que, em minha opinião, ganharam mais tratamento na adaptação e muito acertadamente. Além disso, há tempo para que outros personagens, como a irmã de Rose, que morre logo no início no bombardeio comandado por Poe no Dreadnought imperial, ganhe um mínimo de destaque, conectando-a melhor com a história.

Fry escreve de maneira fluida, em terceira pessoa onisciente, transitando bem entre cada personagem e cada situação e capturando corretamente a voz de cada um deles, mesmo Rey que, assim como no filme, tem relativamente pouco espaço para construção. As ações simultâneas em Ach’to (treinamento de Rey), Canto Bight (a procura do Mestre Decodificador) e nas imediações de Crait (a desesperada fuga da Resistência), que são problemáticas no filme sob o ponto de vista da montagem, ganham uma temporalidade mais lógica sob a caneta de Fry, ainda que o problema macro continue, algo que, vale lembrar, também existe de maneira saliente em O Império Contra-Ataca. As próprias sequências em Canto Bight ganham significado maior no livro, tornando-se mais bem costuradas ao restante da narrativa e perdendo um pouco daquele impressão de sidequest razoavelmente inútil.

Igualmente, as sequências de ação intensa – destaco o conflito em Crait – são muito bem narrados por Fry, sem que ele se perca com detalhes técnicos, mas oferecendo o suficiente para transmitir verossimilhança à história, com o uso de Rose para esse fim. Claro que ele não é mágico e problemas do roteiro, como a introdução tardia da Vice-Almirante Amilyn Holdo como personagem importante na história, não são solucionados, ainda que ele tente estabelecer uma conexão maior entre ela e Poe, durante a ausência momentânea de Leia.

No final das contas, Jason Fry entrega uma boa adaptação de Os Últimos Jedi, de leitura fácil e fluida que apara tantas arestas quanto humanamente possíveis e olhando com um pouco mais de profundidade para personagens importantes e outros nem tanto. É assim que se trabalha um livro certamente tão controlado pela titular da franquia como esse: usando o pouco a mais que se pode ir (a tal “versão estendida”) para contar uma história que funcione tão bem nas páginas quanto no filme, respeitando as características inerentes das respectivas mídias e ignorando as jogadas de marketing.

Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi, EUA – 2018)
Autor: 
Jason Fry (baseado em roteiro de Rian Johnson e personagens criados por George Lucas)
Lançamento nos EUA: 06 de março de 2018
Editora nos EUA: Del Rey
Páginas: 336 (capa dura)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.