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Crítica | Star Wars: The Rising Storm (A Alta República), de Cavan Scott

por Ritter Fan
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O projeto da Lucasfilm de cavar um novo período ainda não explorado no Universo Star Wars, que os pensadores da empresa batizaram de High Republic – ou Alta República -, que se passa algo como 200 anos antes de A Ameaça Fantasma, continua firme em forte com uma cobertura multimídia entre livros para diferentes idades, quadrinhos e audiodramas, possivelmente para construir mitologia forte o suficiente para permitir futuras explorações no audiovisual e, claro, merchandising, a verdadeira vitamina financeira dessa tão adorada franquia. Nessa linha, Star Wars: Luz dos Jedi, de Charles Soule, abriu as porteiras desse período no começo de 2021, com The Rising Storm, agora, continuando diretamente os eventos lá apresentados.

A primeira coisa que o leitor deve compreender – e aceitar – é que esses livros, mesmo sendo em tese da linha de material “adulto”, realmente objetivam criar os alicerces da Alta República para os leitores, o que automaticamente prejudica qualquer semblante de profundidade. Luz dos Jedi é, basicamente, uma apresentação rasa de diversos novos Jedi, de Padawans a Mestres, com a introdução de um inimigo, a horda pirata batizada de Nihil que viaja pelo hiperespaço por intermédio de rotas especiais, que mais ninguém tem e que permite que ele literalmente se materializem em qualquer lugar. A aposta, nesse começo, é como pescaria com puçá, ou seja, algo rápido, com o objetivo de trabalhar quantidade e não qualidade.

Mesmo com a troca de autor, com Cavan Scott pegando a continuação, a pegada mais ampla continua firme e forte, ainda que seja perfeitamente possível perceber uma maior individualização de personagens, inclusive com a mais do que bem vinda introdução de dilemas morais para alguns deles, inclusive e especialmente o jovem mestre Elzar Mann, que se mostra mais suscetível a usar os atalhos do Lado Sombrio da Força e o Padawan Bell Zettifar, que sofre pela perda de seu mentor Loden Greatstorm, dado como morto no primeiro romance, mas que, na verdade, foi capturado por Marchion Ro, o sinistro líder dos Nihil.

Estruturalmente, The Rising Storm é fundamentalmente igual à Luz dos Jedi, o que é uma decepção. No lugar de um suposto acidente catastrófico em uma rota hiperespacial que faz com que pedaços de uma nave entre em choque com os planetas do Sistema Hetzal, Scott usa como gatilho narrativo a realização da primeira Feira da República, uma espécie de versão do Universo Star Wars das edições da Exposição Mundial/Feira Mundial que acontecem por aqui, só que em escala galáctica, algo entusiasticamente patrocinado pela Chanceler Lina Soh em sua continuidade tentativa de dar atenção aos mais diversos planetas de orlas mais afastadas, o que começou com a inauguração do Starlight Beacon no primeiro livro. Como era de se esperar, os Nihil usam a oportunidade para atacar, causando milhares de mortes e um gigantesco caos, evento que toma grande parte do romance e durante o qual também somos apresentados a Ty Yorrick, uma mercenária que manipula a Força e usa um sabre de luz, além de ter tido treinamento como Jedi, somente para deixar a Ordem por razões não reveladas (pelo menos aqui neste romance).

Em termos de ação, ela é ininterrupta, algo que Cavan Scott espertamente escrever em capítulos curtos que tornam a leitura bastante cadenciada e fácil. Por outro lado, ainda que de maneira menos irritante que Charles Soule, Scott continua a tendência de tratar todo mundo da maneira mais unidimensional possível. A quantidade de personagens – novos e já conhecidos – contribui para isso e, mesmo que haja mais atenção dada aos três nomes que nomeei mais acima, o texto vai só um pouquinho além da superfície, com o autor muito mais preocupado em lidar com os detalhes do ataque e a tentativa de organização de uma defesa dos Jedi isolados no planeta Valo.

Do lado dos Nihil, a coisa não é muito melhor, pois o conflito interno entre os líderes dos piratas é basicamente repetido, com algum destaque maior para Marchion Ro que, no começo, sai em uma missão secreta para achar uma arma secreta que é revelada apenas nas últimas páginas, sem maiores explicações ou contextualizações, que devem ficar apenas para o próximo romance (a ser lançado em janeiro de 2020, ao que tudo indica). Aliás, há um desequilíbrio narrativo grande no romance, pois o espaço dado ao ataque dos Nihil à feira em Valo é enorme, com o contra-ataque dos Jedi ganhando espaço apressado e minúsculo nos últimos capítulos somente como uma preparação de um cliffhanger sem vergonha.

Novamente, eu entendo a necessidade de fazer com que esses romances sejam um pontapé inicial de todo um novo período a ser explorado em mais detalhes futuramente, mas a sensação é que não há muito acontecendo na história além de conflitos genéricos que, admito, geram alguns momentos interessantes de uso da Força, mas não compensam de verdade a leitura de obras deste tamanho. The Rising Storm consegue ser melhor que Luz dos Jedi porque têm a vantagem de partir de personagens que já haviam sido introduzidos, mas, por outro lado, muito poucos destes mesmos personagens ganham efetivo desenvolvimento aqui para fazer valer de verdade a leitura de mais esse alicerce de um “novo universo”.

Star Wars: The Rising Storm (A Alta República) (Star Wars: The Rising Storm – The High Republic / EUA, 2021)
Autor: Cavan Scott
Editora: Del Rey
Data original de publicação: 29 de junho de 2021
Páginas: 448

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